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a natureza das coisas

Quem sabe quando é o fim? Quando percebemos a linha divisória entre o ficar e o partir? Será que é quando o beijo se torna apenas toque e o som do estalo dos lábios não mais contém o nosso nome? Será que é quando as mãos não sentem a necessidade das mãos ou quando ficar torna-se mais penoso do que partir?
Quem sabe quando é o fim? Quando notamos o céu a fechar-se e os pés a inquietarem-se no lugar onde antes encontravam firmeza? Será que é quando o silêncio deixa de ser uma conversa sem palavras e pesa feito as asas de um pássaro sob a chuva? Será? Será que é quando os olhos não mais sentem a necessidade dos olhos ou quando ficar revela-se mais incerto do que partir?
Quem sabe? Vamos, diga-me. Isso vem como um sinal vermelho, o final de uma estrada, a morosidade dos calendários, ou o pó sobre os móveis? Vem quando os corpos já não querem arriscar uma dança, as línguas mofam nas bocas ou quando murcha a última flor no jardim? Quando? Quando?
Tentamos ainda cantar as nossas músicas e erramos porque há tempos não as cantamos - E por que deixamos de cantá-las? – tentamos sussurros que soam como gritos, palavras que mostram o avesso das palavras. Buscamos ainda acertar o passo, mas os pés já não sabem dos passos - Quando deixamos de caminhar juntos? quando começamos a caminhar em direções opostas? - e há tantas pedras no caminho. Ei, quem são aqueles ali, nos porta-retratos com sorrisos tão nossos? Por que saímos dos porta-retratos? Deveríamos ter ficado ali, não?
A chuva já não cai em rimas de sonetos – você dizia isso, lembra? - e falta uma peça na engrenagem dos dias. Ah, essa vontade de deixar ir e essa vontade de agarrar-se ao outro que sucumbe. Como esconder-se da dor que se levanta com sol, que se mostra no desespero agudo da chaleira, nos tique-taques dos relógios insones, nas cortinas em inércia muda feito nós? O chão tão movediço, a casa tão grande, a cama ainda maior. Diminuímos ou foram os móveis que cresceram? E como vamos saber, não é? Tudo acontece na surdina como aranha tecendo a teia. Invisíveis e mordazes são as tramas da vida.
Não, não sabemos quando é o fim, ninguém sabe, e nunca estamos preparados para ele – e quem se prepara para o pior? – Ele apenas chega. Porque só o fim entende do fim. E quando ele vem precisamos entender que, mesmo em meio aos destroços, amar é também deixar ir. Sim, mesmo que a pessoa esteja dentro de nós feito um caroço numa fruta, atolado no mais fundo na polpa do que somos.
Prender-se a um relacionamento que já acabou é o mesmo que, para não cair num abismo, agarrar-se a duas facas afiadas. Há alguns casos em que é preferível o abismo – a reconstrução? – a perder as mãos. Os acordes ainda vão vibrar dentro de nós, é certo, e em noites frias, ainda mais, muito mais, mas a canção uma hora acaba, fato. Assim, é, queiramos ou não, a Natureza das Coisas. O seu plangente alaúde não toca na mesma vibração dos nossos apelos. Porém, o mais importante é saber que, apesar de tudo, estaremos sempre prontos - de novo - a atravessar o fogo para ir ao encontro de alguém que nos espera.

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