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ad infinitum

São várias as angústias. A primeira é se vou escrever o texto exatamente como eu o concebo. A mente é sempre mais ardilosa do que as mãos. E acredito, até que me provem o contrário, na independência desses dois mecanismos. Então, depois de escrito aquilo que pretendia, ou acho que pretendia, por fim, digo: ainda não é, não é.
Então, vem a segunda angústia: trabalhar aquilo na página – digo aquilo porque ainda não estou certo de que o que escrevi é mesmo um texto – trabalhar para tirar o Davi da peça de mármore. Usar o martelo e o cinzel, devagar, bem devagar como quem lida com uma bomba. Michelangelo dizia: o Davi tá ali, é só aparar as arestas. Coisa difícil, muito difícil, dado que corre-se o risco de furar o olho do menino, já que Michelangelo só tem um.
Mas a coisa vai. E ainda, não é, não é. Mas vai. É preciso se contentar com o que se apresenta, não há muita saída. De uma certa forma, aquilo – ainda aquilo? – sou eu. E a coisa vai, e vamos. Depois de um grande esforço, um sol, mesmo que turvo, desenha-se no horizonte. A angústia permanece, branda, mas ainda angústia. Não grita, sussurra, mas ainda angústia.
Têm mais angústias? Sim, várias. Até o final do texto e muito além. Depois de pronto – pronto? – um texto nunca está pronto. Cansa-se do nosso cansaço, ri, desdenha feito uma mulher que não nos quer, mas gosta do jogo. Barganha. Então, digamos, depois do quase texto ali – melhor assim, não? – o lemos em voz alta como quem implora a salvação aos céus, mas, de antemão, sabe dos pecados. A voz segue firme em alguns trechos, noutras, aturdida feito uma criança sozinha numa multidão.
Uma palavra vai aqui, outra vai acolá. A estrutura amolece, quer ser outra coisa. Não seria melhor esquecê-lo e começar do zero? Pode ser, mas há algo, pouco que seja, brilhando na lama. Burilamos: essa frase vai assim, aquela de outra forma. Aí algo racha. É mesmo como disse Saul Bellow: mexer com o antes, sempre altera o depois. Refazemos, então. Vem a vontade de desistir. Escrever é desafiar essa vontade. Conseguirei escrever esse texto? Bela pergunta.
Após inúmeras leituras - numa gangorra de vislumbres – poucos – e de frustrações – muitas - temos ali o que podemos chamar de... texto – ainda não é, não é -. Digo então, que vou deixá-lo um pouco de lado, para que mature – quem sabe ele mesmo se reescreva – mas, vem a angústia de resolver logo o imbróglio. Volto antes do previsto. Novas leituras, novos desenganos. Sei lá. Revisar um texto é como deixar moedas nas cuias dos santos, nas igrejas: estão sempre insatisfeitos. E por acaso dizem obrigado? Então, mais e mais moedas. Por que nenhum santo é rico? Ora, não sou rico, apesar das tantas moedas que meu pai, minha mãe, tias, tios, avós me deram. Mas, sempre disse obrigado. Voltemos então, ao texto.
Não há mais como mexer. Isaac Babel – perdoe-me as citações - disse uma vez que a linguagem se torna mais límpida e forte não quando não se pode mais acrescentar uma frase que seja, mas sim quando já não se pode retirar mais nenhuma. Penso que é o que se apresenta agora.
No final de tudo – não das angústias. Elas sobrevivem aos textos – é o que temos, o texto ali. É o que é e não o é, entende? O miramos, de esguelha, como quem cobiça a mulher do próximo. De angústia em angústia, vai morrendo o Neves. E é assim, a coisa. Porém, não vivo sem isso – não vivo? – Sigo nesta epopeia feito o galo que bica o milho, mas também come areia - e não sobrevive? – Quero dizer que, apesar de todas as angústias da escrita, do põe e tira - mais tira -, do constante sinal amarelo oscilando para o vermelho, das inúmeras revisões enxuga-gelo, das insanas leituras e releituras, em voz alta, clamando aos céus impassíveis, entre outras coisas, ainda às prefiro a terrível angústia de não escrever. Prefiro o não é, o não é, o não é ad infinitum. Quando não estou escrevendo, estou me preparando para escrever. É o que sinto. Não há jeito. Tá escrito.

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