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ai, meu santinho!

Eu tenho fé, mas se assim posso dizer, ela vibra numa corda muito particular. Acredito na beleza oculta das coisas simples. Mais ou menos como o delicado e imperceptível fio que alinhava as contas num colar. O trabalho silencioso e necessário das sementes, por exemplo. A sua relação com a terra. Como também a ordem obstinada das células, os milhões de espécies no mundo, cada uma com perfil e função específicos, objetivos únicos. No entanto, é o que parece, todas convergindo para um único ponto, um só centro, feito os cavalinhos no carrossel.
Mas quando falo da fé na beleza oculta das coisas simples, refiro-me mesmo às coisas ainda mais simples. Por exemplo, não acredito em santos, mas consigo acreditar na imagem de um santo. Sobretudo se ela foi feita por um senhorzinho que quando se sentava para trabalhar uma dessas imagens, convertia-se, ele mesmo, num santo. Observava-o ali, em sua roupa rota, sob a luz trêmula de uma lamparina improvisada. Via seus movimentos precisos. Ele ali, usando uma ferramenta que mais parecia um brinquedo do seu filhote barrigudinho e chorão.
Reparava nas coisinhas delicadas: uma horda de santos e anjos, a sua volta, a admirá-lo concentrado em seu ofício de simplicidade. Elas ganhavam vida, nasciam, abriam os olhos. E podíamos perceber nesses olhos a vontade de salvar o mundo. Ele fazia santos ou eles é que o faziam? Tão detalhista. Com um pequenino corte, um pouco de verniz, e algumas gotinhas de tinta vermelha e marrom, dava vida a uma chaga purulenta. Da pequena ferramenta estropiada, que de um lado cortava, do outro, lixava, nasciam essas coisinhas tristes, sofridas, divinas.
Foi dele, um dia, que eu, quando muito pequeno, comprei um dos santinhos. Foi difícil escolher, todos ali, no chão da feira, coloridos, brilhando sob o sol inclemente. Por fim, comprei o menino Jesus de Praga. Adotei-o como o meu protetor. Um menininho com o mundo em uma das mãos, a outra abençoando a humanidade sempre perdida, e no meio do peito, um coração em carne viva, se calhar, batendo.
Quando as coisas iam bem, eu pegava o meu santinho e o enchia de beijos como faz um pai no filho que ama. Quando as coisas iam mal, dessa vez, apertava-o em minhas mãos e em desespero, dizia, repetidamente: “ai, meu santinho”. Devia ser engraçado. Ele nada me respondia. “Ó quão insondáveis são os juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos”. Era o que me dizia o padre Juracy diante da minha indignação com o silêncio do menininho. Insatisfeito, eu relegava-o ao abandono, a solidão e ao escuro de uma caixa de sapatos, para dias depois, libertá-lo, porque algo de bom acabava acontecendo, e que eu, óbvio, logo atribuía aos poderes do meu santinho.
Bom, mas a minha fé nele não nasceu exatamente naquele tempo. Ali, era apenas uma amizade, como temos, às vezes, com um gatinho. Na verdade, nasceu num outro momento. Foi depois, muito depois, quando eu já até o tinha esquecido por completo. Eu havia crescido, seguia a minha vida como todo mundo. Minha mãe já havia falecido, e dela, à época, eu havia separado algumas coisas. Coisas que nos enchem de vontade e receio de visitá-las. Sabemos que estão ali, mas a rondamos pisando leve, como para não despertar um ser numa mescla de anjo e monstro que dorme profundamente. Fuçamos, então, um dia, essas coisinhas num sentimento de chegadas e partidas. Nelas tudo nasce e morre ao mesmo tempo. É como acalentar um filho que acabou de nascer no quarto do filho que morreu. O fato é que ao abrir uma das caixas, encontrei o meu santinho, e em volta dele, presa por um durex envelhecido, havia uma tira de papel, amarelada, e nela estava escrito: “ai, meu santinho”. Logo sorri. Conhecia muito bem aquela letra: o A, o M, e o S ostentosos, no início das palavras. Era a letra da minha mãe. Li repetidas vezes como se com isso eu pudesse trazer alguma coisa do que já havia se quebrado, como, às vezes, fazemos quando colamos uma foto que se rasgou na tentativa de manter a pessoa ainda ali. Foi nesse momento que a minha fé no meu santinho se solidificou de vez.
Guardei-o comigo. Está aqui – até hoje - e toda noite, sem falta, desfio uma oração. Não para ele, não para os céus nem para os anjos, santos, deus, nada disso. Rezo, primeiro, para a beleza oculta das coisas simples, para que perdurem, e nos guie, assim, como uma estrela, mesmo que distante, guia o navegante. Depois, rezo para o senhorzinho que fazia santos - e como não? - Nunca vou esquecê-lo, ali, à luz bruxuleante da pobreza, a trabalhar como se orasse. Um verdadeiro santo. E que meu santinho proteja tudo isso. Afinal de contas, ele não durou tanto para nada, né?

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