Quando encontro um grande autor – são raros. É o mesmo que encontrar rastro de Pégasus. E eles existem – leio-o com olhos de ourives. Piso leve como se num campo minado, como se numa igreja escura com receio de despertar os santos e suas súplicas milenares.
Quando me deparo com um autor imenso – são únicos. É o mesmo que se deparar com a sarça ardente. E ela queima – escuto-o com ouvidos de um deficiente visual. Apuro-os como um indígena a ouvir o coração lamentoso da terra, como um gato a captar passinhos ligeiros por entre os móveis no escuro da casa.
Sei que há algo ali, logo nas primeiras páginas. Um livro que começa bem, dificilmente, terminará ruim. Acredito nisso, e vou. O estilo? Não ligo. Quero a voz, a voz de um enterrado vivo, a voz de alguém perdido numa noite fria. As frases bem construídas? As palavras bem escolhidas? Não dou a mínima. As livrarias estão cheias disso. Experimente, vamos, abra um livro qualquer por ali, logo nas primeirs gôndolas e verá o autor tentando articular algo numa cadência lógica, bonitinho, certinho, mas tudo soa como um indivíduo prestes a ser executado e pedindo por sua vida.
Um grande autor não diz, deixa indícios, abandona tecidos rasgados na floresta, rastros de sangue, galhos quebrados. O autor não é um mentiroso, inventa verdades. Mentiroso é aquele que cria mentiras e com isso fortalece ainda mais as nossas descrenças. Como não torcer pelos Bundren, para que cumpram o desejo de Addie Bundren, a velha matriarca, de ser sepultada em Jefferson? De que lado ficou, ó querido leitor, em Moby Dick? Do lado da baleia branca ou do ranzinza Ahab? Ah, estive no deserto do Mojave quando Bandini autografou o livro e o jogou ao vento, ao nada. Senti, nos olhos, aquela poeira que encerrava o poder de cobrir toda a cidade de Los Angeles.
Hemingway escrevia seco como um soco. E gosto. Quando traduziram Dostoiévski direto do russo perceberam que ele não floreava tanto. E gosto. Mas também gosto das comparações, das metáforas, as boas, evidentemente. Aquelas que até acreditamos que não se prestam ao papel de tão inopinadas, mas que no fim, se encaixam feito bebê no ventre da mãe. Por exemplo, esta: “mantinha o sorriso na dificuldade que um halterofilista aguenta o peso no ar, a tremer de esforço. Aposto que mal eu virasse as costas o largava no chão, extenuado” é do Lobo Antunes. Ele fala de um doente, velho, cansado, num hospital e com poucos dias de vida. De onde ele tira isso? Diz que faz rapidinho, na mesa da cozinha, em pé, e pronto. Como? Como? Que voz, não?
Mas também gosto da prosa de Philip Roth. É curiosamente simples, espontânea e inegavelmente dele, só dele. Ele diz que os floreios e as metáforas lamurientas o entediam. Alguém disse que ler Roth é o mesmo que ser jogado de cabeça numa briga de família, com todos ali, a berrar para serem ouvidos. Uma briga que o leitor, mesmo contra a vontade, toma partido. Que voz, não?
Busco a voz. Estilo a maioria tem ou diz que tem, assim, como quem afirma ter sapatos. Busco o sussurro de alguém morrendo num triste quarto de pensão. Um Ivan Ilitch sucumbindo enquanto todos conversam no andar de baixo. Porque a voz é o que fica. É uma nódoa na memória do leitor. O resto passa.
Quando encontro um grande autor - e percebo isso logo nas primeiras linhas - levanto a guarda porque sei que a briga vai ser boa, merecida, honesta e única. E não vence o autor nem o leitor; vence a obra. Apenas um sabe falar e o outro deve escutar para que a magia aconteça. Porque por trás de todo grande autor há sempre uma grande obra – raríssimas – E uma obra-prima, ó, persistente leitor, tem vida própria, torna-se independente, descola-se de seu criador. E é grande e rara porque é aquilo que uma vez disse o grande Coleridge: “contém em si mesma as razões de ser como é e não de outra maneira”. Encerro com Coleridge. E tem coisa melhor?
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