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e que assim seja!

Estive pensando. Sei que não nos ensinam, mas quando mesmo aprendemos a namorar? O fato é que na adolescência passamos um tempão a olhar para as meninas que não nos olham. Parecemos pedintes, com a cuia dos nossos olhos, a mendigar belezas. Elas ali, lindas, em movimentos de trapezistas, de bailarinas, de ginastas, sei lá, rodando no bambolê a nos deixar tontos. Elas ali, deus, dando pulinhos nas amarelinhas riscadas com giz roubado dos professores. Danadas. Olhando-as em seus saltinhos penso que se pegarem ar voltam é para o lugar de onde vieram: a morada dos anjos.
Nas festas ficamos pra lá e pra cá a mostrar o que não temos: não temos história, não temos emprego, não temos futuro, não temos nada, a não ser um rosto repleto de espinhas e que procuramos escondê-lo como um larápio esconde seus saques. Quando nos cansamos dessa semeadura sem frutos, desse ir e vir a mostrar o que não temos, encostamo-nos à parede a observá-las, ali, soberbas, conscientes de suas belezas, a nos rejeitar de esguelha ou com seus olhos lânguidos sobre nós. Olhos cheios de ondas do mar a nos empurrar para longe.
Elas vão e vêm, sem parar, e vamos juntos, tontos, em seus movimentos estonteantes. Nossos olhos, como periscópios hipnotizados, as seguem sem descanso. Que narizes mais soberbos. São como proas de navios orgulhosos, chegando antes de tudo, rindo da nossa insignificância. Sim, narizes que riem, e riem pra valer de nós, ali, na parede, largados feito mortos esquecidos na praia. Ouvimos as botas, os sapatos no piso, o tilintar de bijuterias, sentimos o cheiro dos cabelos perfumados. Percebemos, então, um brinquinho num lóbulo delicado - Com certeza o criador decidiu projetar aquele lóbulo num dia de domingo de sol e céu azul, depois de uma noite bem dormida - Brinco que, vez em quando, refletia a luz do estrobo. Seria um sinal, o brilho daquele brinco? Perguntávamos em nossos delírios.
Sim, sei que não nos ensinam, mas ainda insisto: quando aprendemos mesmo a namorar? Quando a coisa acontece? Sei que é como aprender a andar de bicicleta, não se esquece mais, porém, pra namorar não precisamos das duas rodinhas até conseguirmos dar as primeiras pedaladas sozinhos. Namorar é sem rodinhas e com quedas e mais quedas, uma atrás da outra a arranhar a nossa esperança como arranhávamos os joelhos nas quedas das nossas monarks e calois da vida.
O fato é que quando eu estava com meus olhos pidões numa menina nem aí pra mim, outra me rondava que até a confundi com a minha sombra. Nem sei como aconteceu, mas logo estávamos no meio do salão, juntinhos, a rodar numa languidez de exilados. Não sei se dancei. O que lembro é que passei a eternidade da música a tentar não pisar nos pés dela, a procurar saber se meus braços iam em seus ombros, na cintura, onde? Confesso que não sabia o que fazer com eles. Na verdade, tive um receio danado de que descolassem do meu corpo e caíssem no chão. Eu devia dizer, baixinho, em seu ouvido, alguma coisa bonita que eu lera em algum lugar ou devia permanecer em silêncio como se dançasse com um manequim de loja? Não sabia. Alguém ensina essas coisas? Acho que não.
Não ensinam mesmo. Cada namoro tem seu jeito de ser. É como um clássico que se renova a cada nova leitura. Sim, isso eu sei, mas não sei mesmo quando aprendi - aprendi? - a namorar. Logo meus braços estavam mais sólidos em meu corpo, meu coração já não se encolhia diante de olhos lânguidos e narizes soberbos. Minhas palavras saíam firmes feito lanças, e depois delas, agora, havia sempre um sorriso do outro lado como um sussurro numa concha do mar. O que percebi também é que independente de saber isso ou aquilo, há algo que paira entre e que não o conseguimos decifrar. É mais ou menos como o balançar acentuado dos barcos no cais anunciando a tempestade iminente. E então, a coisa acontece. Mas é preciso estar atento a esses sinais. Porque não costumam se repetir. É uma vez e não mais. Uma coisa meu tio me ensinou. Ele disse: “se perceber esses sinais, vai sem medo”. E assim tem sido. E que assim seja!

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