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escrito num sopro

Viver é isto, estar aqui, aqui, sem vontade de mudar nada, apenas estar. E sentir os pés no chão, sentir o toque das mãos, a mão de um amigo que está aqui, e toca a tua mão não como a pedir apoio, não como a pedir algo, mas apenas para dizer que está aqui.
Aqui, estou, digo para mim mesmo. E tudo está como deve ser. Sigo a avenida que não me pede nada, apenas está e é. Os ônibus passam por mim feito os dias nos calendários. Vão e vêm como ponteiros nos relógios. Viver é ver tudo isto. Seguir com as mãos nos bolsos não como uma resignação, não como ceder o pescoço ao algoz, mas sim, como uma sabedoria, uma certeza de não ter uma missão, apenas uma vida a ser vivida. Sem fracassos e sem vitórias, só a vida só.
Hoje estive com amigos, pude sentir o coração deles batendo no meu. E eles me disseram tantas coisas, foram tantos encontros, foram tantos desencontros, mas estamos aqui, resistimos, sobrevivemos. Sim, alguns estão mais velhos, alguns perderam coisas, pessoas importantes, mas permaneceram, mas permaneceram, permanecemos. E fui olhando as árvores centenárias e pensando nos meus amigos. E quantas coisas estas árvores já viveram/viram. Posso ver os caminhos que suas lágrimas traçaram em seus caules, troncos e folhas, mas estão aqui a tirar os chapéus para mim feito avós sorrindo domingos. E fui tão sozinho e acompanhado com as pessoas olhando suas dores nos faróis dos carros. Oh, carros tão solitários pedindo aconchego em seus desesperos de aço e ferrugem.
Vi meus amigos que até então eu pensava que não existissem porque estavam tão dentro no distante de mim. E foram tantas palavras, soavam como beijos na testa. Os meus amigos ali, aqui, tão longe de deus e tão perto de mim. Tão bom ter amigos. Não é como ter alguém do lado, mas alguém contigo. Como um abraço em nós mesmos, como o nós no espelho em nós que nos beija. Como alguém que nos cobre numa noite fria.
Vim pelas ruas como se os meus passos não fossem meus, e não eram. Meus pés eram dos meus amigos, eles pisavam por mim, ditavam os caminhos, suas companhias eram como sopros. Segui as pétalas que caíam dos dedos finos dos meus amigos. Mãos que perderam, mas estão aqui, aqui. E eu não estava sozinho, não estou. Ninguém está sozinho com amigos, tantos. Voltei sozinho e com eles, comigo. Voltei sozinho e tão eles, deles. Voltei sozinho e tão acompanhado de mim.
Amigos se encontram no final do ano mas esse encontro é a soma de todos os encontros que sonhamos, que tentamos, todos os encontros que acabaram seguindo outros encontros. E num abraço, num só abraço há todos os abraços. E quando eles me sorriem há todos os sorrisos que tentamos dar, todos os sorrisos que acabaram sorrindo para outros sorrisos. E quando percebo estou assobiando e é uma canção da infância que achava que havia esquecido. E quando percebo estou dançando e é uma dança que achava que havia esquecido. E todos os meus amigos, aqueles que se foram e os que acabei de deixar acenando, estão aqui, assobiando e dançando comigo em volta dessa fogueira bem no meio do meu peito que queima. Somos crianças felizes com o nascer do sol. Gratidão. Com essa palavra apenas poderia resumir esse texto longo. E vou, vou neste mais um ano. Cercado de amigos que amo. E amarei sempre. Porque somos amigos.

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