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lista de saudades

Por esses dias, senti vontade de catalogar as minhas saudades. Não sei para quê, mas senti. Apenas escrevê-las, umas sobre as outras, como fazemos com as listas de compras. No primeiro momento, apenas uma página em branco. Olhei para um lado, para o outro, fechei os olhos, abri-os e ainda a página em branco. Lidar com saudades é coisa delicada. Precisamos respirar fundo e esperar, então, elas pousam, como assim fazem os passarinhos. Pousam nos fios da nossa tênue lembrança.
Do que tenho saudade? Diga lá, túnel do meu tempo. Ah, café com leite, bem quente, eu diante da Colorado RQ, numa ociosidade livre, sem culpas, esparramado no sofá a assistir a Chaparral, Bonanza, Tarzan, Daktari: o leão vesgo, Lassie, Daniel Boone, e tantos, tantos outros. Subir na goiabeira para fugir do mundo. Ah, comer alfenim feitos pelas minhas tias, as bolachas de rapadura preparadas pela minha vó. Bom mesmo nem eram as bolachas, mas sim o beijo na nossa cabeça, o cheiro das mãos dela, de alfazema. Medo de que depois disso?
Mas não estou a falar de medos. Isso fica para um outro momento. A lista deve ser ainda maior, acredito. Quero falar de saudades, catalogá-las. Quero escrevê-las. Se as escrevemos de frente para trás, então, é capaz que as vivenciemos novamente, como o Tony Newman e Doug Philips, na série O túnel do Tempo, voltando ao passado. Para onde eu gostaria de voltar? Me vejo subindo a calçada alta da mercearia do seu Manin – cochilando no balcão - para comprar quebra-queixo. Vez em quando, arrancá-lo como quem descola o doce céu da boca. Na madrugada, ouvir o apito do vigia a espantar os larápios. Naquele tempo – qual? – os ladrões apenas roubavam galinhas e batiam as nossas carteiras. Coitados. Nossas carteiras sempre vazias. Eles que aproveitassem bem a nossa foto três por quatro tirada num lambe-lambe. Nem acho que éramos nós ali, naquelas fotos. Passar por debaixo da catraca – acho o nome borboleta mais bonito – e que diacho é uma catraca? As borboletas têm asas, as catracas, não.
Para catalogar as saudades precisamos entrar em labirintos, encontrarmo-nos com nós mesmos. O tempo é danado. Einstein disse que, numa dessas voltas na quarta dimensão, é até possivel abraçarmos a nossa vó que ainda vai nascer. Doido. Para tentar fisgá-las, arteiras que são as saudades, precisamos examiná-las com paciência de ourives. É preciso olhar bem para não entrar na rua errada, pegar atalhos indevidos. Saudades não gostam de atalhos. Há ruas que as saudades não passam, há outras onde elas ainda estão lá, sentadas na calçada, a matar o tempo.
Numa dessas ruas, minha mãe me arrastando pela mão, enquanto eu olhava as casas. Pareciam tão tristes ali em suas inércias de casas. As pestanas decaídas a fingir que dormiam. Havia árvores, havia flores, havia a noite e um cheiro forte de dama da noite. Quando sinto esse cheiro, sinto saudades. Então, vejo a mão de minha mãe na minha a me levar. E é só isso, no entanto, quanta saudade.
Meus soldadinhos de chumbo, meu relógio do Mickey, a minha coleção de livros de bolso: de faroeste, de espionagem, de guerra – tinha tanto medo dos alemães e achava que os americanos sempre iam nos salvar – Que coisa! Meu time de botão, guardado no talco roubado das minhas irmãs, meus álbuns de figurinhas, todos incompletos, sempre. Ir ao cinema para ver Bruce Lee. Assistir aos Dez Mandamentos dez vezes, uma vez para cada mandamento. Chorar no escuro da sala e esperar que apagassem as luzes novamente para que ninguém visse os meus olhos úmidos com minhas pálpebras trêmulas iguais as letras grandes subindo na tela do cinema. Sonhar com a atriz, dormir com o cheiro dos lençóis passados pela minha mãe. Era como dormir coberto por um beijo. Tomar suco de seriguela, cajá, caju bem geladinhos até a cabeça doer.
Tem ainda o cheiro dos livros novos da escola, ah, o cheiro do café da minha mãe e que ela o preparava assobiando canções tão tristes que me partiam o coração. Café nenhum tem aquele cheiro. Até hoje. Viajar todo o Mapa-Múndi com a ponta do dedo: “onde fica a Austrália? O Zimbabwe? O Azerbaijão? E já lá, em cima do país, o dedo, de unhas sujas, a desembarcar do avião, a reservar o hotel, a falar a língua do país. Brincávamos assim.
Olha quanta saudade. Se isso aqui não fosse uma crônica, haveria mais, muito mais. Seria pra lá de Guerra e Paz. Coitado do Tolstói. Para as saudades não existe folha em branco, é só esperar, ter paciência de ourives. Saudades são geniosas, sim, mas como os gatos, uma hora querem aconchego, muito. Pode apostar.

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