Pular para o conteúdo principal

não me faz falta

Até pouco tempo, não tinha telefone, digo, celular, e tudo bem. Nasci com ele? Nasci com pernas, braços, mãos, cabeça. Disso sim, preciso. As pernas para seguir, mesmo sem saber para onde, como sempre, os braços para encostar-me em algo, numa tarde modorrenta, e contemplar o nada, as mãos para guardar teus beijos em concha, a cabeça para perdê-la, vez ou outra: isto a que chamo o sentido da vida. O que se mostra sem que estejamos à procura. Necessito disso, sim. Telefone para quê?
Porém, recentemente, comprei um. Não porque acho que preciso dele – aliás, não gosto de telefone. Já explico – mas porque minha companheira, a toda hora, dizia-me: compra um, compra um, compra um. E para que ela parasse de me dizer: compra um, compra um, eu o comprei. Pronto. Simples assim. Ele não faz ruído algum – eu não deixo - nem mesmo vibra. Fica sobre a escrivaninha, mudo, a me contemplar impassivo. Meus compromissos estão na minha cabeça – ainda uso relógio de pulso – e não tomo remédio para nada. Devo, mas vou seguindo feito o bebê que vira a cara para o mingau.
Quando saio, geralmente, esqueço-me dele. Só me dou conta quando vejo alguém na rua a falar com aquilo como se com uma mãe possessiva. Os telefones são possessivos. Quando chego a casa há inúmeras ligações perdidas. Perdi as ligações, mas ganhei outras coisas. Não me fez falta. Falta mesmo me faz o picolé de castanha, de leite condensado, de cremólandês, como dizia o Chico do picolé.
O que tem hoje, Chico?
Castanha, leite compensado e cremólandês
Ih, Chico, é condensado.
Hum?
Sinto falta do quebra-queixo do seu Manin. Ele lá com uma espátula, cortando a guloseima preguenta numa paciência de bicho-preguiça para desespero dos nossos olhos e das nossas glândulas salivares. - nunca me esqueci disso desde uma aula de biologia, no ensino fundamental.
Mas voltemos ao telefone. Veja, já o havia esquecido por completo. Bom, não gosto de telefone porque dele só me chegaram/chegam notícias desagradáveis. E nem podemos cortar o seu pescoço como antes se fazia com os mensageiros das más novas. Bom, foi por um telefone que me informaram da morte do meu irmão. Numa tarde que prefiro esquecer, ele acendeu seu último cigarro, fumou só até a metade, deitou-se e morreu. Foi o que me disseram, pelo telefone. Foi por um telefone, numa madrugada fria, longe, que ela disse que estava de partida. Guardo ainda a tua voz sob a toalha da mesa e vez ou outra vou lá conversar contigo para não me esquecer da tua voz, sabia? foste, no entanto, estou ainda aqui a te ouvir me dizer que está de partida. São os teus passos no corredor? Foi, pelo telefone, que soube da morte do meu velho e depois, da minha mãe. Dizem que dormindo, os dois, como quem abre uma porta num sono profundo e entra no infinito. Sou agora este despovoado dos meus, de mim. Trago a sensação de que já me tiraram tudo – e pelo telefone – e que já não quero mais nada. O que mais? Nada vale o deslizar da mão da velha no rosto frio do velho, imóvel. E depois:
_Agora, levanta daí e vai consertar o armário da cozinha.
Logo ele que detestava que lhe tocassem.
De modo que evito os telefones, pois ouvi-los tocar remetem-me à imagem de um homem de capa preta, descendo de uma carruagem, com tragédias entre os dentes. Tremo a ponto de procurar algo para me segurar e não cair. Perderei meu irmão novamente? ela vai partir, outra vez? Não basta uma só? meu velho, minha velha... enfim...
Comprei um telefone, já disse, ponto. Sigo enfim, como todo mundo, a flauta hipnótica de Hamelin. Mas fica ele lá em seu silêncio, fico eu cá com no meu. Não somos parceiros, somos apenas conhecidos a tirar o chapéu num cumprimento breve, de passagem. Não nos falamos muito. Só falo das minhas dores – quando falo – apenas para os mais próximos - e são poucos - aqueles que sabem ouvir. E por acaso, telefone sabe ouvir? Aqueles que me conhecem sabem que gosto mesmo é de falar e ouvir com os olhos, feito dois amantes num duelo. Quem vai sacar primeiro, não importa, contanto que seja olho no olho, cara na cara, vida na vida.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

obrigado, António Lobo Antunes!

Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...

a velha casa II

O jardim onde, nas brincadeiras, eu me escondia detrás das plantas espinhentas. Nas minhas primeiras incursões etílicas da juventude, eu tinha de pular o muro para que o portão, com seu incurável canto em falsete, não me denunciasse e meu pai se levantasse em seu arrastado de sono e fúria. A rua silenciosa, o apito do vigia, o Caravelo, mais lento que o andador da minha vó, prestes a cair sobre nós, ali, sob cobertores cheirando a amaciante e ferro de passar. Depois de rezar, em vez de dizer amém, eu dizia: “não amanheça, não amanheça”. Os dois lados escuros da casa – as lâmpadas sempre queimavam - que iam dar no quintal. Lá, a goiabeira onde chorei e sonhei e vi, dias sem fim, a menina sair do banho. O tilintar de pratos e copos dos vizinhos e a sensação de que dentro da noite eu estava protegido do mundo. Sobre a geladeira, o sarcástico pinguim que sabia mais de nós do que nós mesmos. Ali, em cima da velha cônsul asmática, ria a rodo dos nossos desencontros. A minha irmã sonâmbul...

a alça fria do peso da sua ausência

Quando meu irmão faleceu, não fui ao enterro. Adianto que não estou a justificar nada – e isso se justifica? -, mas é que meu pai havia morrido alguns meses antes e não vi mesmo força nenhuma para outra empreitada do nível ou pior. O que dói na morte não é somente a perda. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, morremos. É um acordo tácito, ou seja, antes de nascermos, não nos é apresentado um contrato no qual está escrito: “você vai nascer, passar um tempo – sabemos lá quanto – depois você morre. Assine aqui embaixo”. No curso da nossa vida, acabamos aceitando a ideia – aceitamos? – como um enfermo, uma hora, aceita a sua moléstia. O que machuca mesmo, e é aqui que a chapa esquenta, é a forma como a indesejada das gentes, como Bandeira gostava de denominá-la, tira-nos pessoas queridas. Melhor dizer nos arranca, sim? Porque é isso que ela faz. Lembro-me do meu pai, homem de voz de martelo de Thor com a qual até a casa se assustava. Mas era doce que nem os picolés de castanha da minha ...