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apesar de tudo, é bom

Por esses dias, me mudei. Apesar dos transtornos, gosto de mudar. Quando ficamos muito tempo num determinado lugar, as pessoas acham que nos conhecem demais, se achegam demais, enfim, fica tudo demais. As coisas das quais eu gostava tocam numa nota mais grave, quase inaudível, enquanto as que me incomodavam no começo, soam-me agora como as trombetas de Jericó. Difícil.
Saturam-me as britadeiras anônimas que me infernizam nos dias que mais preciso me concentrar em alguma coisa. Anônimas, porque parece que funcionam sozinhas. Sim, num determinado dia, uma delas dispara e fura o que for preciso sem a menor necessidade do suporte humano. Por que digo isso? Ora, porque quando o porteiro liga para o provável apartamento de onde vem o barulho, nunca tem alguém, e se tem, informam que ali ninguém está usando britadeira alguma. Anônimas sim. É preciso aceitar. Quer dizer, é preciso se mudar.
Ah, deu pra mim também os bate-bocas diários das quatro irmãs solteiras. Num determinado momento a briga é por um grampo, uma conta a pagar, noutro, por uma herança, sei lá. Enquanto a herança não sai, elas vão se matando numa guerra particular de gritos e perdigotos. Sem contar o cara do andar de cima com suas passadas elefantinas pra lá e pra cá num desespero pesado de condenado no corredor da morte.
Havia coisas boas? Sim, sempre há, né? A visão da rua da minha janela quando o sol laranja caía sobre um canteiro. Os trabalhadores, em suas lutas diárias, voltando para casa numa fé cansada no amanhã, os carros, feito bois indolentes, em sua tristeza metálica, a pastarem no asfalto. A lua, em noites inopinadas, branca e cheia de luz feito uma noiva louca que fugiu do altar, a inquietar amantes e insones. Havia isso e muito mais. Porém, sinto quando, enfim, devo selar o meu cavalo. Quer dizer, quando devo empacotar as minhas coisas e tomar um novo rumo. E sempre faço isso numa mescla de derrota e vitória. Sei lá.
Depois de logísticas e mais logísticas, de empacotar livros e mais livros que, é o que parece, multiplicam-se como frutos de amores ocultos na surdina das estantes. Depois de assinar aqui, acolá, e mais ali, enfim, em meio ao caos, feito um Diógenes arrastando tralhas, faço um sanduíche e o degusto numa proteção de redoma invisível, numa nobreza de rei sem trono, numa felicidade de criança pronunciando a primeira palavra aprendida na vida. O segundo sanduíche já não mais trará a mesma magia. Experimentem!
E então, depois de um tempo, tudo começa a se desenhar. Deixo de estar lá para estar aqui. Já não tenho mais dois tempos e dois espaços a me puxarem por cada braço. Vou habitando, me habitando, tomando forma. Daqui ainda vejo a noiva louca e branca a me espreitar da quina de um prédio vizinho. No apartamento antigo, morava no sétimo andar, no atual, moro no segundo, então, desço pelas escadas num traquina pega-pega comigo mesmo. Afinal de contas, nunca tive paciência com os elevadores. Sempre sonhei um dia com eles a esperarem por mim e não eu, por eles. Gosto do entorno do prédio: há um imenso jardim que percorro toda noite a conversar com as plantas, enquanto ouço a sinfonia dos talheres, e das vozes dos moradores em seus momentos sagrados, numa calma que me diz que o mundo ainda está vivo. Há o cheiro de dama da noite que, sem pedir licença, entra pela minha janela a perfumar tudo e todos. Em domingos azuis, passarinhos afoitos, em pulinhos ora desafiadores ora amigáveis, vêm bicar algo bem próximo de mim, .
Mas como não existe paraíso, e se existisse, é certo que, num dado momento, empurrar-nos-iam lá de cima – afinal e contas, somos todos rebeldes, né? - há, aqui, no meu novo espaço, aqueles que quando sobem ou descem as escadas, deixam as portas corta-fogo baterem sem pena. Há também um ruído bizarro toda vez que um carro desce à garagem, e principalmente, há uma empresa famosa, bem em frente do meu prédio, que pontualmente, solta uma sirene feito a birra de uma criança que teve o seu brinquedinho arrebatado por outra. Há isso e aquilo, sim, mas não somos avestruz para viver enfiando a cabeça no buraco - é o que dizem - toda vez que surge algo que nos aborrece, sim? Além do mais, acabei de desarrear o meu cavalo. Ele tá lá embaixo, numa felicidade só. Mas, um dia, é certo, logo estaremos na estrada outra vez. Enquanto isso, vivamos o presente, pois, como disse muito bem um grande escritor russo: o futuro não depende de nós. É isso.

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