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Ele lá, eu cá

Quando questionado sobre uma provável crença em Deus, Voltaire respondeu: “Nos cumprimentamos, mas não nos falamos”. Já Hemingway afirmou: "sim, às vezes, geralmente, à noite". Penso que minha relação com Deus é um pouco assim também. Em tese, deixo-O lá e Ele me deixa aqui. Só de vez em quando, nos cumprimentamos e até esbarramos um no outro, mas nada além disso.
Por essa relação assim, assim com Deus, vez em quando, tenho vontade de ir a uma missa. Quando vou, sinto-me o próprio Desplein, personagem de Balzac, no conto a Missa do Ateu. Mas, diferentemente do cirurgião cético e materialista, do conto balzaquiano, não vou ao templo para pagar missa para um pobre carregador religioso que me ajudara na juventude. Menos ainda vou à procura de Deus. Sigo ainda, desde a minha adolescência, os versos do poeta Rabindranath Tagore, que diz: “Abre os olhos e vê que o teu Deus não está diante de ti!" Ouço apenas a voz que me chama por dentro. Uma voz muito similar à da minha mãe me chamando para o jantar.
Vou à missa, já disse, porque sinto, vez ou outra, essa vontade. E sei lá de onde vem isso. Talvez estimulado pelo som dos sinos da basílica que fica próxima da minha casa. Tenho uma coisa com os sinos. Este era o som que num tempo já longe eu ouvia de outra basílica que também ficava próxima da nossa velha casa. Tempo em que éramos cinco e um morcego. Sim, um morcego que viveu tanto tempo com a gente que passei a considerá-lo um membro da família. Todos os dias, um pouquinho antes do sol, logo que minha mãe abria a porta, o malandro, ao voltar da farra, passava meio trôpego. Sorrateiro, ia acomodar-se em sua cama de bunda-cabeça para, é certo, recarregar as baterias e, à noite, meter-se novamente na folia. No seu ir-e-vir, era mais pontual que Kant em seus costumeiros passeios vespertinos.
Mas eu falava do som dos sinos, certo? - Penso, às vezes, que a bic tem vida própria - Esse som sempre me leva para desertos longínquos, com pastores de turbante a tocarem cabras magras que nos espiam de olhar vago por entre a poeira. Também homens de olhos vivos, ligeiros, repletos de histórias flutuando num rosto de pergaminho. Com gravetos, rabiscam no chão segredos milenares, enquanto fumam cigarros eternos que se confundem com os dedos. Pleno de imagens assim, me surge o desejo de prolongar essa viagem interna, minha e só. Então, quando dou por mim, estou subindo os degraus da basílica como se subisse aos céus.
Já lá dentro, guiado pela maioria dos fiéis, fico num senta-e-levanta sem fim, e vez ou outra, mexendo os lábios a buscar fragmentos de orações há muito perdidas no tempo. No saudai-vos uns aos outros, uma parte da missa, apenas lanço acenos para lá e para cá, a um e a outro, como assim também faço com Deus, já disse.
Uma missa comove, sabe? O Cristo ali, que não se cansa de sofrer, os acordes lamentosos do órgão de tubos que parecem brotar de algum lugar secreto, uma senhorinha numa resignação de santa a esperar - é o que parece - que todos os seus pecados da semana se dissolvam assim como a hóstia sobre a sua língua. Comove-me também o jeito que um homem se ajoelha. O quanto aqueles joelhos sofridos já não se dobraram diante dos mandos e desmandos da vida? Pergunto-me. Então, por mais que resista, e sei lá por que resisto, me comovo. Fecho os olhos para conter as lágrimas, assim como uma criança fecha a boca para não comer.
Hemingway estava certo. Há noites em que acreditamos mais em Deus, independentemente de qualquer coisa. Apenas acreditamos. São noites difíceis em que somos, de alguma forma, enlaçados por silvos sombrios. É como se todas as nossas angústias, feito um bando de hienas, rissem da nossa frágil existência no rolar incessante de lençóis impossíveis numa cama à deriva. Noites em que bebemos mais água, mesmo sem sede, em que vamos mais ao banheiro, mesmo sem necessidade, em que andamos pela casa mais do que já rodamos pelo mundo.
Porém, mesmo em noites assim, quando achamos que será mais fácil atravessar toda uma vida do que apenas algumas horas, quando todas as portas parecem emperradas, acabo deixando Deus lá e fico aqui, cá comigo, a me alimentar das costumeiras falácias. Sim, deixo o Criador em seu trono de incógnita e silêncio milenar e toco a minha vidinha. Vai saber, ele também tem lá as suas noites difíceis, sim? Se continuarmos nos acenando ou até mesmo, vez em quando, esbarrando um no outro, como há muito fazemos, já tá de bom tamanho. Pelo menos para mim. Sei lá como é isso para Ele, pois, como já disse, não nos falamos.

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