Pular para o conteúdo principal

num vale uma crônica

Tenho de entregar uma crônica e é aquela velha cantilena de sempre: não sei ainda sobre o que escrever. Cronistas amigos já me disseram para escrever várias crônicas e depois ir enviando, uma a uma. Não funciono assim. Crônica pra mim é que nem comida fresquinha. Exatamente, como aqueles pfs que cheiram a comida da vó, entende? Ou faço um texto novo e envio ou faço um texto novo e envio. Compreende?
Ah, pensei em escrever sobre a Rosa Montero, uma renomada escritora e jornalista madrilenha que comecei a ler por esses dias. Ela fala umas coisas interessantes sobre a ladra dos doces: a morte. Aliás, ela é fascinada pela morte, como também pela existência. Me chamou a atenção também os parafusos imensos que ela diz trazer no corpo. Dei então de pensar na morte. Nada tenho contra esta. Tenho mesmo birra é da vida. Este arranjo misterioso de lógica impiedosa e propósito fútil, como diz Marlow, um personagem num dos romances de Conrad. Se a vida não é um engano, posso dizer que a morte também não o é. É como diz a Montero: “como pode a gente vir ao mundo com tanta vontade de viver se um dia, é certo, vai morrer? Responda quem quiser.
Declinei de escrever sobre a Montero quando abri minha surrada carteira de documentos e encontrei a minha foto no estilo cabelo e barba anos setenta. Precisei olhar mais um pouco e bem de pertinho para acreditar que sou/era mesmo eu ali, no documento. Ah, eu poderia então falar do tempo particular das fotografias e do meu sutil sorrisinho, numa ironia em preto e branco, no canto dos lábios, como a me dizer: “num avisei?”.
Deixei minha foto que de mim nada mais tem e fui fuçar outras possibilidades: a velhice do meu gatinho que agora vive acordando em meio a pesadelos. Sei que são pesadelos, pois ele desperta em miados desesperados a me procurar pela casa e quando me encontra é um aconchego só. Preciso agora colocar bancos ao redor das mesas, da bancada, da cama, para que ele possa ir para onde gosta sem o risco de fraturar uma das patinhas. Mas não quis escrever sobre o danado. Deixei ele lá, a lamber-se feito uma bailarina num alongamento antes da aula de balé.
Quem sabe, escreva sobre política, corrupção, redes sociais. Não. Sobre violência, talvez – oh, Michael Haneke, você estava certo desde muito antes – Também não. Pior do que a violência é a violência gratuita. Se é que tem alguma diferença. Sei lá. Poderia escrever sobre as minhas empoeiradas fitas vhs com os filmes que colecionei no curso da minha vida. Ah, os meus tantos cds que insisto em mantê-los para não apressar a derrocada do mundo em curso. O progresso é apenas mais um vendedor de coisas inúteis e descartáveis. Se eu estivesse com o fusca que comprei na minha juventude estaria de bom tamanho. Confesso que às vezes me dá até ganas de fazer um curso de datilografia. Meu progresso anda pedindo carona para o passado. As pessoas vivem falando em mudanças enquanto os colecionadores tentam manter o mundo velho dentro de velhas caixas e em estantes empoeiradas. Vai entender.
Bom, até agora não escrevi sobre nada e menos um pouco, e pelo andar da carruagem, como dizia o meu avô, não sei se vai mudar muito esse quadro. Poderia falar sobre por que escrevo, mas o que eu poderia dizer depois da resposta de Cesare Pavese? Jules Renard disse que escrever é uma maneira de falar sem ser interrompido. Gosto também, mas a resposta do Pavese é ainda melhor. Quem sabe, fale sobre literatura, sobre a sua utilidade. Bernardo Carvalho nega a utilidade da literatura como um objeto prático. Claro, ela não é uma faca, um bule, um barbeador. Mas ele a concebe como ferramenta de expansão da alma, da inteligência. Uma forma de se conhecer com o jeito de ser e pensar dos outros. Foi de um adultério e suicídio de uma mulher simples, comum, desconhecida, que Tolstói pensou em Ana Karenina. Mas, não, não. Enquanto mais envelheço, mais sinto a necessidade de deixar essas questões de lado. É sempre a mesma história.
Sempre que não sei sobre o que escrever, é fato, lembro-me logo do texto A última crônica, do Fernando Sabino. Por isso, quando ando pelas ruas - e com isso não estou adiando o momento de escrever. Isso é lá com o Sabino - é uma loucura. Sim, fico olhando para todos os cantos pra ver se encontro uma família simples a comemorar o aniversário da filha pequena nos fundos de um boteco qualquer. Mas não me deparo com isso nem com algo que dispare alguma coisa na minha cachola. Ninguém mais sorri. Tá todo mundo num mundinho particular. Mundinho sisudo e de fones atascados nos ouvidos. Vida besta, hein, Drummond. Num tá valendo uma crônica, viu? Uma boa num tá mesmo. Essa aqui saiu assim, assim. É como dizia minha vó: “é o final dos tempos”. A tataravó dela, é o que dizem, falava a mesmíssima coisa. Eta, mundo besta que nunca acaba, né não?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

obrigado, António Lobo Antunes!

Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...

a velha casa II

O jardim onde, nas brincadeiras, eu me escondia detrás das plantas espinhentas. Nas minhas primeiras incursões etílicas da juventude, eu tinha de pular o muro para que o portão, com seu incurável canto em falsete, não me denunciasse e meu pai se levantasse em seu arrastado de sono e fúria. A rua silenciosa, o apito do vigia, o Caravelo, mais lento que o andador da minha vó, prestes a cair sobre nós, ali, sob cobertores cheirando a amaciante e ferro de passar. Depois de rezar, em vez de dizer amém, eu dizia: “não amanheça, não amanheça”. Os dois lados escuros da casa – as lâmpadas sempre queimavam - que iam dar no quintal. Lá, a goiabeira onde chorei e sonhei e vi, dias sem fim, a menina sair do banho. O tilintar de pratos e copos dos vizinhos e a sensação de que dentro da noite eu estava protegido do mundo. Sobre a geladeira, o sarcástico pinguim que sabia mais de nós do que nós mesmos. Ali, em cima da velha cônsul asmática, ria a rodo dos nossos desencontros. A minha irmã sonâmbul...

a alça fria do peso da sua ausência

Quando meu irmão faleceu, não fui ao enterro. Adianto que não estou a justificar nada – e isso se justifica? -, mas é que meu pai havia morrido alguns meses antes e não vi mesmo força nenhuma para outra empreitada do nível ou pior. O que dói na morte não é somente a perda. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, morremos. É um acordo tácito, ou seja, antes de nascermos, não nos é apresentado um contrato no qual está escrito: “você vai nascer, passar um tempo – sabemos lá quanto – depois você morre. Assine aqui embaixo”. No curso da nossa vida, acabamos aceitando a ideia – aceitamos? – como um enfermo, uma hora, aceita a sua moléstia. O que machuca mesmo, e é aqui que a chapa esquenta, é a forma como a indesejada das gentes, como Bandeira gostava de denominá-la, tira-nos pessoas queridas. Melhor dizer nos arranca, sim? Porque é isso que ela faz. Lembro-me do meu pai, homem de voz de martelo de Thor com a qual até a casa se assustava. Mas era doce que nem os picolés de castanha da minha ...