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querubim

Um menino mais que travesso
Apresento-lhes neste instante
Um nome ele tem, sim confesso
Mas isso não é o mais importante
Só com muita demora
Seu nome completo escutava
Na chamada da escola
Ou quando ele aprontava
Por seu cabelo diferente
Trançados que nem alfenim
ficou conhecido, sim, gente
pelo nome de Querubim
Era Querubim o dia inteiro
Todo dia e a toda hora
Que seu nome verdadeiro
Ninguém mais lembrava agora
A coisa ficou tão de boa
Que nem ele conta dava
Pensava que era outra pessoa
Quando seu nome soava
Resolvido esse quesito
Vou falar-lhes do menino em si
Era traquina quem nem periquito
Ligeiro tal qual siri
Soltava pipa e pião
Subia na goiabeira
De nada tinha medo não
Nem de fantasma e caveira
Que nem um peixe nadava
Era mesmo peralta
Um sonho tanto sonhava
Queria ser astronauta
Logo bem cedo pra rua corria
Era mesmo um deus-nos-acuda
Por qualquer coisa sorria
Até pra vizinha carrancuda
Ao voltar da escola
Nem o uniforme tirava
Ligeiro pegava a bola
Das horas nem mais lembrava
Mas a vida é mesmo arteira
Tem lá suas artimanhas
Nunca perde a estribeira
E dá suas tacadas tacanhas
Que nem carta chega um dia
No nosso endereço é certo
A tão inesperada agonia
E tudo fica incerto
Querubim deu de esmorecer
Sorria quase pra nada
Começou a emagrecer
De forma desenfreada
Gemia que nem gatinho
Só que gatinho com dor
Fazia as vezes beicinho
Num rosto já quase sem cor
O que tinha ninguém sabia
Os pais numa aflição de chorar
Querubim enfraquecia
com a morte em seu calcanhar
Ao médico levaram o menino
Fraco que nem uma mimosa
Era preciso ter tino
Para lidar com a maldosa
Exame ia, exame vinha
E Querubim num sofrido vai-e-vem
Tiraram sangue de onde não tinha
Era a luta do mal contra o bem
Magrinho que nem um graveto
Os olhos já quase sem luz
Vida e morte em dueto
Num canto de credo e de cruz
Mas quem procura acha
Assim diz o ditado
Uma hora ou vai ou racha
Pois nada fica parado
Enfim, o resultado temido
veio num papel branco
Querubim já desmilinguido
Contraíra sarampo
Essa maldita maleita
Um dia, foi caso complicado
E assim feito desfeita
Querubim foi desenganado
Naqueles tempos tão loucos
sob os olhos de quem o amam
O menino foi aos poucos
Apagando a sua chama
Olhos fechados, dentes trincados
E um sussurro de concha do mar
Vida havia no corpo quebrado
Mas ninguém mais a via lá
Pai aceitou da vida o mistério
Mas mãe rodopiou, bateu pé
Disse que nem por um império
Abriria mão da sua fé
Dias, noites e madrugadas
Do lado do filho não saía
Eram almas tão ligadas
Que não sabíamos mais quem morria
O menino roxo, bichado
A morte num desacalentar
A mãe com os olhos inchados
De tanto pedir e chorar
Com as mãos rotas
Da luta com a maldita sentença
Ia espantando as moscas
seguia firme na crença
Num gesto de desatino
num algodão embebeu chá
E foi alimentando o menino
De tudo queria tentar
Isso foi dia e noite,
Noite e dia sem parar
A morte em seu açoite
E a mãe em seu acalentar
Os entes queridos a observavam
Com os olhos da benquerença
Juntos todos lutavam
Mas havia também descrença
Ora, nem saber mais se podia
Se vivo ou morto ele estava
Mas a mãe ali permanecia
Do menino não largava
E certa ia em seu destino
De sofrimento e mansidão
Passava nos lábios do menino
O bendito chá no algodão
Então, aquilo foi coisa vivida
Ou foi truque do cansaço?
Viu mesmo um sinal de vida
Naquele corpo-bagaço?
Os lábios o menino mexeu
Num simples gesto de quem acorda
Ele os braços moveu
Como se lhe tivessem dado corda
Depois abriu toda a boca
E os olhos logo em seguida
Olhou todos em volta
Como quem busca a vida
Logo estava sentado
Arriscando até um sorriso
Ainda meio de lado
metade inferno metade paraíso
Engordou, firmou o corpo
E logo estava andando
Um andar ainda torto
Mas ia, sim se firmando
A doença ficou para trás
Que é lá que vai ficando tudo
Mas o passado é guerreiro mordaz
Tem sua espada e escudo
Por fim o menino estava pronto
Para pipas, piões e goiabeiras
Para correr feito um tonto
Perdido nas brincadeiras
Pronto estava para travessuras
Para ser livre e peralta
Podia comer gostosuras
E até ser astronauta
Portanto, lições sabemos de cor
Mas uma deixemos nos braços do eterno:
Que não há remédio melhor
Que o imenso amor materno

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