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sempre a descobrir tesouros nos velhos mares de sempre

Estava pensando nos autores com os quais me identifiquei logo de cara – e ainda me identifico – no curso da minha formação de leitor. Gosto demasiado dos escritores de aventura. E muitos desses, ao contrário do que muitos pensam, não trabalham apenas o conteúdo, mas sobretudo, a forma - Por exemplo, Jonathan Swift criou Línguas Fictícias. Cada lugar que Gulliver visita possui sua própria língua e peculiaridades. Em Liliput, o idioma é rápido e minúsculo, refletindo a futilidade da corte, enquanto em Brobdingnag, as descrições são detalhadas e brutas. A língua dos cavalos racionais, os Houyhnhnms, é desprovida de termos para mentira, traição ou poder, consistindo apenas em palavras de Verdade e Razão. Isso contrasta com o vocabulário corrompido dos Yahoos, os humanos.
É claro que quando eu lia esses autores ainda não captava todo o mecanismo. Colhia apenas a primeira história, aquela que flutua na superfície. E já estava de bom tamanho. Só depois de algum tempo é que fui entender a complexidade da obra. Em As Aventuras de Gulliver, o autor utiliza a linguagem não apenas como ferramenta narrativa, mas sim como recurso satírico para criticar a vaidade e a estupidez da sociedade inglesa do seu tempo. À época, precisei de inúmeras leituras para, enfim, ouvir o som da picareta batendo no baú de ouro – ou a botija, como dizia a minha avó – dessa grande obra.
Robert Louis Stevenson, outro autor que admiro, também trabalha forma e conteúdo. Foi reconhecido por aliar uma narrativa envolvente a uma prosa estilisticamente refinada. Ele não era apenas um contador de histórias de aventura, era também um artesão da linguagem. Stevenson dava extrema importância ao estilo, o que ele chamava de "dialeto da vida". Dr. Jekyll e Mr. Hyde, sua obra mais conhecida, é um exemplo perfeito de união entre forma e conteúdo: a estrutura da novela utiliza técnicas góticas e narrativas em primeira pessoa - perspectivas de Utterson, Lanyon e Jekyll - para explorar a dualidade humana.
Mas como já disse, essa coisa toda só fui mesmo captar muito tempo depois. Ali, sob o grande cajueiro da minha infância, enquanto saboreava picolés de castanha, eu apenas era Jim Hawkins, na escuna Hispaniola, sob o comando do Capitão Smollett, em busca do tesouro do Capitão Flint. Era o Dr. Henry Jekyll, a tentar separar o bem e o mal para isolar o lado sombrio dos homens. Era Gulliver, comovido, forçado a deixar a terra dos Houyhnhnms.
Pergunto-me por que esses livros ainda mexem tanto comigo e por que sempre recorro a eles quando necessito ler algo que me toca de forma contundente. Há um autor, não lembro bem agora, que disse que tem medo de reler os seus primeiros e adorados autores com receio de, em novas leituras, perder o vínculo criado com as primeiras impressões. Fiz muito essa volta a antigas leituras e nunca me decepcionei. É sempre um grande retorno. Eles me recebem de braços abertos. Deus! O que há nesses livros? como esses autores, em suas obras, nos divertem deveras e, ao mesmo tempo, nos fazem refletir profundamente sobre as coisas da vida? como? Pergunto-me.
Leio livros mais recentes e na maioria deles não encontro essa força. Penso, então, no que disse Walter Benjamin em seu célebre ensaio "O Narrador". O autor argumenta que a arte de narrar histórias entrou em declínio porque a capacidade de transmitir experiências, de boca em boca, e transformá-las em sabedoria, enfraqueceu. Benjamin observa que, após a Primeira Guerra Mundial, as pessoas voltaram do campo de batalha "mais pobres, não mais ricas, em experiência comunicável". A experiência, que antes era enraizada na tradição e compartilhada comunitariamente, tornou-se algo isolado e privado. Ele ainda diz que a narrativa tradicional foi substituída pela "informação". Ao contrário da história, que se perpetua e transmite sabedoria, a informação esgota-se no momento em que é recebida e não gera reflexão profunda. A modernidade gera isolamento, tornando o leitor moderno solitário, incapaz de integrar histórias em sua própria experiência e, portanto, incapaz de repeti-las.
Se é ou não isso, o fato é que me encantam os escritores dos séculos passados. Escritores que vieram de baixo e que passaram por poucas e boas. Eles viveram pra valer. Não escreviam em torres de marfim. Muitos viajaram o mundo, perderam tudo e alguns quase que até perderam a vida em aventuras, pelejas e peripécias. Charles Dickens, quando criança, após seu pai ser preso por dívidas, foi forçado a trabalhar em uma fábrica de graxa de sapatos em condições insalubres, uma experiência de pobreza que, segundo o autor, marcou sua vida e influenciou profundamente obras como "Oliver Twist". Jack London – meu preferido - antes de ser o autor aclamado de o Chamado Selvagem, o Lobo do mar, Caninos brancos, entre outros, viveu como um vagabundo/um hobo nos EUA, pegando carona em trens e vivendo com pouco ou nenhum dinheiro. Ele documentou experiências de pobreza em “A estrada” - nao confundir com "Na Estrada", do Kerouac. Apesar de aquele ter influenciado de forma notável o segundo - e em "O Povo do Abismo".
Além de Swift, Stevenson, London, Defoe, há muitos outros: Alexandre Dumas: mestre do romance de capa-e-espada, Júlio Verne: pioneiro da aventura científica e geográfica, Daniel Defoe: aurtor de Robinson Crusoé, um dos primeiros e mais importantes romances de aventura e sobrevivência, Walter Scott: criador do romance histórico, Rudyard Kipling, conhecido por seu O Livro da Selva. Há também Joseph Conrad, renomado escritor, marinheiro por décadas, usou suas experiências no mar para explorar temas como o isolamento, a moralidade, o colonialismo e a psicologia humana, tornando-se célebre por obras como Coração das Trevas, Lord Jim, entre muitos outros.
Releio esses autores sempre com o mesmo vislumbre e espanto de antes, já disse. Há sempre um peixe dourado e raro que pesco numa das minhas releituras e que me havia escapado nas anteriores. Sempre que abro uma dessas obras, me vejo de novo sob o grande cajueiro dos meus primeiros anos, e ali, me deliciando com picolés de castanha. O cajueiro há muito que foi cortado, e em São Paulo, onde vivo há anos, não há picolés de castanha – não aqueles – mesmo assim, me sinto sempre lá: a andar de trens, a percorrer estradas, a visitar cidades e países, a conhecer novas Línguas, a embarcar em navios cheios de grumetes, piratas e desordeiros. Sempre a descobrir tesouros nos velhos mares de sempre.

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