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algo sempre fica

quem se lembrará de mim
quando a flor nascer em meu nariz?
quando a terra, em peso e silêncio,
soterrar os meus desígnios? [tantos]
quem se lembrará de mim
quando o meu nome não soar no vento?
quando a chuva em delicadeza e fúria
lavar minhas pegadas na varanda?
[quem?]
quem se lembrará de mim
quando minha morada converter-se em útero de pedra?
quando a mulher que amo, em solidão e sonhos, [muitos]
enxugar a última lágrima?
quem se lembrará de mim
quando todas as malas forem desfeitas?
quando a rotina, com mãos de punhal e fogo,
sufocar a tudo e a todos?
[quem?]
nem Aristóteles acertou sobre os que ficariam
escrever no bronze do tempo
com penas de pássaros extintos
oh, e não é isso que faz um artista?
apesar de tudo
forjar a espada
ferir a pele-hipopótamo das palavras
[todos os dias, todos os dias, todos dos dias]
firme, na surdina
pois no silêncio trabalha o coração
e algo sempre fica.


(para antónio lobo antunes)


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