Pular para o conteúdo principal

Brenda é Brenda

Sou apaixonado por Brenda. Apaixonado que dói. Brenda em seu short branco, justo, e suas meias soquete brancas. Brenda ajeitando os óculos em seus olhinhos míopes. Ah, Brenda num traje de banho e com seu jeito muito particular de juntar os pezinhos no trampolim, pular na piscina, nadar, depois, agarrar-se na borda e olhar tudo em volta como se o mundo tivesse acabado de ser criado, partindo de uma piscina olímpica. Será que me vê? Eu, aqui, pertinho, ao seu lado? Será que ouve o meu coração disparado? Não tenho certeza. Mas quando vejo Brenda não é só meu coração que trepida. Em volta, tudo parece estremecer.  

Brenda é Brenda. Nisso, Neil está certíssimo. Só ela tem as tiradas geniais das quais gosto muito. Por exemplo, quando ela brinca com a irmã mais nova, a Julie. Parece que as travessuras da irmãzinha Patimkin só encontram eco nas diatribes irônicas de Brenda. Acontece muito à mesa, às refeições - apesar das ásperas reprimendas da sra. Patimkin. E todas sempre dirigidas à Brenda, claro! - ou quando Julie está brincando de basquete sob a grande árvore no quintal, com os artigos desportivos, ali, dispersos feito imensos frutos relegados pelo velho carvalho. 

Ah, Brenda provando o belo vestido amarelo para a grande festa de casamento do seu irmão Ron, o doce e educado atleta da Columbus. Meu Deus! Entendi perfeitamente, o encantamento de Neil ao vê-la naquele vestido. Fiquei também tomado pela aquela aura de languidez que flutuou em códigos secretos. Códigos que só os amantes apaixonados conseguem decifrar e que passam ao largo das pessoas em volta preocupadas com outras coisas. Senti-me preterido por não estar ali, entre eles: Brenda em seu lindo vestido, dando, vez em quando, voltinhas delicadas, e algumas pessoas, a volta, entretidas com cortes, costuras, medidas e elogios. Senti ciúmes por não estar no lugar de Neil, ali, diante da beleza de Brenda – há belezas que, em alguns momentos, tornam-se ainda mais belas como um sol que num determinado dia arde com ainda mais força. É o mesmo sol de cada dia, sim, mas é um sol diferente, entende?

Gostaria, ah gostaria sim, de também, no fim da festa do casamento de Ron, encontrar Brenda dormindo no sofá. A beleza adormecida está isenta de qualquer artifício. É apenas o que deve ser, ou seja, beleza, e em todo o seu esplendor. Livre, entregue, indefesa, no entando, possuidora de todo o poder do mundo. Admirá-la vai além de um estado epifânico porque não é apenas um instante em que a consciência captura a essência de algo sublime, mas sim, quando o admirador se mescla ao objeto admirado numa espécie de abdução instatânea. Brenda dormindo naquele sofá tornava o mundo melhor e mais belo. Neil a despertou, e ela se viu no mundo como quem acorda num túnel com um grande congestionamento e motoristas inquietos com seus relógios e suas buzinas. Mesmo assim, Brenda permaneceu linda dentro das grandes inquietações do mundo.

Uma hora dessas, crio coragem e vou visitar Brenda. Lá onde ela sobe e desce ligeira as escadas, a correr para o golfe, para o tênis, para a natação, para a faculdade. Lá onde ela, nas suas folgas, passa tardes inteiras, perto da árvore de artigos desportivos, a comer nêsperas, ameixas, como se não houvesse amanhã. Ali, sentada, com um dos braços a envolver os joelhos, e com os dedinhos delicados da outra mão, atirando os caroços das frutas como a lançar comida para cachorrinhos invisíveis a sua volta. Não consigo esquecer Brenda comendo aquelas ameixas-rainha-cláudia. Sua fruta predileta. O que é fruta e o que são lábios? onde é a linha divisória dessa doce devoração? 

Ah, e sobre aquela noite mágica? Hum, gostaria de que, naquela noite, fosse eu, do outro lado da linha, ao telefone, a ouvir Brenda dizer: “Neil, foi tão bom”, quando eles fizeram amor pela primeira vez. Consigo ouvir um “foi tão bom” sonolento e doce, lânguido até, como quem morre feliz, como quem descobre o sentido da vida e percebe que é parte dele.

Caro leitor, querida leitora, Brenda não existe. Quer dizer, existe, mas não existe, entende? Como posso explicar? Bom, ela é uma personagem do conto Adeus, Columbus, do livro homônimo, do escritor norte-americano Philip Roth. Todo ano releio esse conto só para me lembrar de que sou mesmo apaixonado por Brenda Patimkin. Apaixonado que dói. Ela não está mais com o Neil. Eles se separaram depois de uma conversa difícil, num quarto de hotel. Mas isso foi em 1959, muito antes de eu nascer. Então, ela já deve tê-lo esquecido de vez.

Estou aqui, trêmulo, do outro lado das páginas, tão apaixonado pela bela personagem do conto que me vejo como um deles, ali, naquelas doces intrigas amorosas, ali, naquelas singelas tardes de frutas, beijos e amores ocultos. É tudo tão forte a cada releitura do conto que sinto esta vontade desenfreada de pegar o meu Chrysler ou mesmo o fusca - que não os tenho - e ir até Short Hills. Sim, Brenda deve estar lá no quintal comendo ameixas-rainha-cláudia, que pega, vez ou outra, da farta geladeira, no subsolo da bela casa dos Patimkin. Sim, ela deve estar lá, e quem sabe louquinha para se apaixonar novamente. Não custa nada tentar. É isso. Então, até logo mais, Brenda Patimkin. 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

obrigado, António Lobo Antunes!

Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...

a velha casa II

O jardim onde, nas brincadeiras, eu me escondia detrás das plantas espinhentas. Nas minhas primeiras incursões etílicas da juventude, eu tinha de pular o muro para que o portão, com seu incurável canto em falsete, não me denunciasse e meu pai se levantasse em seu arrastado de sono e fúria. A rua silenciosa, o apito do vigia, o Caravelo, mais lento que o andador da minha vó, prestes a cair sobre nós, ali, sob cobertores cheirando a amaciante e ferro de passar. Depois de rezar, em vez de dizer amém, eu dizia: “não amanheça, não amanheça”. Os dois lados escuros da casa – as lâmpadas sempre queimavam - que iam dar no quintal. Lá, a goiabeira onde chorei e sonhei e vi, dias sem fim, a menina sair do banho. O tilintar de pratos e copos dos vizinhos e a sensação de que dentro da noite eu estava protegido do mundo. Sobre a geladeira, o sarcástico pinguim que sabia mais de nós do que nós mesmos. Ali, em cima da velha cônsul asmática, ria a rodo dos nossos desencontros. A minha irmã sonâmbul...

a alça fria do peso da sua ausência

Quando meu irmão faleceu, não fui ao enterro. Adianto que não estou a justificar nada – e isso se justifica? -, mas é que meu pai havia morrido alguns meses antes e não vi mesmo força nenhuma para outra empreitada do nível ou pior. O que dói na morte não é somente a perda. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, morremos. É um acordo tácito, ou seja, antes de nascermos, não nos é apresentado um contrato no qual está escrito: “você vai nascer, passar um tempo – sabemos lá quanto – depois você morre. Assine aqui embaixo”. No curso da nossa vida, acabamos aceitando a ideia – aceitamos? – como um enfermo, uma hora, aceita a sua moléstia. O que machuca mesmo, e é aqui que a chapa esquenta, é a forma como a indesejada das gentes, como Bandeira gostava de denominá-la, tira-nos pessoas queridas. Melhor dizer nos arranca, sim? Porque é isso que ela faz. Lembro-me do meu pai, homem de voz de martelo de Thor com a qual até a casa se assustava. Mas era doce que nem os picolés de castanha da minha ...