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calma, filho, vai dar certo, pode acreditar.

Sei, escrevo muito sobre a minha mãe. Falo tanto nela, né? Perdoem-me. É que toda vez que me sento para escrever parece que ela se senta ao meu lado e me diz “filho, estou aqui contigo!”. Que bom, mãe, que está comigo. Ando tão sozinho. Não, não sozinho de pessoas, tenho poucos amigos que enchem o mundo, mas é essa solidão que a gente carrega desde o nascimento, sabe? E que remédio? Permaneço e luto. É isso que faço, e contigo aqui, sentindo a tua respiração, sinto-me ainda filho.

Tenho uma foto dela, da minha mãe, aqui na minha mesa. E sempre falo com ela. E acho que me responde, porque as coisas que eu digo não parecem vir apenas de mim. Ouço: “Calma, filho, vai dar certo, pode acreditar!”. Era isso que ela me dizia quando eu, ainda muito jovem – também quando eu estava mais velho, pois mães dizem isso desde que estamos na barriga delas, e pela vida toda - algo me afligia. Dizia com toda a convicção do mundo: “Calma, filho, vai dar certo, pode acreditar!". Oh santa sabedoria, a dos velhinhos, principalmente, a das mães. Me acalmava tanto. E de verdade, dava mesmo certo. Não porque eu queria, não porque eu fazia por onde, mas porque ela queria e ponto. Ela é que fazia acontecer. Ser jovem é um troço, não? Parece que vivemos num mundo que roda ao contrário e numa velocidade ainda maior – é possível, Laplace?

Na foto, ela parece uma menina. Minha mãezinha. Até mesmo antes de ir-se de vez, ainda parecia uma menina. Se procurássemos, entre as suas coisinhas, é certo que encontraríamos uma boneca. Ela devia brincar de vestir e alimentar a boneca toda vez que dormíamos. Sim, vai ver era isso. Na foto, ela está em pé, as mãos para trás, o vestido ao vento – posso ouvir o vento daqui - e com uma carinha que, se calhar, está me dizendo do lado de dentro da foto: “calma, filho, vai dar certo, pode acreditar!”.

Quando estou escrevendo e uma palavra me foge, uma frase trunca, os dedos silenciam sobre o teclado, é batata: olho a foto da minha mãe e ouço a voz dela e logo sinto sua mão em meu ombro. As mãos das mães falam tanto. Ah, como eram tagarelas as mãos da minha mãe. Quando se via em situações difíceis, levava uma mão, aflita, até o joelho, e, com a unha, num tique, ficava riscando o vestido como um prisioneiro cavando uma fuga. Eu via aquilo e me dava uma vontade danada de colocá-la em meus braços e cantar canções de ninar. As mesmas que ela me cantava. Oh, ouço ainda aqueles acalantos com o som dos armadores da rede, ao fundo, em suas dores noturnas. Como sofrem também os armadores, não?

Sei, escrevo muito sobre a minha mãe, mas não sei por que falo tanto dela. É uma falta cansada, é algo que me vence. Estou sempre a arranhar a fina película do tempo, a procurar ouvir uma voz que pode escapar lá de onde as pessoas não são vistas. Estou sempre a tentar resgatar, com um gancho, o balde que caiu na cacimba do passado. Cacimba funda de meu deus.

Um dia acordei ouvindo a voz da minha mãe me chamando pelo meu nome completo. Pensei, xi, ela tá brava! Quando era menino e fazia lá as minhas travessuras, ela me chamava pelo meu nome completo. Era assim com todos nós. Quando isso acontecia, sabíamos que chegáramos ao limite. Mas ela, muito raramente, nos batia. Na maioria das vezes, olhava-nos com aqueles olhos de esmeraldas arregalados, punha a mão na cintura, sutilmente balançava o quadril esquerdo, numa dancinha enigmática. Para ela nos bater mesmo, nossa conta precisava estar no vermelho há tempos. Precisávamos estar com muitas parcelas atrasadas do nosso crediário do bom comportamento. Mesmo assim, quando ela decidia pegar um para o martírio, não podíamos dizer que aquelas chineladas eram de raiva. E mãe tem raiva? Eram uma mescla de castigo e proteção, sei lá. Um dia, enquanto minha mãe dava umas chineladas sem vergonhas no meu irmão, ele, com as mãos na frente do rosto, fingia chorar, o danado. Mas eu via que estava a ponto de cair na risada. Eu não entrava na dele pois sabia que podia sobrar pra mim. Com o meu pai a coisa era outra. Mas não estou falando do meu pai.

O fato é que me perdi tanto aqui na saudade que nem sei mais como terminar esse texto. Os dedos, antes ligeiros, tagarelas, estão agora todos mudos sobre o teclado. Este que não me ajuda em nada. Tantas letras em suas teclas, e nada de me ajudar a escrever. Mas aí, olho para o lado, e cá está a foto da minha mãe: linda, rainha, deusa. Eu ainda com os dedos de estátua sobre o teclado, enquanto olho a foto da minha mãe, e então, surge em mim um sorrisinho – e quando digo em mim é porque todo o meu corpo sorri – é que minha mãe acabou de me dizer: “calma, filho, vai dar tudo certo, pode acreditar!”. Então, volto a escrever, e tudo vai. Cá está ela com a mão em meu ombro. Obrigado, mãe! Só não vai dizer ao meu editor que foi a senhora quem, na verdade, escreveu esta crônica.

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