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de preferência, sozinho

Gosto de viajar. E, na maioria das minhas viagens, os melhores momentos eu os passei sozinho. “Muitos gostos juntos, a coisa tende a terminar em desgostos”, dizia a minha vó em seu português muito particular. Gosto de viajar só, primeiro, porque é a forma mais eficaz de vivenciar tudo à flor da pele. É como um corte que nunca cicatriza. Os momentos tornam-se parte de nós. Viajar sozinho nunca é apenas uma diversão, uma distração, mas sim, uma busca, um mergulho em nós mesmos. Segundo, porque quando viajamos em grupo, o primeiro passo para estragar a viagem é aceitar coisas que não nos interessam. Quando viajo, gosto de fazer somente o que me der na telha. Regra inquebrantável e que tem funcionado muito bem.
Foram inúmeros os momentos em que passei pelo que costumo chamar de iluminação interior. Em situações assim, era como se toda a alegria adormecida até então, despertasse de uma só vez. Uma sensação de que vamos sucumbir a ela dado que é imensa e forte, mas o fato é que nosso ser cresce junto, e assim também nos tornamos imensos e fortes.
Difícil listar todos esses momentos. Foram mesmo muitos e cada um trazia uma maneira muito específica de me tocar. O que me vem de imediato é quando estava indo para a Holanda, num trem, e acordei cedo com um cheiro de café tomando tudo em volta. Eu havia dormido como um rei apesar do tremelique do trem, das vozes e dos burburinhos nos corredores. O fato é que estava muito cansado, então, apaguei. Nas primeiras luzes do dia, quando renovado saí para saber de onde vinha o cheiro bom de café, me deparei com as tulipas da Holanda, e aqui, ali, acolá, os famosos moinhos de vento. Quilômetros e quilômetros de tulipas alegres e coloridas. Olhei em volta e havia famílias inteiras, namorados, amigos, turistas solitários, contemplando aquele festival de beleza. E o que me tocou mais nem foi todo o espetáculo de cores e simetria, menos ainda os famosos moinhos. Isso qualquer turista vê. Refiro-me à conjunção imediata de tudo e de todos ali: pessoas de nacionalidades, línguas, costumes diferentes, envolvidos num momento de mística compreensão mútua: quando tudo é dito sem que seja necessário sequer uma palavra. A vida pode ser assustadoramente bela e ao mesmo tempo muito simples. Depois, no restaurante do trem, reunidos, tomamos nosso café como se nos conhecêssemos há muito tempo. Estávamos irmanados e ríamos todos como uma grande família. Foi isso que mais me tocou.
Lembro-me também que quando eu morava em Paris, vi Gabriel Garcia Márquez atravessando a rua. De imediato, pensei em gritar: “Gabo”, mas não o fiz com receio de que ele me respondesse da mesma forma que Hemingway respondeu ao próprio Gabo, quando este, ainda jovem, viu o autor de O velho e o Mar atravessando uma rua em Paris. Explico. Li isso em uma das crônicas do autor colombiano. Quando Gabo viu o escritor americano e logo gritou: “Hemingwaaayyyy", este, de imediato, mandou um:“Adios amigo”. Por isso não gritei. Ele poderia, sei lá, descontar essa desfeita do Hemingway nas minhas costas, sim?

Gabo, compenetrado, um sorriso leve boiando no lado direito do rosto, caminhava como se a coisa mais importante naquele momento fosse atravessar aquela rua. Já estava mais velhinho, porém, ainda firme. Havia outra pessoa com ele, mas não a vi exatamente. Notei apenas o velho Gabo. De longe, o segui com os olhos. Vi quando ele entrou num estabelecimento e tomou um café, assim como os trabalhadores mais simples, nos intervalos das lidas nas empresas, encostam-se nos balcões e tomam um café. Mas ali, era o autor de Cem Anos de Solidão; livro que tinha virado a minha cabeça quando eu ainda estava no ensino fundamental.
Quando Gabo se foi, eu, ainda trêmulo, sentei-me no mesmo lugar onde ele havia ficado e pedi um café. Palavra nenhuma conseguiria definir esse momento. E mais uma vez eu só tinha a mim mesmo para confidenciar aquilo que sentia. E estava de bom tamanho. Numa comparação rasa, esses momentos têm o gosto do maná bíblico. Veja, o nome deriva da expressão hebraica man hu, que significa "O que é isto?". O que dizem é que esse maná tem o gosto daquilo que você quer sentir no momento da fome. Como eu poderia, então, se tivesse com alguém como companhia, fazê-lo sentir o gosto exato do meu maná?
Lembro-me ainda de caminhar pelo Saint-Germain-des-Prés sentindo o cheiro de croissant saindo do forno. Também de quando me perdi em Paris e vi uma grande parte da cidade natal de Proust que não está nos cartões postais, nos filmes, e que muito provavelmente, nenhum turista vai querer conhecer. Em Nyon, voltando a pé do festival de Paléo, sob uma chuva fina. Oh, deus, era como se eu caminhasse cada vez mais para quem eu sou de fato. Uma rua em Madri que sei lá por que me sentei num batente e chorei. O brasileiro, dono da banca de revista, na La Rambla, que me serviu um café fresco, assim que cheguei, sob um frio de lascar, a Barcelona.
Já no Brasil, tempos depois, logo que eu cheguei a Ilha Bela e me indicaram um restaurante que fechava um pouco mais tarde. Eu estava faminto. Lembro-me que fui caminhando pela praia sem medo de nada, porque me disseram que eu podia seguir em paz. Era só eu, a noite, a lua e o ruido do mar contorcendo-se em suas profundezas. Quando não há medo, tudo parece mais próximo de nós. Sentimos tudo de forma mais intensa.
Em qualquer lugar, alguma coisa pode disparar esse sentimento órfico, epifânico. Não precisa ser nenhuma das maravilhas do mundo. Porque não é a coisa em si, mas sim você em relação à coisa. Pode ser uma hera sob uma luz de uma determinada tarde, pode ser a melancolia de uma catedral, uma mulher espreitando a rua da janela, o nome de um hotel, a chegada de um trem, sons de sinos de alguma basílica numa cidadezinha solitária, o apito de uma fábrica. Pode ser um sabor, um cheiro, ou crianças brincando numa praça, e até, com sorte, um Nobel atravessando a rua. Pode ser o que for e onde for. Só precisamos estar abertos, flexíveis e dispostos a decifrar o alfabeto misterioso da natureza das coisas. E de preferência, sozinho. A não ser que você esteja em lua de mel, né? - Isso ainda existe? – não sejamos tão radicais.

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