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sou o mesmo

Não sou outro, sou o mesmo. Por fora, sim, mudei, mas em mim algo permanece intacto. Se me pedirem para desenhar o que está lá dentro do meu ser, vai sair uma casa torta, uma mulher, um homem, e uma menina - todos de mãos dadas - uma cerca, um sol risonho, nuvens, alguns pássaros num voo já saindo da página, e um caminhozinho tosco que, se calhar, vai dar no passado. Era isso que eu desenhava, é isso que ainda desenho, e será isso que desenharei sempre.
Não, não sou um homem das tecnologias, das redes sociais. Pouco uso o computador. Com amigos mais chegados, reclamo que estou sozinho, que preciso da presença deles. Com aqueles que eu também sinto enorme falta, mas que não sou tão íntimo, fico calado, porém, já torcendo para que vejam em meus olhos a falta que me fazem.
Ninguém tem mais tempo, no entanto, temos tempo de sobra. Para ganhar dinheiro, então. Se faltar, temos que correr ainda mais e isso exige tempo, sim? Para os estudos, para a melhor faculdade, para o melhor emprego. Afora isso, tempo nenhum. E para que diabos servem lá os poros? E para que diabos serve lá um nariz, as mãos, o coração em disparada? Gosto de apertar a mão dos meus amigos - aperto com as duas - quando eles chegam cheios de pressa. Gosto ainda mais de abraçá-los. Num abraço há uma troca de acolhimento. Quem acolhe quem? Tão democrático e autossuficiente um abraço, não? Às vezes, o aconchego é tão demorado que, no tempo que dura, não sei de quem é este ou aquele coração. Mas também beijo os meus amigos. Ah, eles ficam sem jeito, né? mas eu os beijo. Um beijo de amigo é uma mescla do beijo dos pais, dos filhos, dos netos, e afins.
Não, não sou outro. Algumas coisas eu não aceito que mudem. Seguro-as pelas rédeas que nem meu avô segurava a laranjinha, a vaca predileta dele. Doce como um quindim, mas de repente dava umas de fugir e ficar tinhosa. As coisas, com o tempo, querem também dar umas de laranjinha. E eu não aceito. Quero tudo do mesmo jeito. Do meu jeito.
Não sou um homem que fica perdendo tempo com o futuro. Já cheguei ao futuro várias vezes e continuarei chegando. O futuro é um lugar sempre em construção, e numa determinada hora, todos chegamos. Só que quando chego não sou outro, sou o mesmo. Estou com algumas roupas maiores, os cabelos estão grisalhos, mas sou o menino, o mesmo, ponto. Porque não mudei, nada mudou. Para mim, o mundo não avança, ele apenas finge.
Não, não quero estar à frente de ninguém, não quero ser maior que o outro, quero apenas o meu lugar, e que ninguém tente ocupá-lo, porque ele é meu por direito. Quero apenas a minha cota e que ninguém tente surrupiá-la, porque ela é minha por merecimento. Deixo que siga, portanto, que me deixem seguir. Ombro a ombro, no mesmo passo, sem pressa.
Não uso aplicativos, não arrisco dancinhas, não tenho talento para influenciar ninguém, menos ainda aceito enriquecimento fácil. De jeito maneira. Meu pai dizia que dinheiro pesa, mas voa que nem andorinha. O que faço, quando muito, é dar uma olhada neste mundo veloz e observar como as coisas estão seguindo. – se é que estão - É como meter a cabeça pela janela de um trem em alta velocidade e tentar prender algumas gotas da chuva - Quando recolho minha cabeça, tenho lá as minhas impressões e elas são suficientes para saber que não mudei. Que eu permaneço querendo aquilo que queria e sendo o que eu era.
A minha carteira está no bolso de trás. Uso relógio de pulso. No direito, como gostava o meu pai. Gosto de andar a pé. Se vejo um ou dois meninos batendo uma bola, me aproximo e pergunto se também posso jogar. E quando vejo uma goiabeira quero logo subir nela e dou uma olhada sutil pra ver se há alguma menina saindo do banho. Nunca há, claro, mas sei que ela está lá. De alguma forma, está sim. É só olhar direito.
Não saio com o celular. Consulto-o quando chego em casa. Uso agenda de papel. Escrevo à mão, com caneta tinteiro. Não tenho cartão de crédito nem de débito. Pago em dinheiro. Se não tenho, não compro. E não vejo essas coisas como qualidades. Longe disso. Não sou melhor, mas não sou pior, sou apenas eu, o mesmo.
O bom é saber que não estou sozinho nessa. Há uma frase do Van Gogh que, em poucas palavras, define a inalterabilidade da essência, aquilo que permanece, enquanto tudo mais segue– para onde? – Van Gogh disse: "O amor é eterno – a aparência pode mudar, mas não a essência." E António Lobo Antunes, um grande escritor português, disse o seguinte: "Não sou um senhor de idade que conservou o coração de menino. Sou um menino cujo envelope se gastou". É isso mesmo. Olha só, já estou aqui a desenhar uma casa torta, uma mulher, um homem, e uma menina... quer dar uma olhada?

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