diante do túmulo
de whitman
dobrei os joelhos e pensei mesmo em escrever
uma hagiografia
também recitei, de cor, toda
a canção de mim mesmo,
rabisquei versos desenfreados em guardanapos roubados
das mesinhas dos restaurantes
e bebi todas, todas as noites
- sim, chorei -
ora, estamos falando de whitman.
depois de alguns dias, passando e passando
pelo túmulo do grande poeta, já não me excedia,
apenas acenava para a campa como quem,
pela rua,
cruza com um velho e querido amigo.
então, nos meus últimos dias em Camden,
uns esquilinhos deram de me seguir até o hotel.
me diverti à beça com eles.
aos poucos, deixei, então, whitman lá,
na colina
margeado por castanheiros e carvalhos tortuosos,
feito mães chorosas a embalarem o sono definitivo do bardo.
o bardo tempestuoso, em sua inércia de granito,
cercado de turistas ora atentos aos seixos
no receio de tropeçarem, ora, com olhos apressados,
procurando o homem dos versos livres
como se ele tivesse acabado de morrer.
o bardo visceral numa calma e silêncio profundos feito versos ruins,
e os bichinhos serelepes a me seguirem.
os esquilinhos não escrevem belos poemas,
é certo.
mas, quem sabe, possam ainda
libertar os homens
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