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uma casa poema

a minha casa da infância
- velhas, a casa e a infância –
era um poema
não tinha número.
meu pai dizia que era pra ficarmos ocultos
mesmo na cara das pessoas
fazia isso para evitar notícias falsas e contas a pagar
então, era uma casa-poema sem título
apesar de que as notícias falsas, as contas a pagar, entre outros aborrecimentos
continuavam chegando
sabia-se lá como
o quintal era repleto de rimas
algumas até bem inopinadas
como as orquídeas da minha mãe
o telhado era o início do poema
uma verdadeira frase inicial prestes a ruir sobre nós
os compartimentos eram os versos
alguns escuros, mofados, outros brilhando ao sol
a calçada, larga como um cosmos, era o final do poema
e uma calçada nunca termina
portanto, o poema, a minha casa era infinita
nas entrelinhas, vivendo do não-dito de cada dia,
estávamos nós
eus líricos, cada um, com um punhado de sonhos não realizados
todos encolhidos sob o bico da caneta bic da existência-tinta-azul
correr? fugir?
como? para onde?
e como se foge de um poema?

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