Eu poderia ter morrido. Sim, e morrer, não me pareceu muito complicado. Vi esse processo como um esquecer-se da vida, de si mesmo, um abandonar-se. Lembro-me de minha mãe me levando pelas ruas e eu num caminhar de pernas trôpegas. Pegar um ônibus era um esforço imenso. O dia era como uma peça de luz sobre as minhas costas curvadas. Tudo pesava em mim: as pessoas, os edifícios, os sons, as placas e até mesmo o silêncio. O que eu queria, de verdade, era sentar-me em algum lugar e deixar que a vida fosse sem mim feito um presente que recusamos.
Já no hospital, com todo aquele branco, pensei mesmo ter chegado ao céu, e por isso, logo associei as enfermeiras, sempre sorridentes, aos anjos das hostes celestiais. Mas uma delas, em movimentos rápidos feito golpes mortais de samurai, pegou o meu braço, amarrou um garrote, deu três pancadinhas na minha veia assustada, e, com um sorriso largo, olhando bem dentro dos meus olhos, suavemente, injetou uma agulha nela. Terminado o processo, ainda em gestos de samurai, juntou todos os seus apetrechos e se foi numa cadência 2-5-1, numa alegria branca de quadris.
Pelo meu estado, decidiram que eu ficaria no hospital. Era a primeira vez que me via sozinho, longe de casa, distante dos meus, e isso era como uma morte antecipada. Dormi num quarto cheio de leitos vazios e não pude deixar de imaginar quantas pessoas haviam sofrido naquelas camas brancas, limpas, pacientemente à espera de novos infelizes. Até hoje trago os sons daquelas madrugadas: o famigerado tilintar do telefone da recepção, os passos macios das enfermeiras, os sussurros, o carrinho de comida num vai e vem em estalos pelos corredores e, principalmente, os gemidos e gritos, que chegavam dos outros quartos.
Depois de uns dias, fui levado por uma enfermeira ao consultório do médico. Encontrei minha mãe à porta. Me abraçou diversas vezes. Sempre me abraçava, mas eu sentia seus abraços não de alguém que te afaga, mas sim, se despede. Talvez não fosse isso, sei lá, foram tempos difíceis aqueles. Mesmo assim, gostava de me sentir em seus braços que era quando, pelo menos por um instante, os medos recolhiam as suas garras afiadas.
Agora, nós dois ali, resignados, diante do médico. Este com a cabeça baixa feito o meu pai orando antes das refeições. Minha mãe, constantemente, apertava a minha mão. Não estava certo se na intenção de me oferecer força ou se para buscar alguma ali, entre os meus dedos finos e pálidos. Depois de um tempo, que durou uma eternidade, num semblante sisudo, o médico nos fitou, colocou as duas mãos cruzadas sobre os meus exames, como se quisesse deixar o melhor para o final da festa, e começou a falar. Parecia escolher bem o que ia dizer, afinal de contas, não se morre duas vezes, né? Foi o que pensei. Eram palavras que eu ainda desconhecia os significados, mas, pela cara dele, sabia que não eram lá muito boas, pois, ninguém profere palavras bonitas, generosas com aquela cara de quem vai morrer logo em seguida. Aproveitei para olhar o teto, as paredes, o piso, e nisso me deparei com um surrado globo terrestre, ali, sobre a mesa velha dele. Meus olhos sobrevoavam a Patagônia Argentina, e nisso, sei lá por que, lembrei-me dos pinguins-de-Magalhães. Eu tinha lido alguma coisa sobre eles nas minhas Seleções. E assim, em meio a todos aqueles pinguins zurrando que nem loucos, ouvia o médico longe, muito longe, talvez dizendo a minha mãe quantos dias de vida eu ainda tinha. E não seriam horas? Saímos do consultório do médico como quem procura a porta de entrada do mundo. O semblante do médico habitava agora o rosto da minha mãe.
A sexta-feira era o dia de visita. E esse dia demorava tanto que eu tinha receio de que a quinta pulasse direto para o sábado. Mas apesar da longa espera, a sexta-feira sempre chegava e com ela trazia um clima que mudava tudo à volta. Mesmo perto da morte, aprendi que algumas coisas, mínimas que sejam, ainda conseguem badalar os mágicos sininhos dentro de nós. A morte é poderosa, mas não há nada como a vida. Às sextas, os desenganados esboçavam sorrisos, os inapetentes repetiam o prato nas refeições, os acidentados, com suas muletas, arriscavam danças, os médicos risonhos, em seus jalecos esvoaçantes, pareciam flutuar, e as enfermeiras, ah! estas chegavam de sobrancelhas e unhas feitas, todas muito perfumadas, e ainda mais sorridentes e solícitas.
Então, minha mãe aparecia com suas mãos tagarelas e seus olhos úmidos. Oh, ainda vejo aquelas duas ágatas cinzas; joias marejadas e cheias de perguntas sem respostas. Mãos de dedos longos, ossudos, de esmalte carcomido, que se tornavam leves e doces quando faziam festa em meus cabelos. Numa das visitas, trouxe-me um dos meus primeiros brinquedos: um soldadinho já se descolando da base. Oh, foram tantas epopeias, mas já nem me lembrava dele. Por aqueles tempos, estava, naturalmente, perdendo o interesse pelos brinquedos. Agora vivia atrás de livros – e minha mãe sempre os trazia, aos montes - mas confesso que fiquei feliz ali com o meu soldadinho estropiado. Coloquei-o debaixo do travesseiro, e agora, dava-lhe bom dia e boa noite. Era uma companhia significativa. Minha mãe trazia-me também sempre muitos doces: de banana, de caju, de buriti, de castanha, de abóbora, de goiaba, além de rapaduras de coco, marmeladas, e muitos outros. Minha cama parecia uma doceria. Quando as enfermeiras risonhas vinham ao meu quarto logo se punham a mastigar. Adoravam, após o almoço, filar um dos meus doces, e eu me deliciava com isso. Minha mãe trazia todas essas iguarias não apenas porque eu gostava, mas porque eu precisava. O médico, categórico, disse-lhe: “doce, muito doce, sempre. Ajuda na recuperação. “
Muitos anos depois, em minhas leituras de adulto, li João Guimarães Rosa afirmar que a palavra que ele mais gostava, na língua portuguesa, era Alma. Reforçava que em nenhuma outra língua a palavra tinha tanta força quanto no nosso idioma. Pensei nisso e descobri que gosto muito da palavra Alta. Sim, Alta. Talvez porque foi naqueles tempos difíceis que tive o meu primeiro contato com ela, no sentido médico, claro! Lembro-me que estávamos perto do Natal. Nas portas dos consultórios havia arranjos bonitinhos com bolinhas coloridas, sininhos verdes de papelão escrito Feliz Natal, estrelas de Belém, ou um Papai Noel risonho cercado de presentes em miniatura. O clima era esse quando o médico, já muito meu amigo, disse-me que eu iria para casa. Em algumas horas, estaria de Alta. Disse isso enquanto escrevia num papel, sem olhar para mim. Achei sua voz um pouco embargada, mas pode ter sido impressão minha. Por um tempo, fiquei estalando essa palavra na língua: al-ta, al-ta, al-ta… Dessa vez, saí do consultório já com a mão na maçaneta da porta do mundo. Estava feliz.
Deixei, enfim, o hospital. E outra coisa que aprendi é que de alguma forma nos apegamos aos nossos sofrimentos. Eu estava indo embora, no entanto, algo de mim ficara ali. Viver é isso, deixar um pouco de nós por onde passamos. Quando cheguei a casa, meu irmão mais velho logo correu ao meu encontro e fez festa em meus cabelos. Parecia maior, diferente, esquisito até. Para onde fora o meu irmão entre o que deixei em casa antes de eu ir para o hospital e este aqui diante de mim? Perguntei-me cá com minhas mãos nos bolsos. As pessoas continuam existindo, independentemente da nossa ausência.
Meu pai, que não lidava muito bem com abraços, para meu espanto, me deu vários. E com as pontinhas dos dedos mindinhos limpava alguma coisa nos cantos dos olhos. Disse que estava reformando o quarto dos fundos e que ali havia muito pó. Levei um tempo para me readaptar a rotina da vida. Tinha mesmo me apegado ao dia a dia da indesejada das gentes. Sentia-me mesmo estranho na minha velha casa de guerra, mas eu estava ali, de volta. Minha mãe fazia uma comidinha caseira para mim, e meu pai dava marteladas lá no fundo. Quando ele não sabia lidar com alguma coisa, mergulhava no trabalho. Eram os movimentos e os sons comuns de uma família comum. E eu gostava disso. Eles eram meus, minha família de sempre e renovada. Tudo parecia novo: a casa, a rua, as pessoas, a vida.
Bom, a morte, sempre muito dedicada a seu ofício, até que tentou, fez a sua parte, lutou como uma guerreira, mas, algo neste mecanismo misterioso falhou. Um dia, é certo, vai tentar novamente, mas, de antemão, sabe que não será nada fácil, pois subirá ao ringue com um ponto a menos.
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