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meus heróis

Quais foram os seus heróis ou super-heróis? Me perguntaram numa entrevista. Depois de um silêncio do qual achei que nunca mais sairia, ainda em tatibitates, respondi que, no conceito clássico, não tive herói nenhum. Nem aqueles que saem em jornadas impossíveis em busca de alguma solução para um problema que se apresenta ao seu tão querido povo, menos ainda, os super-heróis, aqueles com superpoderes, que lutam com vilões esdrúxulos, nos quadrinhos. Um dia até que simpatizei com um tipo, e só porque conseguia desenhá-lo em meu caderno estropiado de um ensino médio meia-boca, de fundão, eu achava que gostava muito dele. Gostava nada. Depois de um tempo, minha admiração foi diminuindo à medida que a minha capacidade de o desenhar foi perdendo o prumo. Além do mais, como gostar de alguém que usa a cueca por cima das calças? Pensei.

Sabia que o entrevistador esperava que eu citasse um desses heróis. Chegamos a isso, acho, quando falávamos da infância, e a maioria das pessoas ainda pensa que esta se reduz a brinquedos, amiguinhos e super-heróis. Há uma ideia de que esse país do qual somos exilados ainda frangotes é o melhor momento da vida. Se houvesse uma possibilidade de voltar a esse tempo idílico, pergunto-me quem seria o primeiro a se arriscar? Há muito mais sob esse lençol cheirando a xixi e lavado a duras penas com sabão caseiro em barra, mãos calosas e canções doídas de tempos distantes.

Por um momento, confesso que até busquei algum super-herói que pudesse satisfazer o simpático entrevistador. Mas não foi fácil. Olha, disse, enfim, “nunca fui com a cara do Homem-Aranha. Meu pescoço doía com o tempo que eu passava tentando vê-lo em suas piruetas pelos arranha-céus. Fora as piadinhas sem graça nenhuma. Tudo isso enquanto o vilão se esbaldava em maldades. Sim, confesso, como toda criança, que tive vontade de lançar, dos pulsos, teias poderosas, mas isso não significava que eu gostasse dele. Apenas achava que sim, mas não.”

Deus, que desespero ver o entrevistador diante de mim, esperando que eu trouxesse – logo - algum herói para a nossa conversa, feito lenha para uma fogueira. Percebi, ainda angustiado – ora, eu poderia ter citado qualquer herói e logo ter pulado para a pergunta seguinte – que, sei lá por que, não havia me apegado a herói nenhum. Não a esses dos quais tanto falam.

O entrevistador, vendo o meu embaraço, logo veio em meu auxílio: “vamos lá, toda criança tem um ou mais heróis, ou ainda melhor, um super-herói. Eu, por exemplo, gostava do Batman, meu irmão menor gostava do Zorro”. Nisso, cá comigo, pensei: “Não, o Batman não: muita onomatopeia, coreografia e pouca ação, e o Zorro, deus meu, ele achava mesmo que, com aquela mascarilha, ninguém sabia que ele era o Dom Diego de La Vega?”. Além do mais, o Zorro defendia os oprimidos da Califórnia; veja, isso já é lá outra América.

Diante disso, eu, com olhos de pássaro aflito querendo fugir da gaiola, fui chafurdar a minha infância como quem vasculha gavetas de fotografias antigas. Procurei um herói. Tive algum? Perguntei-me. Não lembrava. Quer dizer, lembrava de vários, mas não tinha mesmo criado vínculo com nenhum deles. O que defendiam estava muito longe da realidade que vivíamos à época. Acho que era isso. Ora, o Superman defendia a Verdade, a Justiça e o Sonho - o Sonho americano, diga-se de passagem - e o que significavam esses conceitos escorregadios num mundo mais e mais cada um por si e Deus por nenhum? Ulisses lutou numa guerra pela honra de um único amigo, e Beowulf, contra criaturas monstruosas. Coisas, de certa forma, muito distantes também da nossa realidade.

Foi quando, depois de muito pensar em justiça, verdade, sonhos, meus heróis começaram a aparecer. Disse, então, num átimo: “sim, eu tive alguns heróis, mas estes, já adianto, não estão nos quadrinhos, nos jornais, nas bancas de revistas e livrarias. Reforcei que meus heróis não brotaram da cabeça de Frank Miller, Jack Kirby, e companhia. Não. Meus heróis, sabe? eram os pais da minha infância e adolescência, gente da minha rua, do meu bairro. Pais que, todos os dias, antes do sol, saíam de casa para enfrentar a vida e ganhar um salário de morte. Esses pais, meus heróis, voltavam no final da tarde, todos os dias, sempre a mesma hora, com pão e leite, e à noite, à mesa, jantavam com a mulher e os filhos numa alegria silenciosa. Depois, antes de dormirem, numa velha latinha que antes trazia chocolates de um Natal já longe, guardavam algumas cédulas como quem planta árvores para, no futuro, fazerem sombras para os filhos e os netos. Então, deixavam os chinelos juntinhos debaixo da cama, pegavam o pijama, bem dobrado, sob o travesseiro –, se calhar, era ali que guardavam os superpoderes, a capa e a espada -, e se recolhiam, logo depois do Jornal Nacional, porque no dia seguinte, bem cedo, meu amigo, tinham de estar na labuta novamente.

Oh, deus, como me comoviam aqueles pais, de banho tomado, cabelos bem penteados, cheirando a Trim e a desodorante Avanço. Caminhavam macios, firmes, tão certos da vitória. Um ou outro arrastava uma 007 surrada, tão confiante quanto o dono. Oh, mas voltavam tão pálidos, tão pálidos. Em acenos contidos para a vizinhança, cruzavam o portãozinho e, mansos, adentravam a casa. Não era raro um menino franzino correr e enlaçar uma das pernas do pai enquanto este lhe fazia festa nos cabelos. Traziam o cansaço do mundo sob as costas quase os pondo de joelhos, mas, no dia seguinte, lá estavam eles, firmes novamente. Mas voltavam tão pálidos, tão pálidos… Fui falando, falando e agora chorava com os meus olhos de dentro. Por fora eu fingia o riso, um riso triste, é certo, mas por dentro, eu estava aos prantos.

Enquanto alguém sinalizava que a entrevista estava chegando ao fim, aproveitei para reforçar que os meus heróis, meus verdadeiros heróis, pode apostar, a Marvel Comics, a DC Comics ou qualquer outra jamais teriam condições de os criar, porque esses heróis, esses super-heróis, meu amigo, não são criações, fantasias, fábulas, eles são reais. Esses heróis lidavam com vilões de verdade e estes vilões, jamais ficariam presos em redinhas de náilon saídas dos pulsos de um super-herói metido a gaiato. Esses pais, sim, meus heróis, já disse, é que deveriam estar nas capas de revistas, nas fachadas dos cinemas, nos livros, livrarias. Esses é que deveriam caminhar sobre tapetes vermelhos, receber prêmios e principalmente, honrarias. Se calhar, ainda estão por aí: tímidos, silenciosos, firmes, com suas 007, todos a caminho do trabalho, buscando - ou pelo menos tentando, de verdade - salvar a humanidade do fim.

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