há ainda as palmeiras
cansadas feito os homens
na mercearia de calçada alta há agora uma loja de móveis
com vendedores tristes e megafones estridentes
tanta história na boca cerrada do céu
no fundo da terra.
a vizinha que tomava banho nua no quintal e
que me roubava o dia morrera há alguns anos
quem não morreu?
na cozinha, zanzando em volta do velho e genioso fogão Dako, não há
mais as pernas tortas e cansadas com veias feito linhas em um mapa
as roupas nos varais e a prateleira antiga também não há
estar de volta
– estou? -
é como pisar num planeta hostil
os caminhos desconhecidos não são fáceis,
mas têm a pele macia
dura é a pele do retorno
minas velhas, porém, ativas
espalham-se pela minha antiga rua
piso nela com receio de lhe quebrar os ossos
abraço a vizinha mais velhinha do bairro
tanta história e nenhuma
apenas sorri, não se lembra de mais ninguém
há sons daqueles tempos feito animaizinhos acuados nos cantos da casa
minha mãe, numa alegria assustada, costumava me receber no portão
meu coração, trêmulo, soava acordes feito um velho piano
num caminhão de mudança
agora a casa está vazia
e a nossa história está à venda
fecho o portão e me vou
dou ainda uma olhada para trás para ver se minha mãe
me espera dobrar a esquina como fazia quando eu ia para escola...
não há ninguém.
apenas o vento de fim de tarde,
que meu pai tanto gostava,
balançando as velhas palmeiras
cansadas feito os homens.
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