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Inventário de ausências

há ainda as palmeiras

cansadas feito os homens

na mercearia de calçada alta há agora uma loja de móveis

com vendedores tristes e megafones estridentes

tanta história na boca cerrada do céu

                                no fundo da terra.

a vizinha que tomava banho nua no quintal e

que me roubava o dia morrera há alguns anos

quem não morreu?

na cozinha, zanzando em volta do velho e genioso fogão Dako, não há

mais as pernas tortas e cansadas com veias feito linhas em um mapa

as roupas nos varais e a prateleira antiga também não há

estar de volta

– estou? -

é como pisar num planeta hostil

os caminhos desconhecidos não são fáceis,

mas têm a pele macia

dura é a pele do retorno

minas velhas, porém, ativas

espalham-se pela minha antiga rua

piso nela com receio de lhe quebrar os ossos

abraço a vizinha mais velhinha do bairro

tanta história e nenhuma

apenas sorri, não se lembra de mais ninguém

há sons daqueles tempos feito animaizinhos acuados nos cantos da casa

minha mãe, numa alegria assustada, costumava me receber no portão

meu coração, trêmulo, soava acordes feito um velho piano

                            num caminhão de mudança

                            agora a casa está vazia

e a nossa história está à venda

fecho o portão e me vou

dou ainda uma olhada para trás para ver se minha mãe

me espera dobrar a esquina como fazia quando eu ia para escola...

não há ninguém.

apenas o vento de fim de tarde, 

                         que meu pai tanto gostava,

balançando as velhas palmeiras

cansadas feito os homens.


O inventário do que fomos e do que fica
Na literatura de Reynaldo Bessa, a memória não é um lugar seguro ou estático; é um território vivo, por vezes hostil, mas profundamente humano. Em Inventário de Ausências, o poeta e escritor nos convida a caminhar por ruas que já não são as mesmas, guiado pelo fio invisível da saudade e da passagem implacável do tempo.
Com uma sensibilidade lírica lapidada ao longo de décadas de estrada na música e na literatura, Bessa transforma o luto e o vazio em matéria-prima da mais alta qualidade. O cotidiano, aqui, é sagrado. O velho fogão Dako, o vento do fim de tarde, o ranger do portão e as velhas palmeiras tornam-se monumentos da memória afetiva.
O autor nos prova que é possível escrever sobre a perda sem resvalar no sentimentalismo fácil. Sua poesia é feita de chão áspero e de um lirismo contundente, onde o leitor inevitavelmente se reconhece. Fechar o portão deste livro é olhar para trás, é aceitar que a nossa história está sempre, de alguma forma, à venda ou à deriva. Uma obra essencial para quem compreende que a literatura é a nossa forma mais bela de inventariar aquilo que o tempo não conseguiu levar.

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