O poeta não saberá qual seleção venceu a copa
Nem quem será o próximo presidente
O poeta não caminhará pelas ruas a tramar poemas
Nem a sofrer com o recente divórcio
O poeta não tomará café em sua caneca preferida
Nem terá de se aborrecer com erros do seu novo livro
O poeta não irá mais à feira comer pastel paulista, de carne
Nem poderá mais apalpar as frutas e pensar em seios
O poeta não precisará mais se preocupar com aquele dente mole
Nem com o passaporte vencido
O poeta não saberá quem venceu o Nobel
Nem quais poetas ficaram inconformados (indignados?)
O poeta gostava de roupas largas, de carteira no bolso de trás,
de relógio de pulso, de ficar em casa, de olhar pela janela
O poeta gostava dos domingos de chuva, de playlists dos anos 70
De mascar chicletes já sem açúcar e mesmo que sua namorada fizesse
cara feia, gostava de um palito, após as refeições, para cavoucar os dentes
numa sonolência de operário no intervalo do almoço
O poeta gostava mesmo de ser poeta, apesar da dureza
Por fim - fazer o que – largou tudo
Foi-se numa silenciosa luta contra a finitude
(há muito já não falavam dele)
Luta perdida desde o primeiro diagnóstico
o que é mais intenso do que a morte?
no entanto, mais nenhuma força para os últimos versos
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