Há momentos aparentemente simples
que nos marcam profundamente. Em minhas viagens pelo mundo tive vários
momentos assim. Muitas emoções que brotaram feito partículas incandescentes de
uma fogueira interna.
De repente, somos tomados por uma
sensação de completude. Não por alguém ou coisa qualquer, mas por algo especial e que encontra eco em nós. Todas as nossas culpas, remorsos e frustrações parecem ser levados
para a margem de nós, restando apenas a placidez do oceano que somos.
Como disse, foram vários momentos,
mas, agora, gostaria de falar de um deles. Eu estava deixando Milão e indo para uma cidadezinha charmosa no norte da Terra da Bota. Uma amiga
iria me receber. Estava cansado. Eram sempre muito exaustivas as mudanças de
uma cidade para outra.
No trem, para que eu pudesse
apreciar a paisagem, lutava contra o sono. E quem vence esta luta? De vez em
quando, o vagão sacolejava e me trazia à realidade e, ali da janela, eu
percebia a planície industrial do rio Pó, os campos agrícolas abertos e as
colinas suaves ao longe. Novo cochilo, a realidade
novamente, e assim fui, toda a viagem.
Por fim, desci na minha paragem. Quando o trem, em seus anseios de aço, desapareceu longe, deixou um silêncio ainda maior. Não o silêncio como ausência total de som, porque, cada ruído, mínimo que fosse, parecia potencializá-lo. Ora ou outra, bem na minha cara vinha um vento
quente. Longe,
muito longe, alguns pássaros arriscavam cantos. Olhei em volta.
Na estaçãozinha, ninguém além de mim.
De repente, senti-me leve, muito
leve. Como que emergindo para a superfície do que sou. Estava isento de todo o
peso que costuma nos levar para baixo? Estava, enfim, livre de mim mesmo?
Perguntei-me, mas estas perguntas, sabemos, não têm respostas.
Anos depois, me disseram que esses
sentimentos são típicos dos viajantes solitários que estão na estrada há muito
tempo. “Nasce disso”, disseram ainda, “uma sensação de não pertencer a lugar
nenhum e que a quebra constante e considerável da nossa antiga rotina aguça a
percepção dos detalhes simples e do momento presente. E em qualquer situação,
boa ou ruim, só podemos contar com o auxílio de nós mesmos, assim, nos dando uma sensação de força extra.”. Pode ser, pode
ser. Mas sei que as opiniões, assim como as roupas, têm o lado avesso. Por aqueles tempos, eu havia lido um livro muito bom de Chatwin que, logo nas primeiras páginas, o autor procura desiludir aqueles que tentam equilibrar o mundo num só sentido.
Enfim, o fato é que, por mais que
tentasse, não conseguia encontrar um nome para vestir esse sentimento.
Senti-me, por um bom tempo, como um homem que, ao acordar, procura a mulher por
quem se apaixonara em um sonho. Depois, cheguei à conclusão de que não
necessitava mais de um nome. Teria mesmo um? O que importava, de verdade,
pensei, era continuar procurando a mulher do sonho.
Comecei a bolar um cigarro. Eu
tinha um kit sempre à mão: filtro slim, seda e ainda um fumo muito bom que comprara na França. Aquela estaçãozinha, todo aquele vazio, todo aquele silêncio, e sons vindos de longe, como se vazados do pensamento de Deus, mexiam
mesmo comigo.
Dei alguns tragos e foi quando comecei a chorar. Era uma coisa meio choro, meio riso. Sei lá. Como uma gangorra quando os dois brincantes se encontram em equilíbrio no ar, sem tocar o chão. Terminei o cigarro e caminhei para o centro da cidade. Ruas desertas, o sol queimando tudo em volta como uma pequena mostra do seu poder letal, e a mochila pesada lamentando-se sobre as minhas costas. Enquanto olhava as coisas em volta, lembrei-me dos antigos aborígenes australianos que diziam que o mundo fora criado pelo canto. Me peguei cantando uma canção que fala de cidades, cigarros, estradas e rostos de estranhos, além da saudade de casa. Deu-me até vontade de dançar como um louco no baile particular da sua loucura.
Por fim, vi um bar com mesinhas na calçada. Velhos jogavam xadrez; jovens soltavam gargalhadas como fazem os jovens em todos os lugares do mundo. Enquanto esperava minha amiga, joguei a mochila para o lado e pedi uma cerveja bem gelada. Depois puxei uma cadeira e estiquei as pernas que mais pareciam duas bigornas. Olhei em volta. Eu não tinha passado nem futuro. Apenas aquele momento ali, com aquelas pessoas, numa tarde que já findava. "Todas continuarão findando, mas não como esta, não como esta". Disse duas vezes as últimas palavras para sentir ainda mais a beleza daquele momento. Como se quisesse imprimi-la num papel com o som da minha voz. O dono do bar disse que ia ser noite de lua. Sorri, dei um gole na cerveja e comecei a bolar outro cigarro.
Comentários
Postar um comentário