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O voo do poeta ou o poema contínuo

Por Gustavo da Cruz

Que pássaro era esse a alçar o voo ao revés? Um pássaro preto? Um pavão misterioso? Espécie ameaçada de extinção? Talvez. De fato, não um avião, nem um super-herói. Mas uma possível impressão do mundo aos olhos de um poeta. E se a poesia, dentre suas muitas definições, inaugura o impossível, a poesia de Reynaldo é uma fotografia do evento de inauguração. Ou quiçá o rastro da rememoração difícil daquele tempo ido – ao contrário.
Quem acompanha a trajetória do autor, com o privilégio de quem acompanha uma estrela (ou seja, que aos nossos olhos nasce e morre brilhando), percebe que, assim como o escritor Patrick Modiano diz sempre escrever o mesmo livro, Reynaldo está sempre escrevendo o mesmo poema: o verdadeiro poema contínuo – não menos nem mais que o de Helder, contudo. O que não resulta em repetições ou redundâncias. Pelo contrário. O poema contínuo renova o espanto: do existir, do amar, do morrer, enfim, o espanto que nos torna quem somos. Disse Szymborska:
“Poderia ser eu mesma – mas sem o espanto,
e isso significaria
alguém totalmente diferente.”
“A lua viu tudo, qualquer coisa, pergunte a ela” dá luz às páginas de Outros Barulhos, obra inaugural do poeta. Ela, a Lua, que neste primeiro livro encarna, a partir da primeira página, um tipo de narrador onipresente e onisciente, retorna dez anos depois em seu quarto livro de poemas, Do pássaro voando ao contrário:
“Enquanto todos amavam a Lua:
poetas, namorados, insones, seresteiros, bêbados,
solitários & cia, eu a odiava. Não, eu a temia. Ah, os dois
Quando, ainda menino, fui ao cinema, a primeira
coisa que vi, naquilo que mais parecia o meu
lençol estendido na parede, foi a Lua
E ela veio para cima de mim como um imenso
pingente que havia se desprendido do peito do céu
E só não caiu bem em meu colo porque bateu a cara
rechonchuda na tela, pelo lado de dentro, claro
Mas eu vi que ela olhava para mim feito
um cão raivoso preso no portão
Só não corri porque meu irmão me
segurou e disse: “senta aí, idiota”
Precisei de muito tempo para fazer as pazes com ela
Sempre que caminho pela madrugada e a vejo ali,
feito um grande pássaro de luz numa gaiola escura,
dou, vez em quando, uma olhadinha nela, ninfa Trívia,
alegre, bicando estrelas”
Bom, continuemos com o contínuo (trocadilho infame). O toque autobiográfico deste poema também compõe a colcha de retalhos da obra de Bessa. É a seu irmão, Ronaldo, que ele dedica Não tenho pena do poema, seu segundo livro de poemas. Além disso, é a figura de sua mãe a mais presente em toda sua obra. De Outro Barulhos:
“uma noite
minha mãe
puxava-me pela mão
éramos quatro;
eu, ela, o medo e a pressa”
até Esta vida ou outra invenção, seu quinto livro de poemas:
“Por duas vezes
deixei minha mãe
vazia:
quando nasci e
quando parti.”
É também neste livro que se destaca outro aspecto da escrita de Reynaldo: a dicotomia entre realidade e ficção, que é assim um meio do caminho, algo como o cambalear entre o sono e a vigília ou como ele próprio descreve: “realidade – esse império cruel.” Em Do pássaro voando ao contrário, ele “preferiu pegar toda a realidade e suspendê-la, / como quem ergue um recém-nascido sob o primeiro sol.”
Mas e o pássaro? Que pássaro é esse? Explico, mas voltemos (palavra importante) na fotografia do evento de inauguração. Lê-se seus poemas como quem admira uma tela de Goya ou uma fotografia de Cartier-Bresson. As “poças deixadas pela chuva: / espelhos vivos, tremulantes onde anjos narcisos e / vira-latas sedentos dividem o mesmo espaço” congelam-se diante dos nossos olhos leitores, como lá em Outros Barulhos:
“a lua na poça
a moça passa e
a destroça”
A fotografia, que às vezes “se desprende do velho álbum”, é se não um receptáculo de lembranças, e as lembranças são o mote de todo poeta, que foge do rio lete margeando a existência e canta os percalços do herói, que nesse caso pode sim ser o poeta: herói errante.
O voo ao contrário do pássaro corporifica o Mistério da poesia: ser-não-sendo, estar-não-estando; feito a lembrança, esse passado-presente. O voo ao contrário é o regresso impossível que a poesia, mais uma vez, torna possível através da inauguração de um mundo novo, um entre-mundos, uma terceira margem (longe do lete), uma ponte de Einstein-Rosen.
“A foto do meu pai ainda jovem:
seus olhos longe como navios encalhados,
[...]
Quantas palavras naqueles olhos nossos seus”
O voo ao contrário do pássaro traça o caminho para esse lugar entre o poema e o mundo, esse lugar onde acreditamos que descansam inquietas as lembranças e de onde, a partir das sombras que vislumbramos, tiramos a “dor líquida / cor azul-infância” para compor esse texto que é nossos braços, nossas pernas, nossos troncos, enfim, nós – com o espanto. E é a busca por esse espanto que nos mantém no voo a procura da Terra Sagrada... “Onde estão minhas lembranças quando / não estou lembrando delas?” Onde reside o Mistério.
* texto do poeta Gustavo da Cruz sobre a obra de Reynaldo Bessa

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