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Rosário do impossível

“Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol”. Me deparei com essa frase quando eu tinha uns dez, onze anos. Na minha visão de menino, penso que eu entendia o sentido que a frase encerrava. Naquele tempo, eu era um torcedor de carteirinha e me doía ver, tanto na cara do goleiro do time pelo qual eu torcia, quanto na do adversário, a dolorosa angústia da qual fala Belchior na sua canção Divina Comédia Humana. 

Me inquietou, numa música, alguém chamar a atenção para a dor do outro. Não era uma coisa muito comum à época. Era inusitado. No entanto, o que mais me desconsertou foi perceber que eu poderia pegar essa mesma dor como se fosse minha e descrever textualmente o que sentia. Por aqueles tempos, perguntava-me: “O Belchior, na frase doída, utiliza-se de uma comparação, uma analogia, símile, hipérbole, o quê? Ora, eu era um meninote.

De lá para cá, começou a minha lida com a escrita. Quer dizer, as constantes e desenfreadas tentativas de captar algo que flutua no campo das abstrações, no terreno do difuso, e concretizá-lo em palavras - o olhar angustiado do goleiro acompanhando o percurso da bola rumo ao gol, por exemplo – mas, depois de impresso na folha restava-me a impressão de que algo mais valioso havia me escapado. É assim até hoje.

Além disso, permanece em mim a impressão de que os textos não são exatamente meus. Claro, legalmente, são, mas sei lá. Apesar de todo esforço empenhado, é como se eu apenas os copiasse de algum alto original existente alhures, como, mais ou menos, disse Rosa. O que faço, acho, é apenas tirá-los de onde se encontram, como quem pega uma camisa no armário e sai por aí.

Bom, mas não quero falar de métodos de escrita. Se deixar, vou longe com isso. Volto, então a discorrer sobre as emoções dos jogadores quando em campo, só que agora numa via oposta; quero falar da alegria do atacante quando faz um gol e salva o seu time da derrota iminente. Gosto quando ele sai correndo, tira a camisa e com cara de mau – mau nada, está mesmo é feliz – olha para a arquibancada, às vezes para sua torcida, noutras, para a adversária. Seus companheiros, também felizes, saltam sobre ele e tudo vira um turbilhão. Há choro, gritos, pulos e abraços sem fim. Soam tambores, apitos e cornetas. Todos, de repente, estão numa grande festa. Festa que dura só até o momento em que a bola, ainda trêmula pelo impacto do chute ou da cabeçada do artilheiro, volta novamente ao centro do campo.

Ainda gosto muito do futebol justamente por esses espetáculos de emoções. E quando falo de futebol, refiro-me apenas ao jogo jogado nas quatro linhas, no gramado verde. Fora dele, ou seja, o que é decidido nos gabinetes, com Montblanc, charutos e uísque, ou nos tribunais, não me interessa. Gosto do futebol arte. Aquele que paira entre as regras e a rebeldia. Lembro-me de meu pai me falar que Leônidas da Silva, o diamante negro, numa partida em que o campo estava tomado de lama, devido às chuvas, tirou as chuteiras e jogou sem elas até que o árbitro viesse lhe pedir que as calçasse. Falo dessas histórias, falo do futebol raiz, da criatividade de jogadores ímpares. E o Brasil, acredito, ainda é um grande celeiro de craques com dribles de gafieira. 

Do que estou mesmo a falar, Deus? Bom, sigamos. Nesse meio tempo, de menino de calções curtos até este adulto de barba grisalha, cada vez mais desgrenhada, já vi muito goleiro angustiado na hora do gol. Oh, Cristo, e que angústia! E toda vez, sempre me lembro da frase da canção do Belchior. O goleiro lá, cercado de milhares de torcedores, mas sentindo-se triste, mais sozinho do que nunca. Ele pega a bola como se a desconhecesse, como se, naquele momento, ela não fosse uma amiga de longa data. Até se esquece de que um dia, quando ainda criança, chegou a dormir agarrado a ela como quem protege um grande sonho. 

Por outro lado, já vi muitos artilheiros numa alegria sem tamanho jogarem um beijo para os céus, após balançarem a rede. Me emociono, já disse, e muito. O beijo, acredito, deve ser para Deus, sim? Pois que seja! E o criador, lá de cima, vendo toda a alegria que incendeia todo o estádio cá embaixo, deve acolher o beijo do craque, nas mãos em concha, como quem protege um pequeno pássaro raro. Com essa força toda, com essa alegria contagiante, somadas a gols de placa nem mesmo o demo consegue permanecer indiferente.

Belchior, pelo que sei, quando adulto, nunca jogou bola. Quis ser seminarista. Já viram um seminarista jogar bola? O que sei é que o cantor de Sobral, com essa frase inopinada e precisa, fez um gol de placa. Desde então, cá estou, sem fim, a desfiar o rosário do impossível: trazer a realidade para o papel. Ou melhor, como dizia António Lobo Antunes: “tentando colocar uma vida inteira num livro.” Melhor jogar bola, não?

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