quando eu era pequeno
sei disso porque minha mãe segurava-me pela mão
as mães fazem isso com receio de que seus filhos se percam
é a tendência dos filhos?
apesar de que um dia, quando eu já estava grande,
minha mãe segurou-me pela mão quando eu queria ir embora de vez
- e eu fui -
mas eu dizia que, quando eu era pequeno e a minha mãe
segurava-me pela mão, sim,
e foi quando ela abriu a porta do quintal e eu vi,
pela primeira vez, a feira de domingo
com seus ruídos e cheiros peculiares
a vida, pra mim, abriu-se como num circo
hoje, toda vez que abro uma porta de algum quintal
há sempre uma feira de domingo
mesmo que seja segunda-feira, terça-feira, quarta-....
Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...
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