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tentando

tentando me achar nesta canção feito alguém procurando se reconhecer numa foto de há muito sei que estou ali na canção que me traz em ondas feito vozes num vento a cabeça é a mesma num travesseiro novo numa casa nova me perco entre o quarto e a sala meus amores esquecidos caem dos bolsos feito moedas sem nenhum poder de barganha tentando me achar nesta canção como o som de sempre numa nova torneira pingando feito a insistência da vida os pés são os mesmos nos sapatos novos numa outra rua me perco entre mim e eu meus heróis trocaram as lanças e as espadas pela garantia de ir à Disneylândia uma vez por ano tentando ainda me achar nesta canção como um cão buscando reconhecer o seu dono num assobio de um estranho

biografia mínima de uma longa espera

Manuel Bandeira contraiu tuberculose em 1904 um dia, temendo a morte, perguntou ao seu médico quanto tempo de vida tinha o médico, otimista, disse-lhe que cinco, dez, quem sabe quinze anos, né? afinal, Bandeira não tinha mais bacilos, comia bem e dormia que era uma beleza apesar disso, vivia que vivia a esperar a Indesejada das Gentes só que com a casa limpa, a mesa posta e com cada coisa em seu lugar então, morre sua mãe publica As Cinzas das Horas morre a irmã, sua enfermeira desde 1904 publica Carnaval morre seu pai Os sapos, um de seus poemas, é lido na Semana de Arte Moderna de 22 morre seu irmão Publica Poesias Publica outros tantos livros gasta o que não tem com os livros, não com ele é eleito para a Academia Brasileira de Letras candidata-se a deputado mas não se elege - não se pode ganhar todas, principalmente quando já nasce perdendo – continua publicando ...

os sinos

ainda badalam os sinos das igrejas? acho que é isso que ouço ao longe como o atrito de metais pode resultar em canção tão linda? por que sinto isso com os sinos das igrejas? não é nada de religião, não acredito que tem a ver com o espanto de uma tarde da poeira que se espalhava, da melancolia das portas e janelas das velhas casas. sinto meu pés no chão, seixos entre os dedos, o vento nos cabelos aprendi ali que a esperança é algo desolador então, penso que os sinos, essa canção de aço que ouço ao longe, me traz essa esperança que descobri e que a deixei, logo em seguida, pelo caminho, como quem abandona uma roupa que não mais o veste.

a luz que um dia iluminou os cabelos de minha mãe

lembro-me de uma luz que um dia iluminou os cabelos de minha mãe esta, sem desconfiar nadinha, em sua resignação de sempre, catava feijão, enquanto aquela luz, vinda de tão longe, pousou nos seus cabelos desgrenhados como se buscasse um lugar para descansar eu, paralisado, rezava para que nenhuma nuvem desavisada cruzasse o caminho daquela luz tampouco alguém chegasse e quebrasse o espanto do dia trazendo-me para a realidade e seus tantos braços de concreto quando a angústia, este lince sempre à espreita, com olhos luminescentes, em passos mansos e precisos aproxima-se logo busco a luz que um dia iluminou os cabelos de minha mãe - é quando sinto o animal hesitar - mas isso não demora muito - as lembranças têm vida própria - navega pelas minhas pálpebras feito um barco ao longe e logo some então, o lince vem e faz a festa

um pequeno espaço

Ocupo um pequeno espaço no tempo. Sou a medida dos meus sonhos. Seguro-os como, com cordões, prendia as minhas pipas. Sonhamos, e por mais que sejam sonhos, os controlamos. Vivo no pequeno quadrado que é a vida que me cabe. Sou como o estudante correndo no recreio antes da sineta. Correndo de si mesmo. E assim vai correr toda a vida. os sonhos, assim, como os estilingues, perdem a elasticidade. Sempre digo que os sonhos envelhecem, sim. Se uma tulipa envelhece, se uma fruta apodrece por que não os sonhos? Dizer que os sonhos não envelhecem é como afirmar que a minha vó encontra-se na calçada a balançar-se em sua cadeira e a fumar o seu cachimbo. Apegar-se aos sonhos pálidos é como os casais que passam tempo demais juntos e já não sabem mais qual o grau de parentesco que os enlaça. Ocupo um pequeno espaço no tempo e este espaço não é meu. Nem os mortos são donos do chão onde fingem dormir. Então, vou pisando feito um dançarino que ensaia um espetáculo que não vai acontecer. Sou tão ingê...

aquele sorriso

Passou toda a vida procurando que acabou esquecendo o que procurava. Antes perguntava, mostrava as fotos, voltava a perguntar, nada. Depois, passou a caminhar pelas ruas, de forma aleatória, a coçar a cabeça, a olhar longe, a mão feito pala na testa para barrar o sol inclemente: a procurar, a procurar. O que exatamente? ela poderia se perguntar naqueles últimos tempos. Quem a conheceu antes, jamais diria que aquela mulher maltrapilha, desdentada, malcheirosa, de pés descalços e andar desengonçado era a mesma que um dia caminhou pelas ruas e praças, sempre muito bem vestida, elegante, cheirando a perfume bom. Dizíamos que ao caminhar deixava atrás de si uma fragrância como se soltasse flores pelo caminho. Costumava, nas tardes de domingo, passear com a filha, uma menina sapeca que há pouco tempo aprendera a andar. A mãe, sorrindo, sentada num dos bancos da praça, observava a filha num cair e levantar-se. Depois, a menina, animada, vinha ao encontro da mãe, e nas mãos, trazia algo. Coisa...

é assim que oro

Oro ao senhor não para pedir nada. Oro como um trabalhador, depois de um dia duro, senta-se à sombra de um baobá e fuma o seu cigarrinho. Oro feito os meninos pequenos, correndo nus, a fugirem dos deuses imaginários nas suas brincadeiras em África. Sabe que nem sempre acreditei em ti, né? Sei que sabe. Tive meus dias e minhas noites de dúvidas. E o senhor na tua ausência, no teu silêncio, na tua distância, no teu longe. Diga-me, da altura da sua divindade, o que é o longe? Oro sim. Eis-me aqui, mas não de joelhos. E isso mudaria alguma coisa? Para que mais servidão, Pai? e já não existe demais? Olhe os olhos dos homens, observe o que eles fazem, a que ponto chegam para trazer comida para suas casas, para seus filhos, para sua mulher que espera mais um. Olhe. Sou um deles, Pai. Estou também em meio a este turbilhão. Agora, aqui, sinto este aperto como se me fossem puxar por dentro e me reduzir a um tiquinho de nada. E isso me desmantela os passos, me atordoa. Essa coisa não é sempre, ma...

lagartos, cobras, aranhas e britadeiras

Dizem que Barcelona é ruidosa. Não, estive lá e vi. Barcelona é festiva. A minha cidade, sim, é. Ruidosa no mais alto grau de insanidade. Estão sempre demolindo e construindo, ou apenas, destruindo. Nem bem iniciam a demolição de um prédio e já começam a vender os apartamentos como os vendedores de cemitérios vendendo túmulos. Pelo menos, no caso dos túmulos é muito provável que os mortos os ocupem um dia. Agora, sobre os apartamentos, como os coitados dos compradores sabem se estarão vivos quando os cubículos estiverem prontos? Bom, mas eu falava do barulho da minha cidade, esta que amo, apesar de tudo. Vivo aqui e pretendo que um dia as minhas cinzas se misturem ao gás carbônico das avenidas. Isso é uma coisa. Outra, são as construções, as reformas. Uma termina e outra começa, às vezes, vão as duas juntas, competindo entre elas qual faz mais barulho. É o que parece. Um inferno. Minha cidade, posso dizer, é a terra das britadeiras. Você não tem como fugir. Há muitas, por todos os luga...

a moça bonita e o seminarista

Depois de alguns anos, ele largou o seminário para se casar com uma moça bonita que morava na mesma rua que a minha. Quatro casas depois. Ele sofreu muito, pois era difícil, dizia ele, lidar com os dois lados da gangorra: de um deles, a vocação, o sonho do pai, da mãe, e o quanto a coisa do seminário já ia longe, do outro, aquela menina de sorriso largo, bochechas vermelhinhas e olhos ligeiros por quem ele estava apaixonado. “Meu doce”. Era assim que ele a chamava. Ela ria, rodava nas mãos os cabelos longos ameaçando um cocó, mas soltava-os logo em seguida, ainda rindo e se remexendo como quem não cabe em si, e ele: "meu doce, meu doce". Estava ainda pegando o jeito. Há muito não circulava pelas coisas mundanas. Então, ia devagar para não derrubar o andor. Todas as noites - e as tardes de domingo - ele caminhava alguns quilômetros só para vê-la. Ao sair de casa, pedia a bênção da mãe e do pai, espanava os cabelos do irmão mais novo e saía em seu andar duro e ligeiro. Assobiav...

num piscar de olhos

Foi como se eu fechasse os olhos um tiquinho e os abrisse logo em seguida e cá estou com a idade que tenho agora. Digo isso, porque quando fechei os olhos eu era ainda um menino de calções curtos costurados pela minha mãe, arrastava um carrinho de lata e com os olhos lânguidos - meu pai dizia que eram olhos de pidão - olhava os adultos de baixo para cima como quem contempla aviões. Vejo a coisa dessa forma porque foi tudo muito rápido. Sim, parece que foi ontem que me alegrava quando ia comprar o bolso do uniforme. Era um retalho de nada com o nome da escola ainda cheirando à tinta. Minha mãe costurava aquilo na minha camisa e eu me sentia ainda mais estudante. Depois, a diretora, com olhos de águia, ia verificar se todos os alunos, em forma no pátio, estavam com o bolso. Caso contrário, saiam da formação puxados pela orelha: e o bolso, hein? e o bolso, hein? Nas minhas mãos ainda está o pó das pedras que eu atirava nas mangas, lá no sítio do seu Mané. E trago, entre os dentes, os fios...

flor negra

a minha língua na tua pele de ébano na tua boca é você ou a noite que se contorce? teus olhos antes tão decididos agora pedem asilo e tenho tão poucos braços mas te concebo, te sinto lá onde principia o mundo onde me ergo feito um anjo de uma queda teu queixo em meu ombro trepida feito a existência tudo trepida, até as luzes lá fora agora esta onda que se eleva esta falange que marcha revoadas de pássaros famintos este silêncio que antecede a nossa hecatombe logo, então, seremos dois corpos sob a lua esta, que desliza na noite feito a minha língua na tua pele de ébano

o fino fio do amor

Dizem que uma pessoa tem pelo menos seis sonhos durante uma noite, e que se ficássemos sem sonhar, morreríamos, como assim acontece se permanecermos muitos dias sem dormir. O fato é que há tempos não me lembrava nada dos meus sonhos, e os livros explicam tudo, menos o porquê de uma pessoa permanecer anos a fio sem lembrar-se do que sonhou. Li toda a obra d'Os Sonhos de Freud, e nada encontrei sobre essa parte. Bom, isso pra dizer que por esses dias sonhei e lembrei-me de tudo no dia seguinte como alguém que assiste a um filme no dia anterior e pela manhã, no café, conta para alguém. Sonhei que quando as pessoas morriam todas as suas coisas morriam logo em seguida. Desapareciam aos poucos como assim desaparecem as formas nas nuvens. Uma velhinha morreu e logo sumiu a sua cadeira de balanço, suas roupas nos varais, as velhas panelas de fundo preto, seu vira-lata, seu cachimbo e por fim, sua casa com tudo dentro. Os parentes agarravam-se às coisas feito náufragos nos restos de um velh...

fronteiras do ilimitado

Não aprendemos a escrever livros. Aprendemos, quando muito, a escrever determinado livro. Aquele que estamos trabalhando no momento. Cada texto é um texto, com seus caminhos, possibilidades, demandas. E são iguais os filhos de uma mesma mãe? E são iguais os galhos de uma mesma árvore? as ruas de uma mesma cidade? A cada livro vou apalpando feito alguém dentro de uma loja de cristais numa completa escuridão. Escolher palavras - esta sim, aquela não - é mesmo como tocar cristais. Nessa escuridão, vez em quando, iluminada por um farol, conseguimos uma frase que valeu o esforço. Porque é isso mesmo, um esforço. Vamos empilhando páginas e páginas assim como um trabalhador das docas empilha sacas e mais sacas. Por que então permanecemos escrevendo? há muitas e nenhuma resposta para isso. Pelo menos é assim que vejo. Faulkner disse que escrevia pra ganhar dinheiro. Claro que dizia isso para fugir de perguntas com possíveis respostas embaraçosas. Dostoiévski eu sei que escrevia para pagar cont...