o que mais me doía nas duas flores escuras e murchas nos pulsos do meu irmão mais velho não era a face enrugada da morte. Esta já era uma velha sombra conhecida de todos e que em sua retórica silenciosa e eficiente já tinha ludibriado tantos na família que já não nos espantava. O que me doía mesmo era a vontade ferrenha do meu irmão de partir, de nos deixar. O que fizemos? E não éramos também passageiros daquele trem desgovernado? Foi numa madrugada solitária e quente que descobri essa sua vontade. A morte deve se irritar quando alguém, sem limpar os pés no tapete, sem bater palmas no portão, adentra o seu castelo. Deve ficar irada quando é arrancada da sua sesta em seu trono gelado. Esquece até que é morte e, com seu dedo longo, engelhado, em riste, bem na cara daquele que quer vir muito antes do esperado, solta impropérios e perdigotos a rodo: "Volte, seu imbecil e só venha quando eu mandar, tá entendendo?". Deve ter sido isso, só pode, porque o meu irmão, no dia seguinte, ...
Blog do escritor brasileiro Reynaldo Bessa