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Flores murchas

o que mais me doía nas duas flores escuras e murchas nos pulsos do meu irmão mais velho não era a face enrugada da morte. Esta já era uma velha sombra conhecida de todos e que em sua retórica silenciosa e eficiente já tinha ludibriado tantos na família que já não nos espantava. O que me doía mesmo era a vontade ferrenha do meu irmão de partir, de nos deixar. O que fizemos? E não éramos também passageiros daquele trem desgovernado? Foi numa madrugada solitária e quente que descobri essa sua vontade. A morte deve se irritar quando alguém, sem limpar os pés no tapete, sem bater palmas no portão, adentra o seu castelo. Deve ficar irada quando é arrancada da sua sesta em seu trono gelado. Esquece até que é morte e, com seu dedo longo, engelhado, em riste, bem na cara daquele que quer vir muito antes do esperado, solta impropérios e perdigotos a rodo: "Volte, seu imbecil e só venha quando eu mandar, tá entendendo?". Deve ter sido isso, só pode, porque o meu irmão, no dia seguinte, ...

Cansaço

A cabeça está a mil. Há tanta coisa pra contar. Há uma cidade sob a chuva, luzes e luzes, o asfalto brilhando feito um dorso úmido de um corcel, há ainda o cheiro de um perfume, um sorriso no retrovisor, uma mão quente sob uma outra, há tudo isso e mais, mas o corpo está cansado, as mãos, os dedos se contraem e nada vai. Posso ouvir o som dos pneus no chão, uma música. É como um exército que precisa defender uma nação mas seus homens já não aguentam. Querem apenas deitar sob as sombras frondosas das tardes e fumar alguns cigarros., repousar o corpo, ler algumas cartas ou apenas olhar o horizonte. A cabeça quer, mas o corpo não. Um quer ir, o outro quer ficar. As setas do passado vão em todas as direções. Estamos em algum lugar e pulamos para outro. Retalhos de conversas, abraços, chegadas e partidas. Tudo tão intenso, mas depois cada um segue seu caminho. Depois que nos encontramos já não somos mais os mesmos. O tempo é outro, nossos anseios são outros, nosso corpo é outro, compromis...

Como se fosse hoje

Gosto de ficar, mas tenho esta vontade desenfreada de ir e ir. Num dado momento, vem a estranha sensação de que algo já não me cabe ou vice-versa. Então, quero ir. Quando era bem pequeno, ainda no berço, minha mãe me encontrou à porta de casa, já querendo ir para a rua. Ela não sabia como eu havia saído do berço, eu, muito menos. Depois a bacia ficou pequena, a minha cama também, a nossa casa, a rua, o bairro e, por fim, a cidade. Então fui e nunca mais parei. Estou sempre na iminência de partir. É uma coisa que está em mim como um sinal, uma mancha, uma cicatriz, um braço. Mas penso que isso se intensificou quando, um dia, na minha pré-adolescência, fiz uma viagem com o meu pai. Talvez ele já quisesse me direcionar para o seu ofício. Ofício do qual muito se orgulhava. É, talvez ele quisesse mesmo que o reizinho ocupasse, um dia, o velho trono do nosso infortúnio e, por isso, me levou junto em sua odisseia de boleias altas, de homens de gargalhadas sonoras, com sofridos palitos de dent...

A cozinha sem porta

Fazia uma vida que ela estava naquela cozinha. E ali não havia uma porta. Nenhuma. Desistira completamente de procurá-la. Durante muito tempo se dedicou a isso: a achar a porta, a porta. Tateou a parede, agachou-se, olhou pelas fendas, e nada. Cansou. Ela sabia que existira ali, uma porta. Ora, e como entrou? Havia sim. Quando ela chegou, era ainda uma cozinha bonita. As paredes eram novas, o cheiro era bom, tudo era limpo. A coisa começou a mudar logo após a primeira fritura. E daí foram tantas, muitas. Os clientes foram surgindo, os pedidos, aumentando. Gostavam da comida dela e ela gostava que eles gostassem. Mas isso já ia lá muito tempo. Agora só pensava em sair dali. A sua pele parecia a pele das paredes da cozinha. Pegajosa, suja. Sua testa brilhava feito a lua. Não conseguia sentir outro cheiro a não ser o do óleo frito, queimado. Podia ver lá fora os clientes devorando a comida que ela preparava. Riam, mastigavam, devoravam tudo. Depois fumavam, tomavam o café e logo em seguid...

Os chinelos do meu pai

sempre que me deparava com os chinelos do meu pai, me enchia de perguntas. eram tão pequenos, tão frágeis, tão indefesos por que eu temia e obedecia o homem daqueles chinelos? pareciam pedir licença para existir. sempre que via o dedo em riste do meu pai bem na minha venta e ouvia o seu grito eu olhava para os seus pés ah, aquele meu gesto - minha Alcatraz - até podia achar que ele tentava escondê-los como um banguela esconde o riso. nada ali casava era como uma exímia bailarina dançando com um coxo. mas aí, eu olhava para o dedo de Deus eu, Adão espinhento, espevitado, sem saída. ouvia, então seus gritos, logo, ora, obedecia. abaixava os olhos feito luciferzinho expulso do paraíso pelos anjos de Milton. só depois, muito depois - quando o tempo já não tinha tempo - fiquei sabendo que o coração do meu pai era pequenino e ainda mais frágil e indefeso que os seus velhos chinelos.

O cosmos

O cosmos é uma rua uma pequena aldeia travessia de promessa e solidão. Um across the universe. Prometi isso para meu irmão mais velho que morreria dias depois. E depois, o vazio E depois, mais nada. nada Gosto de Tony Bennett cantando e dançando bonito com Sinatra. Isso me faz parecer que a vida é boa e que todos os homens são bons e felizes e não apenas homens.

007

Meu pai e sua 007 A 007 e o meu pai irmãos num conluio contra o dia, contra as impossibilidades contra a morte um já lambendo a volta na ida os lábios estalando fugas úmidas e a outra presa por aqueles dedos gordos e tensos que seguravam a alça carcomida da melancólica 007 como se estivessem tentando prender a própria existência a busca do impossível necessário a refrega diária e sem sentido idas que nunca foram voltas que nunca voltaram feito um parafuso espanado um gorduchinho, teso, em sua roupa apertada indo, rumo ao penhasco dos esperançosos, ingênuos & infelizes com o aluguel bem sobre o seu cocuruto feito a espada de Dâmocles, o Velho tirano de Siracusa

O escritor

O escritor de verdade, o escritor mesmo é aquele que, num jeito muito particular, inventa uma história e acredita nela. Inventa porque acredita. Acredita tanto que até acha que tudo ali existiu de verdade. E o que é ainda melhor, leva um montão de gente com ele nessa viagem inventada.

Miserê

Nas calçadas em noites de lua as mulheres ficavam em suas cadeiras de balanço olhando lânguidas os transeuntes em suas pressas e preguiças. Era assim que ficávamos sabendo disso ou daquilo: quem nasceu, quem morreu, quem ficou louco ou quem traiu quem Parecíamos pequenos corvos dissecando carniça Fazer o quê? É assim aqui, é assim no resto do mundo. Não é uma questão de civilidade, mas sim, de tédio. E o tédio é internacional Embarca e desembarca diariamente em todos os aeroportos do mundo & Nunca se esquece da bagagem Com perspicácia felina, está sempre pronto para conexões e escalas também atrasos E nós ali, pausas do nosso miserê Era quando as mulheres largavam a cozinha e os homens encostavam o pilão, entre outras coisas Passa o rapaz em seu cavalo, o casal com o menino chorão Passa o vendedor de pote, o crente e o ateu Cruzam com o relojoeiro, o padeiro, o marceneiro, o enfermeiro E nós aqui nesse pasmeiro em mente, caricaturando os infelizes passantes A lua ia e a calçada enc...

Saga

Não é só a infelicidade que segue em seu passo coxo A felicidade tem lá as suas bizarrices Pois bem, nunca me senti tão feliz quando, um dia, eu e meu pai, na velha kombi de guerras, nos perdemos pelas estradas do sem fim. - eu tinha o quê? Treze, quatorze anos? – De repente nos vimos num vazio no meio do nada Um nada amarelo, feito uma velha foto de gaveta. Dava pra ver longe, longe....lááááá ali, até onde os olhos podem ver o longe As árvores murchas feito esqueletos num baile, uns nos outros, pareciam buscar consolo e afago, talvez refrega. Como se a morte os tivesse pegado de surpresa, todos em meio a uma grande dança coletiva. Mas eram apenas árvores. Havia, no ar, um cheiro de carniça, de couro queimado, de terra torrada. O sol em seu amarelo ilusório parecia também querer nos queimar dentro da kombi estalando em seus augúrios de aço e borrac...

O amor

Não pretendo ódio Nem ode Mas como lidar com o amor? E quantos já se foram? E quantos ainda estão por vir? Do ódio, lembro do homem morrendo e seu relógio de pulso indiferente a sua morte Não podemos ver um homem partir sem que este possa se despedir A não ser que aqueles movimentos dos olhos fossem uma despedida Fecharam-se como o cair de uma tarde e o seu relógio trabalhando feito um operário A beleza maldita da morte Desdita de Deus Do amor? Doa mor Amor dói do amor lembro da mordida na maçã....do...amor Mais vermelha que a maçã de Eva E lá se foi uma obturação novinha Ainda a vejo pregada na maçã feito uma bala na parede enquanto minha língua, perdida, debatia-se feito um animal mutilado o amor arranca pele, pelo pedaço o amor corta eu tu ele nós vós eles tudotodos mas se assim não o fosse ora foice cega água parada, [pássaro preso] Onça do...

Corda bamba

Nesta corda bamba Sob os pés, as estrelas É isso a vida Um passo para a frente Ou um para trás? Samba É isso a vida De quem, na verdade, são estes pés, estes dedos ossudos de medo e indecisão? Sou pai, filho, amante, neto, tantos Sou todos em um onde não cabe um sou um e muitos Vou o peso da existência feito o balaio de pão no ombro franzino de João Silvério Trevisan Corda bamba e meus pés pálidos de veias saltadas de espanto De todos os rios Quantos? Os olhos perplexos sobre a constelação de Orion Arquitetura divina de luz e morte Os pilares da criação Beleza de gás venenoso Em meus olhos Há este silêncio O silêncio da caverna do homo naledi E os pés, os pés As estrelas, as estrelas E este um e todos na trepidação da vida

Persona

Não sai na foto Não, não sai O lado do rosto que não bate o sol O lado do cabelo que não repousa Os dentes amarelos e carcomidos de bruxismo e sede e fome Não sai na foto Não, não sai A pele pergaminho que insiste O olhar inseguro de sol entre as nuvens As frutas murchas dos sonhos na fruteira desgastada Não, não sai na foto Este outro lado da lua Esta face sob a sombra Este canto sob a chuva Sob o mundo Sob mim O que sai na foto, [quando muito] é este com um sorriso que, definitivamente, não lhe pertence. Este que agrada porque não sou eu

Tanto

Imaginei Tanto Muito Os rios sobre os teus pequenos montes & fendas secretas As tuas mãos ligeiras e úmidas tateando o corpo como a tentar reconhecer a geografia da própria carne Tenra Terra Ah, teus pés sólidos sobre os azulejos Deus, quantos anjos aquele ralo não deve ter contemplado Talvez por isso, aquela inércia, não? O sol, na soberba de astro, pelo basculante, acendendo ainda mais os teus olhos acesos de ódio e amor jovens. Imaginei Louco Tonto O esfregado malemolente e preciso Samba cadenciado As serpentes de água correndo pelos Idílicos países do teu corpo que eu jamais visitaria. Havia sempre um céu nublado para os aviões dos meus anseios que morriam nas solitárias pistas dos meus aeroportos mais ensandecidos de ti, de ti, de ti, de ti -...