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Meu quintal

no meu quintal há um rio i m e n s o suas águas são calmas e claras ouço os gritos dos meninos impetuosos em alegrias de descobertas de ser meninos banham-se no rio somem e logo aparecem feito peixes afoitos montanhas ao longe em suas inércias longevas são monges em meditações profundas em tudo paira a sabedoria secreta da existência sei disso - o silêncio me diz - mas não sei disso - o turbilhão das coisas me entorpece - vivo como peixe escapando e logo voltando ao anzol - armadilha constante - seria a existência - este ciclo divino e cruel - uma verdadeira armadilha? ouço o rio é um chiado de beleza i n t e n s a de chegadas e partidas de encontros e desencontros é como se eu tivesse ouvido esse som muito antes da minha existência e agora aqui estou e ouço minha voz no coro dos meninos que se banham Sou este coro sou eu e sou outro sou muitos é imenso o meu quintal é imenso o meu rio ...

e o que há de novo nisso, deus?

talvez eu nem chegue a me aposentar e este dinheiro que não vejo que não conto, fique para as velhas aves de rapina de sempre as aves e seus olhos imensos de medo e o que há de novo nisso, deus? não é assim desde a grande explosão? que seja! que seja! ora! o que quero mesmo é que minha mãe volte, mesmo depois de morta, e com seus pés cansados das estradas longas e invisíveis e com suas mãos de árvores estéreis encha de espanto essa rotina emperrada muito provavelmente, se tiver sorte, terei meu nome escrito numa pedra fria e cara. Meu nome completo, e com um I aos invés de um Y, escrito por um funcionário fracassado, de gravata torta, um homem entediado e com halitose. e o que há de novo nisso, deus? não é assim, mesmo depois das primeiras pegadas nas areias brancas, negras, e virgens do mundo? que seja! que seja! ora! o que me importa mesmo é que meu pai volte, mesmo depois de morto, e venha me pegar no banco da escola há muito demolida que me dê a mão calejada e de ...

O ano novo de novo

O cheiro de peru assado. A cozinha quente feito o inferno. Minha mãe com o penteado e as unhas feitos. As luzinhas no tedioso acender e apagar numa indecisão colorida. A velha árvore de natal sucumbindo sob o peso dos anos. Minha roupa nova apertada feito as minhas inseguranças. A etiqueta me inquietando feito o beijo da menina da esquina. A três em Um esperando a deixa. A alegria das minhas irmãs. Como sinto falta daquela alegria das minhas irmãs. Foi nisso que pensei quando entrei no furacão. É nisso que penso quando me perco. Minha irmã mais velha como um tipo de mãe sobressalente, minha irmã do meio me ensinando ironias, e a mais nova arrastando-se pela sala feito uma boneca triste. Meu pai, vermelho: este era o sinal de que já dera algumas bicadas na água que passarinho não bebe, ria como uma hiena. Sua alegria, todo final de ano, soava como acordes de um violão desafinado. Eu tinha, como sempre, vontade de ir embora. Pegar um trem, sei lá, um avião, ou atirar-me num lago, Que tri...

Os livros

De início, me interessei pelos livros, não necessariamente, pela leitura. Gostava de tocá-los, de ouvir o ranger das páginas em meus dedos - quase um sussurro - o cheiro, a textura. Também gostava de olhá-los: de frente, de trás, de lado, e por aí vai. As letras eram como formiguinhas congeladas nas folhas. Eu sabia que aquelas coisinhas pretinhas, juntas, formavam significados, sentidos. Davam nomes às coisas, às pessoas. Falavam da vida, da morte. Mas eu ainda não as entendia, eu só sabia disso porque o meu irmão mais velho lia para mim. Era como se ele puxasse com os olhos todas aquelas coisas lá dentro do livro. Como disse, eu apenas queria tê-los, vários, tantos, muitos, todos. Era um tipo de namoro sem segundas intenções, entende? Não me importava o gênero, ora, não sabia nada disso. Os livros para mim eram apenas livros e eu os queria. Queria-os em minhas mãos. Gostava dos desenhos, dos mapas, de tudo. Quando ainda muito pequeno e ainda sem saber ler, vejam, tive a minha primeir...

Só tenho o presente e olhe lá.

Nunca vou esquecer o que aconteceu. Tenho total consciência do que passei, passamos, sim, foi duro de roer – estamos roendo e parece que vamos roer ainda um bom tempo – mas não aguento mais escritos sobre a pandemia, Sei lá, encheu, deu. Aprendi? Aprendemos? talvez, talvez. Se sim, beleza, se não, gavião. O mundo nunca me pareceu melhor, nunca me pareceu menos violento. Afinal de contas, na Idade Média, os caras se matavam e se comiam. E hoje é diferente? Estou cada vez mais pessimista e não vou lamentar por isso até que alguém me apresente um motivo contundente para que eu não o seja. Duvido. Bom, não quero me alongar, a coisa tá feia. Não, não tenho esperança. A minha cota num tá na reserva, acabou. O meu sperare, tikvah ou elpis, como queira, já não aguarda. Meus olhos há muito não ondeiam nas águas do futuro. Vivo o presente, pois isso, bom ou ruim, é o que tenho. E sei que o tenho até o momento em que termino de pronunciar a palavra presente, pronto, já foi. É isso mesmo, tudo iss...

dez liras

dez dedos dez unhas dez liras e não consigo um punhado de ti 32 dentes e é como morder o vácuo um mergulhão num voo desesperado sem presa um coxo a percorrer a tua vereda escura, úmida, movediça -aquilo que nunca é - como contar um sonho ou um pesadelo e nada teus olhos de zinco teus cabelos sobre a cama - hemorragia negra & lisa - boca adaga púrpura o teu ventre terra em t r anse meu cordão umbilical em ti serpente buscando fuga no teu dentro-inferno língua de um anjo louco teus pilares de carne mordendo os meus flancos com a fome de mil mamutes fuga e armadilha armadilha e fuga fuga e armadilha armadilha e fuga uma bolha de suor correndo entre os teus seios pérola derretendo-se em desespero. estamos em guerra? estamos? pois até então sorríamos como dois colegiais fing...

Coisas impossíveis

Quando eu era ainda muito pequeno, meu irmão mais velho me disse que a terra é redonda. Primeiro fiquei espantado, com medo enorme de me mexer e escorregar. Depois, peguei uma tampa de leite Ninho e fui cavar o chão. Cavar, cavar e cavar. Meu irmão, vendo a situação, perguntou-me por que eu estava cavando daquele jeito. No que lhe respondi que eu queria alterar a estrutura do planeta. Não foi bem assim a minha frase, pois ainda não sabia o que era planeta, muito menos, estrutura. Mas foi algo bem próximo disso. Meu irmão caiu na gargalhada e logo me disse que a única coisa que eu iria conseguir era me sujar todo e ainda cortar as mãos, estragar os joelhos. Depois saiu, ainda rindo, e falando alto: "o planeta é imenso, pixaim". Desse momento em diante, acredito, aprendi duas coisas. A primeira foi que há coisas que não podemos mesmo mudar. É e ponto. A outra coisa, acredito ainda mais, foi que daí surgiu a minha curiosidade e consequentemente, a minha vontade de tentar alterar...

Sapatos

Não posso olhar para os sapatos das pessoas que logo me comovo. É. E às vezes vou às lagrimas, a vista embaça, o coração dispara, fecho-me como uma concha. Não me refiro a todos os sapatos, não. Retifico. Comovo-me muito com alguns sapatos. Não com os de crocodilos, aqueles das madames maquiadas e ansiosas, nem com os de duas cores dos homens bem de vida e muito vaidosos. Não falo mesmo dos sapatos que têm como objetivo maior embelezar os pés, pisar no chão acima do chão dos outros. Estes, me irritam. Na verdade, deixam-me furioso. Refiro-me mesmo aos sapatos que são adquiridos para aquecer os pés, para protegê-los ou mesmo para escondê-los. Sim, os pés sofridos, doídos, cansados. Mas estou aqui falando de sapatos, e de minha comoção porque por esses dias fui ao posto de saúde. E quando esperava a enfermeira que iria me vacinar, vi um rapaz? um senhor? Não sei precisar. O que sei é que ele tinha algo ali nele que precisava do constante auxílio da mãe. Tudo que ele precisava fazer ela j...

Me sinto só Só de mim Falo qual língua? Em qual peito bate o meu coração? É esta a campainha da minha porta? Me sento só Pó de mim Sigo qual régua? De qual boca soa a minha voz? É meu este chão que piso? Me pinto só Eu e mim Quem está no espelho? De quem é mesmo esta guerra? É esta a casa que habito? Me sinto só Tão só Sótão de mim.

Uma vez

Um dia percebi minha mãe muito animada. Mas já de cara digo que esta talvez tenha sido a única em toda a sua vida. De certo que não convivi com ela todo o tempo. Há muitos aniversários, batizados, natais sem mim. Hoje, procuro-me nas fotos dessas comemorações e não me acho. E como poderia? Eu passei boa parte da minha vida longe, vagando pelo mundo, atrás daquilo que até hoje não sei o que significa, nem sei o nome, e por isso, também não sei se o consegui de verdade. Às vezes penso que sim, noutras penso que não. É isso. A gangorra de sempre. Mas todo tempo que convivi com ela, eles, a minha família, foi sim essa a única vez que vi minha mãe bem animada. De resto, lembro-me muito bem dela irritadiça, rodando por um grande bolo confeitado, de aniversário ou casamento, sei lá, tentando, mais uma vez dar o seu melhor, mas agora sem a mesma animação à qual já me referi. Quando decidiu confeitar bolos, já estava mais velhinha, cansada, e com certeza, mais triste. - não é isso o que a vida ...

Os inimigos?

Aprendi a amar aquele que eu odiava - eu realmente odiava ou me odiava? - vi o quanto frágil meu inimigo é. Ah, o seu coração acelera, o seu corpo pede ajuda a si mesmo. A voz brutal que vinha dele não era uma afronta, mas sim, um pedido de ajuda, um grito, um apelo. Aprendi a ver aquele que via mais a mim do que eu a ele. O olhar não era de ódio como eu pensava, mas sim de súplica. Já disse. A sua canção, de alguma forma, falava do que eu ansiava. O meu inimigo era o meu melhor amigo. Eu vi a fenda em seu provável ódio. Vi o seu sorriso como vidro quebrado, como o vento que leva a toalha da mesa do aniversário da filha mais nova. Como o terremoto que destrói a casa, como os gafanhotos que devastam a plantação. Vi o sofrimento como uma ferida purulenta. O meu inimigo sofre como eu. Ele tem insônia, tem palpitações, tem medo, conta o tempo que lhe falta. Tem contas a pagar. Sofre quando o braço esquerdo formiga. Sim, no dia seguinte, odeia, vocifera, xinga, mas ele também ama, lembra a ...

Eu escuto você chamar

eu escuto você chamar mas não sei se é a tua voz algo me diz que sim algo me diz que não eu sinto você sentir mas não sei se é o teu sentimento algo me diz que sim algo me diz que não há um muro entre nós? quem o construiu? éramos um só, não? eu sinto o teu toque mas não sei se são das tuas mãos algo me diz que sim algo me diz que não eu minto a morte. mas não sei se isso está certo algo me diz que sim algo me diz que não parecemos tão pertos é isso mesmo? se sim, o que realmente, nos separa? sigo com a vida. - e você? - mas não sei se isso é a vida. algo me diz que sim algo me diz que não

Os Dez Mandamentos

Já se passaram muitos anos e ainda me lembro muito bem da fachada do cinema. Ficava na esquina, trazia um R bem grande, no centro de um triângulo ainda maior, vermelhos, os dois. O resto todo branco, feito um hospital. Foi neste cinema que assisti dez vezes aos Dez Mandamentos. Sim, dez vezes. Passava a semana juntando moedas pra fazer o valor da entrada. As moedas viravam cédulas menores, as menores tornavam-se graúdas e assim, eu ia. Ainda sobrava uns trocados para um pacotinho de jujubas. Sentava-me bem no meio da plateia. Até hoje faço isso, sento-me bem no meio. Nem próximo da tela, nem longe dela, no meio. Escorrego um pouco no assento macio como quem vai desaparecer por ali, fixo o olhar na tela e vou abrindo o meu pacote de jujubas num estalinho melancólico e sonoro. A tarde ia mudando de sabor. Ora cereja, morango, hortelã, ora abacaxi... e por aí vai. De repente a tela desperta em cores e movimentos. O som entra como num trovão. Vem o comercial, que já sei de cor, pois vi o f...

Os hospitais

Os hospitais são universos à parte. Têm suas próprias diretrizes, ritmos, rotinas, cores e cheiros. O branco nem sempre é branco e o cheiro nem sempre é daquilo que achamos que é. Numa comparação radical, porém, válida, os hospitais são como as cadeias, mas destas não posso falar, pois nunca vivi em nenhuma delas. Pelo menos, até então. E nas cadeias ficamos por outros motivos, apesar de que, assim como nos hospitais, também contra a nossa vontade. De alguma forma estamos presos, e, nos hospitais, a sentença é o nosso corpo. Tive um amigo ateu que dizia que preferia entrar numa igreja a entrar num hospital. Costumava dizer que numa igreja ele ainda saía inteiro, ainda mais sólido em sua descrença, mas de um hospital, ninguém sai ileso. Deixamos sempre algo de nós ali dentro. Mas por que desandei a falar de hospital? Agora já nem sei. Ah, sim, durante boa parte da minha vida vivi em alguns hospitais. Começou com um sarampo que quase me levou e, depois, vez em quando surgia alguma coisin...

Tarde triste

tarde triste gota que nunca cai lâmpada velha piscando vento de venta adunca de velho-canalha a ausência feito navio longe indo sem ir corpo - meu? - boiando no grande rio da existência tudo parte, nunca volta como as folhas dos galhos meu-coração-arbusto rolando pelas ruas vazias do meu velho-oeste juvenil poeira pó triste tarde porta que nunca sabre cerâmica velha quebrada fio de vela velando a vida-mortalha a ausência feito o sol alto indo sem ir valha-me vida-odisseia dez anos é o tempo desta tarde triste que ainda arde