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o exilado

Um dia, assustei-me comigo mesmo. Antes disso eu só dormia enfronhado em minha mãe e coçando o meu nariz até adormecer. Isso todas as noites a ponto de arrebentá-lo de vez. Como são estranhos alguns requisitos de Morfeu, não? O fato é que na infância não nos damos conta dos espelhos. Sabemos deles, do nosso reflexo neles, mas até aí o que poderíamos fazer com isso? Nessa fase, há sempre coisas mais interessantes do que os espelhos, nossos reflexos neles. As crianças os desdenham por simples ausência de motivos, os idosos, por tê-los em demasia. Sim, assustei-me comigo mesmo. Foi quando tive de entrar no quarto da minha mãe para pegar algo que agora não me lembro. Os dias, feito serpentes em seus movimentos ligeiros e inaudíveis, iam longe. Eu sentia algo diferente em meu corpo, mas eu não sabia lidar com isso, ou talvez, não quisesse mesmo pensar sobre. Era algo como uma trama silenciosa. Eu sentia. Também percebia que a cama da minha mãe já não me parecia tão grande. E eu até podi...

um punhado deles, e tudo bem.

Um dia sonhamos muito, como pródigos dos sonhos, depois sonhamos com uma certa cautela - alguns já não vingaram, normal - e muito depois, vamos tirando os sonhos impossíveis do nosso barco avariado para que ele não afunde e assim, possamos seguir na nossa jornada. Sonhar é bom, dizem. Os sonhos despertos, assim como os oníricos não têm lógica nenhuma, por isso são sonhos e por isso são bons. Só a infelicidade tem lógica disse-me uma vez um senhor de muitos anos quando já não ousamos contá-los. Sim, entendo, mas nunca caí de boca num doce depois das refeições, e sempre os ataquei pelos flancos, ou guardava metade para comer depois. Gostava de saber que num determinado momento ia ter uma metade me esperando. Ser comedido tem lá as suas vantagens. Algumas. Faço assim também quando me dou a sonhar. E não são doces os sonhos? Não sei mesmo se um dia sonhei feito tia Dolores, na janela, com a mão no queixo e o olhar longe como se lambesse uma tasquinha do futuro. Tenho instintos felinos, sab...

tua ausência

a tua ausência é uma palavra sob a língua do dia. a mão espalmada do silêncio, os lábios cerrados dos móveis. sim, porque quando você está aqui, tudo fala, canta, até os pássaros embalsamados do senhorzinho da mercearia cantam. a tua ausência é esse vento que não venta, por isso, as cortinas derreadas feito as madeixas de uma mulher triste. sim, porque quando você está aqui, tudo se move, voa, até as borboletas espetadas do nosso vizinho voam. a tua ausência é esse não sei pra onde vou, um rodar em mim feito um vira-lata entediado, uma cobra decaptada a buscar o rabo que não mais possui. sim, porque quando você está aqui, tudo tem rota, sentido, até mesmo os noias do nosso bairro, em seus fogos internos, como se tivessem enfim, achado um caminho caminham a tua ausência está aqui - tão aqui - não apenas por você ter-se ido. é também como se eu não estivesse ficado.

a velha casa em algum lugar

Um arrastado de chinelos, uma tosse, um choro de bebê, tambores. Eram sons que vinham de longe. Chegavam até nós e tremulavam feito flâmulas ao vento. Eu, com quatro ou cinco anos, difícil precisar, fazia bolos de areia como quem modela o medo. A noite era como uma mulher vestida de preto, e a lua, grisalha feito a minha vó, deslizava imprecisa feito uma cusparada no ralo do céu. Nossa casa longe, entre mangueiras soturnas, parecia tentar esconder-se, assim como nós. Um vento assobiava fino por entre os dentes cariados das velhas janelas. Era bom ter minha irmã ali, não como um suporte, mas como uma testemunha da desolação. A voz da minha mãe, vez ou outra, era arrastada por um carro. Meu pai, em seu passo pesado, meio que para o lado, dobrava a esquina, no rumo de casa. A sua 007 surrada servia como um contrapeso para evitar que ele perdesse o caminho da retidão que a sua igreja costumava pregar. Já minha mãe, assustada de nascença, parecia ainda deslumbrada por ter sobrevivido ao fi...

na Martins

há muito eu passava na Martins, comprava um livro, depois ia ao Domínio, pedia uma cerveja. Não, não pedia. O Márcio que trabalhava lá e me conhecia me trazia a cerveja como uma mãe oferece o seio ao seu filho. Eu, depois de um gole, esticava as pernas, olhava a Paulista e abria o livro como quem conquista um país. Faz tanto tempo. Ela ainda estava aqui dentro feito um pássaro num ninho e eu estava em mim como um chapéu na cabeça que já não se podia dizer o que era cabeça e chapéu. foi tudo antes de me perder. Antes do fim do mundo antes do antes. Foi quando todos se foram e eu me fui o Domínio está lá, a Paulista também. Eu, ela, nós é que não estamos mais. Estamos, mas não estamos como um busto de um tempo que se foi

um dia

há tempos não escrevo, como se há tempos não andasse, não falasse, não vivesse. Nesse mar profundo que escapamos a braçadas, estou afundando. Há tempos não quero fuçar gavetas, nem visitar casas, lembrar nomes, nada. Tenho lido muita coisa que nada diz das coisas. Há tantas coisas sem nada dentro e por isso me pergunto por que mais coisas. Sem escrever, sem escrever. nenhum novo amor veio me bater à porta numa noite fria, nem um grande amigo voltou depois de mais uma guerra perdida. Uma carta, sequer, da minha mãe, que estava nalguma mala velha há muito perdida nos porões das nossas vidas. Não escrevo, não escrevo. Não invento, não invento. Poderia, mas não. Apenas conto enviesado aquilo que vivi na pele. Conto aquilo que me trai a memoria. Conto no ritmo do balanço velho da velha mangueira no velho quintal onde minha solidão era mais presente que as equações que nunca fechavam, na escola Oh, os meus pombos, eu pedia sempre: vão embora, vão embora, mas eles voltavam como um exército ve...

quem sabe

nosso amor não é o mesmo há algo no lugar como um calço na perna de uma mesa a mesa que já não é mais mesa como você não é a mesma e eu não sou o mesmo - afinal, quem somos? - ainda quero aquela da foto com o sorriso que eu desconhecia e sei que você quer aquele da foto com a timidez que você gostava queremos outros nós beijo a boca que não me beija assim como os relógios não marcam o tempo mas apenas fazem tique-taque toco a mão que não me toca como a sombra das nuvens sobre o lago danço a tua dança que não dança feito um espantalho jogado pelo vento te olho como quem espreita uma fuga e você me olha assim do bunker-você tua companhia me acompanha de forma protocolar assim como um guia ao seu cego - quem leva quem? - ah, minhas palavras nada mais te dizem não mais, não mais talvez, sim, talvez seja hora do nosso grande salto o difícil e definitivo aquele no qual a solidão doi como um corte profundo de navalha aquele que sozinhos somos mais so...

trela

não dou trela a poeta que baba poeta essa coisa de acariciar o umbigo dos poemas alheios poeta que depois de crescido mama na teta de poeta é um pateta - e são os frutos das árvores uma gratidão à terra que as raízes violam? - poeta que é poeta não tem pai, mãe nem papas na língua quando muito, um terapeuta.

o vício

O vício não guarda o carro na garagem, não dobra as roupas no armário. O vício não dar as mãos, não caminha no parque, nao leva o cachorro pra passear. , oh, vi com esses olhos que gostaria que não fossem meus, olhos que eu queria mesmo que a terra os tivesse comido como o vício come mais que a terra come os olhos. oh como vi um tio acendendo um cigarro no outro como se tivesse medo do escuro ou como se tivesse entrado num ad infinitum de si mesmo num desespero de incendiário o vício quer as mãos, os lábios, o corpo, a alma o vício quer o vício não chuta a bola para o gol, não guarda os sapatos juntinhos sob a cama. O vício não cede o banco aos mais velhos, não marca a página antes de fechar o livro, não pensa no futuro. oh, senti com esses sentidos que eu gostaria que não fossem meus, sentidos que eu queria mesmo que o vento os tivesse levado como o vício leva mais do que eu os posso levar. ô como senti um amigo apagando a vida como se apaga um fósforo como se tives...

a sombra do meu chapéu

gosto de São Paulo tenho mesmo por ela uma obsessão oswaldiana, andradina não sou paulistano ganhei São Paulo no cansaço vivo aqui há 30 anos mais... não tenho investimentos na Faria Limer mas tenho o corpo enterrado no Paissandu Já comi no Arno, no Fasano, no Ça Vá mas ainda prefiro o pf do boteco que frequento há séculos ser imenso é quando pouco preenche tudo feito um homem dormindo feliz sob a sombra do seu chapéu com um palito estropiado prestes a cair dos lábios

são paulo

são paulo era terra da garoa agora chove que nem menino chorão chove como nunca chorou é difícil dizer que é a pauliceia desvairada de mário nem os condenados, de oswald enfraqueceu com o coração de Oswald morreu de infarto, aos 51 anos, com o poeta da lopes chaves são paulo que não quer mais escrever versos em rimas de garoa na métrica malemolente da faixa de pedestres santo paulo agora só pensa em empreendedorismo e chuvas e chuvas

lâminas afiadas

houve um tempo - louco – que ela e uma música me golpeavam sem dó - deus, que lâminas aquelas – eu era ainda alguém que entrara na vida - esta que nunca nos permite um ensaio – como um coadjuvante sem roteiro ela, hoje nem tanto são as intermitências do coração as ondas do tempo que vão se espaçando e nos largando à margem de nós mesmos sobre a música, devo ainda me manter em alerta feito um sushiman atento à faca afiada

restos da tarde

restos da tarde sobre a velha cristaleira da minha mãe louças feito as mulheres gordotas de Botero me contemplam do outro lado do vidro como se de outro tempo os ponteiros arrastando as horas num desânimo de funcionário de aviso prévio as casas em seus fastios os homens sob os segredos dos seus chapéus tudo tão aqui e tão distante feito a lua daqueles restos de tardes entre os meus dedos franzinos

Fujo

de versos engraçadinhos bonitos na foto                                  fujo de versos simpáticos trinta e dois dentes                                  fujo de versos etílicos em guardanapos                                  fujo de versos eruditos cheios de pó                                  fujo de versos copiados sem nenhuma voz ...

As últimas palavras

Há todo um movimento antes da chuva. É como se ela, antes de enviar a sua falange mortal, mandasse alguns guerreiros para reconhecimento da área. Podemos ver isso nas palmeiras em movimentos de adolescentes nos bailes, nos cartazes das quitandas feito as dançarinas de cancan. Então, um sopro traiçoeiro vem e trepida a janela como se quisesse despertá-la do sono de alumínio e vidro. Há também um cheiro difícil de definir. Talvez esteja apenas em mim. Não é como o cheiro de goiaba do qual tanto falava Gabo. Este estava em tudo, nele, em toda a Colômbia, pode-se dizer. E não é também como o cheiro da dama da noite. Este eu conheço bem. Tem o cheiro da voz da minha vó, pois quando ela resolvia contar histórias havia sempre esse cheiro forte. E sei lá por que, sempre que me vejo em meio a tudo isso: chuva e lembranças, é como se o tempo se deslocasse, assim como os palcos improvisados, com rodinhas, nos programas de auditórios nos quais, três ou quatro homens, curvados como se para um outro...

Como comecei a ler

À época, quando eu ainda andava de calções curtos e toscos feitos pela minha mãe, o grande leitor lá em casa era o meu irmão mais velho. Eu só fui ler, tempos depois, por influência dele. Daí a importância dos mediadores de leitura à nossa volta, na nossa família, seja o pai, a mãe, as irmãs, os irmãos, amigos, namoradas, enfim. Depois de um tempo, eu estava lendo muito. O que me caía às mãos, como se costuma dizer por aí. Já na adolescência, Schopenhauer me ensinou que, na verdade, não devemos ler muito – e o que seria isso? ele pergunta -, mas sim, ler com qualidade. São coisas muito diferentes. Com J. Adler Mortimer aprendi que um livro muito bom (coisa rara) deve ser lido, no mínimo, três vezes: a primeira para aprender, a segunda para compreender e a última para solidificar tudo e, se necessário, até refutar o autor. Foi Antoine Albalat que me ensinou que uma leitura sem notas, fichamentos, apontamentos, é o mesmo que não ter lido nada. Muito tempo já se passou. Meu irmão cumpriu...

Mais uma baixa no front

A tarde não é a mesma, claro, porque cada tarde é uma tarde, mas, de alguma forma é a mesma porque traz as mesmas cores, assim, como uma nova bandeira de uma determinada nação é a mesma e é outra. Digo que o que pode ser diferente é o peso, pois, ele, um amigo, sim, um amigo, alguém que preenche uma história como os pontinhos de ligar e que forma imagens. Alguém com quem compartilhamos algumas canções, confidências, viagens e desesperos, partiu. Uso esse verbo "partiu" porque acredito que saimos dessa para uma melhor, quer dizer, diferente. E quando alguém se vai como um sol que não pousa, como uma lua que não é nova. E tudo isso acontece como um pacote que cai, uma sombra sobre o dia, um calendário vencido no meio do peito, uma aula de violão suspensa, uma conversa interrompida, um chope intocado sobre a mesa. A tarde não é a mesma, claro, porque cada dor é uma dor, mas de alguma forma é a mesma porque traz as mesmas agonias, assim, como o choro é outro mas as lágrimas são...

Revistas, faxinas e mistérios

Coleciono algumas revistas. Tenho várias Superinteressantes e ainda as minhas sofridas Seleções do Reader's Digest que comecei a juntá-las quando ainda era um rapazinho. Elas já sobreviveram a três divórcios e sei lá a quantas mudanças. E penso que ainda aguentam muito mais. Gosto de ter essas revistas comigo, mas o que gosto mesmo é de dar uma olhada nelas, vez ou outra, quando decido fazer uma faxina geral nas minhas coisas num lento e prazeroso "isso-fica-aquilo-sai". Quando pego uma dessas revistas, o universo em sua expansão misteriosa e cada vez mais veloz pode seguir sem mim. Como se eu tivesse achado estela , o outro pedaço maior e perdido da pedra de Roseta, sento-me e vou folheando a revista numa placidez de padre bem alimentado: no espírito e na carne. Me perdi num artigo sobre a origem do aplauso: o ato de bater constantemente a palma de uma mão na outra como forma de demonstrar – entre muitas outras coisas - a nossa satisfação com algo que nos é apresentado. ...