Um dia, assustei-me comigo mesmo. Antes disso eu só dormia enfronhado em minha mãe e coçando o meu nariz até adormecer. Isso todas as noites a ponto de arrebentá-lo de vez. Como são estranhos alguns requisitos de Morfeu, não? O fato é que na infância não nos damos conta dos espelhos. Sabemos deles, do nosso reflexo neles, mas até aí o que poderíamos fazer com isso? Nessa fase, há sempre coisas mais interessantes do que os espelhos, nossos reflexos neles. As crianças os desdenham por simples ausência de motivos, os idosos, por tê-los em demasia. Sim, assustei-me comigo mesmo. Foi quando tive de entrar no quarto da minha mãe para pegar algo que agora não me lembro. Os dias, feito serpentes em seus movimentos ligeiros e inaudíveis, iam longe. Eu sentia algo diferente em meu corpo, mas eu não sabia lidar com isso, ou talvez, não quisesse mesmo pensar sobre. Era algo como uma trama silenciosa. Eu sentia. Também percebia que a cama da minha mãe já não me parecia tão grande. E eu até podi...
Blog do escritor brasileiro Reynaldo Bessa