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Entre mim e ele

Olho-me no espelho e vejo o meu pai. Sinto que ele me olha e me vê Quem é ele e quem sou eu? Não sei Digo-lhe bom dia e sei que ele me dá bom dia Quem disse primeiro? Não sei Eu morro nele e ele nasce em mim Somos este ser que renasce entre nós dois, no espelho

Minha paixão pela Língua Portuguesa

Vários fatores contribuíram para minha paixão pela Língua Portuguesa. Mas posso me lembrar bem de um deles. Era eu - ainda com oito, nove anos - que escrevia as cartas do meu pai. Ele, num tom sisudo, ditava-as para mim. Eu tinha uma letra linda – adorava fazer exercícios de caligrafia - desenhava e gostava de ler. Nessa época, eu carregava sobre as costas o peso bigórnico da promessa. “Ele é inteligente, escreve bonito, desenha e gosta de ler. Vai sim, nos proteger das grandes tempestades vindouras”. Meu pai dizia.      Então, quando ele precisava escrever uma carta, logo me chamava, apontava uma cadeira e me entregava lápis e papel. Vamos lá. Ao senhor fulano de tal...e ia. Eu ouvia atento e, orgulhoso, imprimia tudo com atenção e esmero. Meu pai rodava pela sala, a cabeça metida em palavras engessadas endereçadas aos seus patrões engessados. E eu mandava ver...Por meio desta, venho solicitar...e ele ia. Num dado momento, ele disse uma palavra que eu não fazia a menor i...

Estrelas não pagam as contas

Eu viajava com o meu pai. Gostava do cheiro do ônibus. Da sua luz acendendo a noite. Acordando as cidades sonolentas. Era como se fugíssemos de nós mesmos. O mundo todo lá dentro reduzido a duas poltronas e um corredor. Podíamos dar conta. Não podíamos nos perder ali dentro. Quando o ônibus parava, descíamos como estrangeiros. A noite amassada assim como as nossas roupas. Os ponteiros do velho relógio arrastando-se para dar conta das horas e o cheiro de pão e carne moída como a promessa de um anjo. Um vira-lata cruza as nossas pernas. Um homem boceja, uma criança dorme, um carro buzina. Gosto dessa sensação de nunca chegar. Meu pai rabiscando contas e eu contando estrelas. Estrelas não pagam as contas, por isso meu pai rabisca. Andrômeda feito a digital de uma criança. Um sopro na película escura e melosa do céu de sempre. O cheiro da poltrona, o ronco das pessoas, o ronronar da madrugada, o som da paz temporária. O ônibus indo e as paisagens passando feito páginas de um livro ao vento...

Esta morte

Esta sensação de morte em vida você só há alguns passos e tão intangível feito o brilho de uma estrela morta o espaço vazio, o silêncio a casa escancarada de tudonada, tudonada, tudonada os ouvidos cansados e as bocas mudas os lírios pisoteados pelas ásperas patas do tempo - animal irascível - poderia gritar poderia esbofetear o rosto delicado com os dedos dedicados da minha covardia, mas não se vence o vazio com o ímpeto das nossas impossibilidades. só o monge escuta na cela escura o tempo se engole em seco e sozinho Posso mentir posso, posso o que quiser, mas apenas serei eu sendo nadatudo, nadatudo, nadatudo o pior desse vazio, desse vácuo, dessa morte é que não podemos velar o corpo, enterrá-lo, pisoteá-lo com os pés frenéticos da nossa falsa alegria.

O essencial

Quero a paz dos saveiros A dança lânguida e muda das árvores O vento de boas notícias Quero a calmaria das águas profundas O sol num ninho de cores O passo manso dos idosos Quero o meu primeiro riso A paciência dos móveis (os antigos) Um dia para pensar o nada Quero a determinação dos obeliscos A leveza das folhas O toque dos teus dedos ainda Quero largar-me na grama e sujar o terno bem cortado nu, sem pudor, correr na chuva Ouvir o resmungo de rimas de minha vó Quero, quero, quero esta tarde numa moldura Este dia num calendário antigo Este momento feito um anel apertado na carne Quero que você me deixe, (apesar de já ter-se ido há tanto tempo) que você volte para você que eu volte para mim e me perca novamente Quero esse nadica de tudo Aquilo que não faz falta ao mundo (e a ninguém) Que me preenche Quero reler Jubiabá sob a velha mangueira - longe, o rumor do futuro - Quero, quero, quero Navegar na superfície de mim e deixar que tudo mais afunde sob o peso das inutilidades.

Outrossim

Vários fatores contribuíram para minha paixão pela Língua Portuguesa. Mas posso me lembrar bem de um deles. Era eu - ainda com oito, nove anos - que escrevia as cartas do meu pai. Ele, num tom sisudo, ditava-as para mim. Eu tinha uma letra linda – adorava fazer exercícios de caligrafia - desenhava e gostava de ler. Nessa época, eu carregava sobre as costas o peso bigórnico da promessa. “Ele é inteligente, escreve bonito, desenha e gosta de ler. Vai sim, nos proteger das grandes tempestades vindouras”. Meu pai dizia. Então, quando ele precisava escrever uma carta, logo me chamava, apontava uma cadeira e me entregava lápis e papel. Vamos lá. Ao senhor fulano de tal...e ia. Eu ouvia atento e, orgulhoso, imprimia tudo com atenção e esmero. Meu pai rodava pela sala, a cabeça metida em palavras engessadas endereçadas aos seus patrões engessados. E eu mandava ver...Por meio desta, venho solicitar...e ele ia. Num dado momento, ele disse uma palavra que eu não a entendi de forma alguma. Então p...

Quando componho - reynaldo bessa (letra)

Quando componho Não tem pra ninguém Não há como definir Quando, enfim, o samba vem É um negócio medonho É um vai e vem Não, não posso mentir Não tem pra ninguém Quando componho Não vem que não tem Não há como não rir Quando, enfim, o choro vem É uma coisa comigo Vai do insano ao zen Não, não posso mentir Não tem pra ninguém Posso estar fraco, doente, ferrado, e até meio bêbado, zanzando que nem Zebedeu mas se componho meu bem estou no apogeu. Podem me chamar De saudosista, malandro, retrô, demodê Digam o escarcéu Mas se componho Meu bem Sou mais do que eu.  

Vazio - Poema-letra (reynaldo bessa)

Vou nas águas desse rio Ora riso, ora pranto Vou no compasso do teu canto Ora graça, ora espanto Vou nas águas desse rio Sou Orfeu em desvario sou Dante alucinado Vou nas garras desse estio Sou Romeu num fino fio sou Dirceu dilacerado Vou nas malhas desse rio Ora silêncio, ora grito Vou no enlaço do teu rito Ora manso, ora aflito Vou nas malhas desse rio Sou Abelardo em rodopio sou Odisseu sem direção Vou nas garras desse estio Sou Otelo em desafio sou Riobaldo sem sertão.

Arremedo

preciso de ár vores aves arvoredos de arremessar pedras arre medos preciso de bar cos mares maremotos de arrebatar mantras arte fatos preciso de ti tânica save-me de mim esmo

Desintegração

gosto do teu cosmos convul so dessa nossa colisão de galáxias dos teus olhos buscando o centro que não há gosto das tuas coxas armadas ilhas desse enroscar assassino e man so. caos e ord em subserviência e domínio enlaço-me - movediço - em n Oz teus cabelos sobre os len Sóis língua lambendo a tua Via-Láctea - sede, fome - gosto desse som que vem de dentro de vo Ser - oração blasfêmica - do teu ímpeto em heca tombe do teu corpo-império ruindo-rindo dos teus membros entregando-se feito rio espreguiçando-se no leito então, os risos, os risos os olhos, os olhos, no quarto sem v...

Um amigo de verdade

Borges dizia que o amor exige presença, a amizade não. Sei o que o autor argentino quis dizer. Sei que se trata de algo muito mais além das minhas chorumelas aqui, porém, com todo respeito a esse escritor - que muito admiro - penso que, na amizade, a presença é necessária sim, pelo menos, nos momentos cruciais. Foi o que aprendi a duras penas. Digo isso porque lembrei-me agora de um grande amigo. Eu havia me separado. Meu peito era um velho, vazio e bolorento salão escuro onde eu me escondia de mim mesmo. A solidão, naquele momento, era como hera crescendo em meu desespero. O Empanadas, na Vila Madalena sempre festiva, para mim, naqueles tempos, não passava de um túmulo. Esse meu amigo, com seus dois ouvidos sempre generosos ouvia-me como um bom padre ouve um condenado prestes a entrar no corredor da morte. E não é esse sentimento turvo, profundo, doído, e tão sozinho, bem no meio do peito, um corredor da morte? Bom, era assim que eu me sentia. Sabemos que ninguém morre de amor. A maio...

O bar

O bar é uma confraria. Não há nenhum santo, mas nenhum demônio também não há. Os pecados, se existem, dissolvem-se em doses contínuas como se hóstias postas sobre a língua dos desenganados. No bar, estamos sós e acompanhados. Se você chora, chora sozinho, mas não bebe sozinho. Sempre aparece uma dose como o dedo de um anjo caído indicando um caminho provável. Ele não te acompanhará - não terá essa coragem - , mas assobiará de longe quando você titubear. No bar, se você cai, cai sozinho, mas aparecerá inúmeras mãos shivânicas para levantá-lo com olhos camaradas - eles já caíram inúmeras vezes - sofredores. O bar é o altar da solidão compartilhada e intocada. A companhia que não acompanha. Mas há o abraço que abraça. Mesmo que seja por uma noite. Dividir uma dose é como compartilhar toda uma vida. O bar quando baixa as portas é como se vedasse o sentido do mundo. Nos sentimos órfãos de nós mesmos. Deixar um bar é mais difícil que deixar o país homérico da infância. Banquete pantagruélico...

Realidade

a palavra silhueta dentro da noite o rastejar em procissão hastear a bandeira esfarrapada a negação do limite, do fim as paisagens em suas velocidades íntimas a perplexidade a palavração monólogo desesperado o eco na caverna de nós calma, iguaria rara o colo como um país distante os braços do sonho impossível o aconchego de casas vazias vida, que acorde mais plangente quantos já não se foram os livros na estante feito homens num precipício após o flash, nada de novo apenas mais um numa foto sob os ditames do tempo-pó mundo subjetivo a perplexidade a palavração um nome soando da janela invisível o que seria a realidade? talvez, seja apenas esta consulta em minhas mãos marcada para o dia seguinte.

A volta

trago ainda o som do portão o olhar da chegada, da volta o prato frio no forno como um carinho adormecido o gosto de pão e farfalhar de folhas medo e vislumbre sob a garrafa do café a mesa em falso como o futuro trago ainda o ruído dos roncos na casa a trégua dos dias, da luta o canto mudo no coração feito uma reza num envelope o gosto de pão e latido de cães sono e vigília num guardanapo amassado o passado numa sirene dentro da noite

Pós, pois

Pós-moderno homem caquético Num terno Armani Um aposto Entre duas guerras E antes-Dante Joyce, Chaucer, Fante Um agosto Que já foi julho depois setembro Um além-cá Nassar, Barreto, Alencar Pós-tudo Filho do moderno Pai do pós-pois Herança desnaturada E legítima Uma desvairice A queda-nunca de Alice Alicerce e cobertura Chaplin vendendo Natura Pôs- pós Pós-o que quiser Tear movido à energia eólica Mimeógrafo e parabólica Pirambu e Pirapora O grito antigo e mudo de minha vó - menino, vem jantar- Vindo de um cemitério High-tech

A máquina Singer e os dias

A máquina Singer O cheiro dos tecidos do óleo Os retalhos Os pés e as unhas de esmalte carcomido p e d a l a n d o a s h o r a s Meus olhos grandes dentro dos olhos enormes do mundo Minha boca aberta tentando palavras ainda não apreendidas Mãos incertas brincando com os carretéis vazios A vida emaranhando-se nas linhas Vida azul, vermelha, amarela, amarela, vida-pálida A mulher curvada sobre a máquina feito um santo em oração A agulha subindo e descendo Tecendo destinos nossos Tão velha quanto o Velho Testamento havia ali, naquela boca aberta, de perplexidade asmática, a angústia de cerzir todas aquelas incertezas d e s c o s tura da s

Peito de pombo

Sou de outro tempo. O que fazer? As coisas eram assim. Nos reuníamos na calçada e contávamos quase tudo. Se eu dissesse algo, alguém poderia não curtir e resolveríamos ali mesmo. Eu não era amigo do Caetano no insta. Nãaaoo. Isso era impossível, inconcebível. Ele era um deus e deuses não comem paçoquinhas. Ora, Caetano era a outra fronteira, era a redescoberta da América. O que quero dizer é que tudo era tão distante e era bom imaginar ir até lá. Eu não mostrava as minhas espinhas. Isso era uma coisa que eu resolvia comigo, com o espelho, e com o escuro. Ter ego era uma coisa feia. Ser vaidoso não cabia muito. Podíamos ser, mas sob os lençóis cheirosos da mamãe. Bom, tudo é tão que não consigo ser pouco. Quero ser muito, mas não sou muito. Sou aquilo que me cabe, aquilo que me preenche, aquilo que faz o que eu sou. Nem um pouco além do risco que me desenha. Como é bom ser o que somos. Mas hoje, onde estou? Onde estou? É tanto eu que acho que sou ninguém. Um ninguém de peito de pombo qu...

Estrelas

Caxambu, Cruzília Lambari, Aiuruoca Baependi As conheci primeiramente pela voz Como uma geografia sonora Ela com sua boca grande lábios muito vermelhos falava dessas cidades como se, por aí, Deus tivesse iniciado o mundo - e por que não? – De uma delas, ainda ouço o som das charretes o borbulhar incansável das águas O longe verde O grande tambor A solidão dos que dormem cedo De outra, o sussurro do vento nas árvores Asas de um inseto gigantesco O frio de mármore A grande ladeira A solidão dos que morrem cedo Outra ainda Um tipo de ruína nobre Um projeto de cidade para um rei que nunca veio Em todas elas - como um cordão que une as contas - uma imensa mesa de madeira maciça rodeada de viúvas de gargalhadas tristes e desdentadas - as mulheres nunca morrem – o cheiro de café perfumando o tédio da tarde lenta com o Cristo sofrendo na parede O velho hotel desbotando a onipotência feito um homem pobre usando o tern...

Oh, domingos

          Oh, domingos tão azuis e cheios de gente. Gente minha. Meu pai provava uma cachaça e logo fechava os olhos para não enxergar o tamanho do seu prazer, que era imenso. Meu irmão tinha passado em primeiro lugar na faculdade, e naqueles domingos isso era como ir à lua. Minha mãe com o pano de prato no ombro, e sempre que algum de nós dizia algo mais picante, ela rindo, tacava ele em nós nos enchendo de cheiro de alho e amor. Na vitrola, tocava Um Novo Tempo, do Ivan Lins, e isso nos dava uma vontade danada de pular nesse tempo. Ir embora dançando e cantando. Ah, domingos , pássaros coloridos que vinham comer na nossa mão feito os vira-latas. Minha irmã nos mostrava a única nota azul no boletim, escondendo, com o dedão, todas as notas vermelhas, dizendo: tão vendo? tão vendo? E o vizinho gritando do portão, José , deu galo na cabeça, vim trazer o dinheiro. E meu pai dizendo, "entre, entre, tome uma e deixe o dinheiro. Vai ser para a festa de quinze...

As fogueiras

De onde vem o cheiro dessas fogueiras tão antigas? fenda no tempo que o tempo não colou Estou aqui – e o que seria isso/isto? – Longe, muito longe quase além de mim mesmo e esse cheiro a me levar pela mão. A idade é um colar de contas. Quebrado, despenca Volta para o lugar de onde nunca deveria ter saído. Rugas desvanecem lago acalmando suas águas E o cansaço some como a noite afugentada pelo carro de Apolo Desnudo-me do que me tornei - não há medo, nem vergonha - Aspiro esse cheiro bom que vem das ruas onde morei Ouço o crepitar da madeira, vejo as fagulhas - insetos de fogo - riscando a noite louca São as fogueiras Defronte a minha velha casa de guerra, demolida, assim como eu Esfrego as mãos Sinto mesmo o calor Dess...