Pular para o conteúdo principal

Postagens

Fumaça

Meu irmão costumava acender o cigarro e logo apagar o fósforo em abanos desesperados como se estivesse queimando a mão. Depois, apertava o cigarro entre os dedos como quem traga um dos segredos da vida. Então, deitava as costas no espaldar da cadeira de balanço como se ali fosse dormir o sono tão almejado Eu o olhava de longe, com tantas perguntas, com tantas perguntas Nunca as fiz Nunca as fiz Agora nem ele, nem a cadeira de balanço - nem eu - que se foram em uma das tantas mudanças E agora, o cigarro em meus lábios, entre os dedos também e ainda as perguntas as perguntas que nunca as fiz e por que fá-la-ias? ora, eram perguntas impossíveis e por isso eram também as respostas, no mínimo, impossíveis Nas ruas sem mais ninguém - até talvez sem a mim mesmo - quando toda ânsia cansa, quando toda busca cessa, quando o eterno passa vou até a varanda e acendo um cigarro e enquanto trago - trégua? - vem essa coisa, meio magma, meu estigma, meio nada essa coisa amorfa quase eu quase algo. essa...

Espera

em frente a este banco que tanto promete riquezas, te espero. não tenho nenhum dinheiro nenhuma promessa apenas espera. sob o neon do meu desespero te espero nenhum dinheiro, nenhuma promessa apenas espera.

Poderá

poderá ser numa manhã de domingo em que um velho triste, de pijama, caminha para a padaria poderá ser na tarde quente de folhas secas quem sabe numa noite de bares lotados em que as pessoas brindam um recomeço ou na madrugada silenciosa poderá ser no meio de um livro, preparando o café tomando algum remédio poderá, poderá Quem sabe no dia seguinte em meio ao caos do trânsito, após atravessar uma rua ou esperando o sinal verde de um deus, nos passos incertos de mais um dia poderá, poderá ah quanto poder carregamos nos bolsos furados poderá ser num novo amor, amor que amamos eternamente o eterno que é chuva e logo sol e nada mudará nada serei apenas uma peça fora do tabuleiro a vida que é esse jogo que termina - com vitórias ou derrotas - mas sem nós. carta fora do baralho querendo mudar o jogo perdido

Inferno e Paraíso

Quando a tristeza é maior que nós, quando se apossa de nós como um rei cruel refestelando-se no trono, quando ri do nosso andar vacilante. dos nossos resmungos no meio da noite Quando a tristeza voa sobre nós feito um agouro quando mostra seus nós e anéis em mãos delicadas quando desdenha do nosso corpo alquebrado dos nossos lamentos ao nascer do dia Quando a tristeza rasteja sob nós feito um verme quando esconde suas facas e martelos sob o terno bem cortado então sentimos a vida. Quando a alegria é maior que nós quando se apossa de nós como uma rainha bondosa assumindo o seu trono como uma bênção Quando exulta com nosso andar firme com os nossos solilóquios felizes no meio da noite Quando a alegria voa sobre nós feito um pássaro dourado quando mostra suas verdades e veredas em mãos calejadas Quando exorta o nosso corpo firme os nossos desejos ao nascer do dia Quando a alegria nos ergue feito um deus quando nos mostra suas asas e luzes nas costas delineadas Então sentimos a vida.

Ouro de papel

Quando ando pelas ruas, entro em alguns lugares, não resisto a me agachar ou a esticar o braço para pegar uma carteira de cigarro vazia e jogada ali, numa calçada, deixada em cima de um balcão, largada num banco de ônibus ou de uma praça. Gosto do formato, do brilho. Aprecio o papel prateado, ah, o dourado. Encanto-me com o barulhinho que faz. Bem provável que mesmo que eu estivesse com o joelho dolorido, ainda arriscaria um malabarismo tosco para apanhar a carteira ali, sozinha, vazia e dando saltinhos pela força do vento do clima genioso de sampa. Mas essa reverência bisonha não é de hoje. Preciso voltar alguns bons anos – quantos? Não importa - para tentar explicar esse fascínio por essas coisinhas vazias brilhando ao sol. Bom, pra começar, cada uma delas tinha um valor. Enquanto mais raras, mais valiosas. As carteiras dos cigarros Clássico, Hollywood, Continental, e outras desse mesmo tipo não valiam muito. Eram troco. Mas um Hilton, um Minister, um Carlton a coisa mudava de fi...

Mas que destino?

Peguei um táxi de um motorista que já não aguentava mais esse tipo de trabalho. Estava na tampa. Bom, e eu estava atrasadíssimo. E quando estou atrasado fico nervoso. Quer dizer, gosto de chegar aos meus compromissos muito tempo antes. Mas eu estava mesmo irritado. E a vida é uma constante lição. O taxista podia ouvir os meus lamentos e reclamações no banco de trás. E ele conhece muito bem o trânsito de uma sexta-feira em sampa. Ele mantinha os ouvidos em mim e os olhos no congestionamento que se formava. Ora, ele era o capitão Ahab do seu táxi. Então, não me aguentou - poxa, ele tinha uns 78 anos - e me entregou a outro taxista. Mas este, Deus, não ouvia. Precisei falar o endereço umas três vezes. Quanto mais eu falava, mais ele aproximava o rosto grande dele na direção do meu. Se eu tivesse repetido o endereço pela quarta vez, ele teria beijado a minha boca. Bom, o meu taxista anterior - acho - entendeu o que acontecia e me pediu para entrar novamente no táxi dele. Viu que ali a coi...

As estrelas têm ouvidos

Quando eu tinha 5 anos, meu irmão mais velho me disse que a Terra é redonda. Sim, estávamos em cima de uma bola, e o que era ainda mais assustador, rodando no espaço imenso numa velocidade tremendamente superior a velocidade de uma bala. Não só fiquei apavorado com a ideia de escorregar – por isso, firmei mais os meus pés – como também adquiri uma doentia expectativa de que algum objeto, a qualquer hora, pudesse me esmagar. Mas ele me tranquilizou. Disse-me que isso não era de hoje. Já era assim, há muito tempo, e pelo menos ninguém ainda havia sido esmagado e muito menos havia escorregado do planeta. Então, eu o questionei se já que era uma bola, redondinha, se eu a cavasse com minha tampa de alumínio da lata de leite Ninho, eu a deformaria. Acho que não falei assim, pois com 5 anos, com certeza eu não sabia o que significava “deformaria”, mas penso que me fiz compreender, pois ele, numa gargalhada, disse-me que não, não aconteceria nada além de eu me cansar e sujar os pés e as mãos. ...

Provável início

Nunca vou me esquecer daquele dia. Estava muito quente. Eu acabara de chegar em casa, e ainda esbaforido, desesperado, procurava uma cerveja na geladeira. Aquela que é ainda mais gostosa não apenas por estar muito gelada, mas por ser a última. Quando abri e dei o único gole, o telefone tocou. Era a minha irmã:” mano, já ficou sabendo?

Entre mim e ele

Olho-me no espelho e vejo o meu pai. Sinto que ele me olha e me vê Quem é ele e quem sou eu? Não sei Digo-lhe bom dia e sei que ele me dá bom dia Quem disse primeiro? Não sei Eu morro nele e ele nasce em mim Somos este ser que renasce entre nós dois, no espelho

Minha paixão pela Língua Portuguesa

Vários fatores contribuíram para minha paixão pela Língua Portuguesa. Mas posso me lembrar bem de um deles. Era eu - ainda com oito, nove anos - que escrevia as cartas do meu pai. Ele, num tom sisudo, ditava-as para mim. Eu tinha uma letra linda – adorava fazer exercícios de caligrafia - desenhava e gostava de ler. Nessa época, eu carregava sobre as costas o peso bigórnico da promessa. “Ele é inteligente, escreve bonito, desenha e gosta de ler. Vai sim, nos proteger das grandes tempestades vindouras”. Meu pai dizia.      Então, quando ele precisava escrever uma carta, logo me chamava, apontava uma cadeira e me entregava lápis e papel. Vamos lá. Ao senhor fulano de tal...e ia. Eu ouvia atento e, orgulhoso, imprimia tudo com atenção e esmero. Meu pai rodava pela sala, a cabeça metida em palavras engessadas endereçadas aos seus patrões engessados. E eu mandava ver...Por meio desta, venho solicitar...e ele ia. Num dado momento, ele disse uma palavra que eu não fazia a menor i...

Estrelas não pagam as contas

Eu viajava com o meu pai. Gostava do cheiro do ônibus. Da sua luz acendendo a noite. Acordando as cidades sonolentas. Era como se fugíssemos de nós mesmos. O mundo todo lá dentro reduzido a duas poltronas e um corredor. Podíamos dar conta. Não podíamos nos perder ali dentro. Quando o ônibus parava, descíamos como estrangeiros. A noite amassada assim como as nossas roupas. Os ponteiros do velho relógio arrastando-se para dar conta das horas e o cheiro de pão e carne moída como a promessa de um anjo. Um vira-lata cruza as nossas pernas. Um homem boceja, uma criança dorme, um carro buzina. Gosto dessa sensação de nunca chegar. Meu pai rabiscando contas e eu contando estrelas. Estrelas não pagam as contas, por isso meu pai rabisca. Andrômeda feito a digital de uma criança. Um sopro na película escura e melosa do céu de sempre. O cheiro da poltrona, o ronco das pessoas, o ronronar da madrugada, o som da paz temporária. O ônibus indo e as paisagens passando feito páginas de um livro ao vento...

Esta morte

Esta sensação de morte em vida você só há alguns passos e tão intangível feito o brilho de uma estrela morta o espaço vazio, o silêncio a casa escancarada de tudonada, tudonada, tudonada os ouvidos cansados e as bocas mudas os lírios pisoteados pelas ásperas patas do tempo - animal irascível - poderia gritar poderia esbofetear o rosto delicado com os dedos dedicados da minha covardia, mas não se vence o vazio com o ímpeto das nossas impossibilidades. só o monge escuta na cela escura o tempo se engole em seco e sozinho Posso mentir posso, posso o que quiser, mas apenas serei eu sendo nadatudo, nadatudo, nadatudo o pior desse vazio, desse vácuo, dessa morte é que não podemos velar o corpo, enterrá-lo, pisoteá-lo com os pés frenéticos da nossa falsa alegria.

O essencial

Quero a paz dos saveiros A dança lânguida e muda das árvores O vento de boas notícias Quero a calmaria das águas profundas O sol num ninho de cores O passo manso dos idosos Quero o meu primeiro riso A paciência dos móveis (os antigos) Um dia para pensar o nada Quero a determinação dos obeliscos A leveza das folhas O toque dos teus dedos ainda Quero largar-me na grama e sujar o terno bem cortado nu, sem pudor, correr na chuva Ouvir o resmungo de rimas de minha vó Quero, quero, quero esta tarde numa moldura Este dia num calendário antigo Este momento feito um anel apertado na carne Quero que você me deixe, (apesar de já ter-se ido há tanto tempo) que você volte para você que eu volte para mim e me perca novamente Quero esse nadica de tudo Aquilo que não faz falta ao mundo (e a ninguém) Que me preenche Quero reler Jubiabá sob a velha mangueira - longe, o rumor do futuro - Quero, quero, quero Navegar na superfície de mim e deixar que tudo mais afunde sob o peso das inutilidades.

Outrossim

Vários fatores contribuíram para minha paixão pela Língua Portuguesa. Mas posso me lembrar bem de um deles. Era eu - ainda com oito, nove anos - que escrevia as cartas do meu pai. Ele, num tom sisudo, ditava-as para mim. Eu tinha uma letra linda – adorava fazer exercícios de caligrafia - desenhava e gostava de ler. Nessa época, eu carregava sobre as costas o peso bigórnico da promessa. “Ele é inteligente, escreve bonito, desenha e gosta de ler. Vai sim, nos proteger das grandes tempestades vindouras”. Meu pai dizia. Então, quando ele precisava escrever uma carta, logo me chamava, apontava uma cadeira e me entregava lápis e papel. Vamos lá. Ao senhor fulano de tal...e ia. Eu ouvia atento e, orgulhoso, imprimia tudo com atenção e esmero. Meu pai rodava pela sala, a cabeça metida em palavras engessadas endereçadas aos seus patrões engessados. E eu mandava ver...Por meio desta, venho solicitar...e ele ia. Num dado momento, ele disse uma palavra que eu não a entendi de forma alguma. Então p...

Quando componho - reynaldo bessa (letra)

Quando componho Não tem pra ninguém Não há como definir Quando, enfim, o samba vem É um negócio medonho É um vai e vem Não, não posso mentir Não tem pra ninguém Quando componho Não vem que não tem Não há como não rir Quando, enfim, o choro vem É uma coisa comigo Vai do insano ao zen Não, não posso mentir Não tem pra ninguém Posso estar fraco, doente, ferrado, e até meio bêbado, zanzando que nem Zebedeu mas se componho meu bem estou no apogeu. Podem me chamar De saudosista, malandro, retrô, demodê Digam o escarcéu Mas se componho Meu bem Sou mais do que eu.  

Vazio - Poema-letra (reynaldo bessa)

Vou nas águas desse rio Ora riso, ora pranto Vou no compasso do teu canto Ora graça, ora espanto Vou nas águas desse rio Sou Orfeu em desvario sou Dante alucinado Vou nas garras desse estio Sou Romeu num fino fio sou Dirceu dilacerado Vou nas malhas desse rio Ora silêncio, ora grito Vou no enlaço do teu rito Ora manso, ora aflito Vou nas malhas desse rio Sou Abelardo em rodopio sou Odisseu sem direção Vou nas garras desse estio Sou Otelo em desafio sou Riobaldo sem sertão.

Arremedo

preciso de ár vores aves arvoredos de arremessar pedras arre medos preciso de bar cos mares maremotos de arrebatar mantras arte fatos preciso de ti tânica save-me de mim esmo

Desintegração

gosto do teu cosmos convul so dessa nossa colisão de galáxias dos teus olhos buscando o centro que não há gosto das tuas coxas armadas ilhas desse enroscar assassino e man so. caos e ord em subserviência e domínio enlaço-me - movediço - em n Oz teus cabelos sobre os len Sóis língua lambendo a tua Via-Láctea - sede, fome - gosto desse som que vem de dentro de vo Ser - oração blasfêmica - do teu ímpeto em heca tombe do teu corpo-império ruindo-rindo dos teus membros entregando-se feito rio espreguiçando-se no leito então, os risos, os risos os olhos, os olhos, no quarto sem v...

Um amigo de verdade

Borges dizia que o amor exige presença, a amizade não. Sei o que o autor argentino quis dizer. Sei que se trata de algo muito mais além das minhas chorumelas aqui, porém, com todo respeito a esse escritor - que muito admiro - penso que, na amizade, a presença é necessária sim, pelo menos, nos momentos cruciais. Foi o que aprendi a duras penas. Digo isso porque lembrei-me agora de um grande amigo. Eu havia me separado. Meu peito era um velho, vazio e bolorento salão escuro onde eu me escondia de mim mesmo. A solidão, naquele momento, era como hera crescendo em meu desespero. O Empanadas, na Vila Madalena sempre festiva, para mim, naqueles tempos, não passava de um túmulo. Esse meu amigo, com seus dois ouvidos sempre generosos ouvia-me como um bom padre ouve um condenado prestes a entrar no corredor da morte. E não é esse sentimento turvo, profundo, doído, e tão sozinho, bem no meio do peito, um corredor da morte? Bom, era assim que eu me sentia. Sabemos que ninguém morre de amor. A maio...

O bar

O bar é uma confraria. Não há nenhum santo, mas nenhum demônio também não há. Os pecados, se existem, dissolvem-se em doses contínuas como se hóstias postas sobre a língua dos desenganados. No bar, estamos sós e acompanhados. Se você chora, chora sozinho, mas não bebe sozinho. Sempre aparece uma dose como o dedo de um anjo caído indicando um caminho provável. Ele não te acompanhará - não terá essa coragem - , mas assobiará de longe quando você titubear. No bar, se você cai, cai sozinho, mas aparecerá inúmeras mãos shivânicas para levantá-lo com olhos camaradas - eles já caíram inúmeras vezes - sofredores. O bar é o altar da solidão compartilhada e intocada. A companhia que não acompanha. Mas há o abraço que abraça. Mesmo que seja por uma noite. Dividir uma dose é como compartilhar toda uma vida. O bar quando baixa as portas é como se vedasse o sentido do mundo. Nos sentimos órfãos de nós mesmos. Deixar um bar é mais difícil que deixar o país homérico da infância. Banquete pantagruélico...

Realidade

a palavra silhueta dentro da noite o rastejar em procissão hastear a bandeira esfarrapada a negação do limite, do fim as paisagens em suas velocidades íntimas a perplexidade a palavração monólogo desesperado o eco na caverna de nós calma, iguaria rara o colo como um país distante os braços do sonho impossível o aconchego de casas vazias vida, que acorde mais plangente quantos já não se foram os livros na estante feito homens num precipício após o flash, nada de novo apenas mais um numa foto sob os ditames do tempo-pó mundo subjetivo a perplexidade a palavração um nome soando da janela invisível o que seria a realidade? talvez, seja apenas esta consulta em minhas mãos marcada para o dia seguinte.