Pular para o conteúdo principal

Postagens

Sou Rei

Quando, num dia de chuva, saboreio um pão francês quentinho transbordando manteiga aviação, acompanhado de uma média bem quente, sou rei. Sinto o meu trono como a medida exata da minha existência. Não brigo com o tempo - nem percebo que ele existe - nem relevo as diatribes do indiferente síndico do prédio. O não em forma de porta na cara que ela me deu ontem dorme no fundo do meu ser como um bebê alimentado. O pão estala nos dentes, a manteiga escorrega para a língua, o café com leite entra na festa e então, me ajeito em meu trono. Deixo logo de ser ateu, até tento lembrar-me de alguns trechos de um padre-nosso bolorento. Esse momento merece algo assim, uma oração, mesmo que em fragmentos, pois sei que o que importa é o coração estar inteiro. Meu cardiologista, no meu último exame, disse que o meu está inteiraço. Foi o que ele disse. E é preciso mesmo levar em conta uma rara boa notícia vinda de um médico. Fecho os olhos. Ah! o paladar é o sentido da vida. Sinto a minha túnica ...

Vestido Azul

chega sempre em seu belo vestido azul senta-se como se ali fosse morar deixa que lhe beije os pés, as mãos, às vezes, os joelhos, nunca as coxas além disso, impensável alguns tentaram - deuses admiram os ousados, mas não os toleram por muito tempo – mas sucumbiram diante daquele sorriso indefectível é filha de um deus tem nome de homem, mas é mulher seduz, mas não cede às vezes, com ar de menina travessa pisa na cabeça do vassalo que ainda lhe lambe os pés soa o relógio preciso e algoz aquele que só damos conta quando vibra o toque derradeiro então, ela, a entidade etérea levanta-se como quem goza e deixa-nos em agonia numa cama qualquer.

Água-Vida

Como leitor voraz, por muito tempo, resisti à Clarice. Sei lá por quê, apenas resisti. Talvez porque falassem muito dela. Todas as mulheres pareciam ser Clarice. E algumas eram, não a Lispector, mas Clarice. Muitos leitores proferiam frases que não eram da autora. Não que eu a lesse, já disse, não a lia, mas via, em outros livros, teóricos negando a origem das máximas. E outra, sem saber se eram ou não de Clarice, eu não gostava das frases.      Clarice disse uma vez, quando lhe emprestaram As Reinações de Narizinho - um livro que idolatrava - que ela procurou imaginar, vez em quando, que não o tinha à sua cabeceira, só para ter de novo e de novo a prazerosa certeza de que o tinha, sim, bem ali. Então penso que eu resistia a ela para ter a certeza de que estava ali, bem na minha frente, desafiando-me sempre e sempre.      Clarice me pegou por um dos seus contos: "Os desastres de Sofia" - autobiográfico - . Um conto perfeito. O li de uma assentada e logo em ...

da janela

assim como um dia, Clarice voltou à terra onde criou-se, e por algumas horas, da janela do velho hotel, contemplou a pequena pletzele, eu também, em outra terra, da janela de outro hotel contemplei a pracinha, os pequenos jardins, os taxistas sorrindo com mais malícia do que dentes flertando com as empregadas domésticas, vi a malemolência da tarde sentada num banco feito uma mulher obesa assim como Clarice, por um bom tempo - sabe-se lá quanto - debruçada na janela olhou a menininha eu também olhei o menininho olhei e olhei ele corria ali olhei tanto, tanto, acho, que meus sapatos cresceram, que minhas roupas afrouxaram, que meus membros afinaram foi quando senti vontade de puxar carrinhos, de soltar pipas. e de também chorar choro silencioso e sozinho, sem lágrimas, seco feito o solo da terra que nos acolheu

Como se dos teus pés nascessem rios

banhando-se ali tão longe, tão perto no corpo água escondendo-se encantada delineando palacetes delicados, sedentos famintos banhando-se ali ali tão perto, tão longe no corpo água movendo-se santificada - ou seria bestificada? - escorrendo ligeira pelo piso como se dos teus pés nascessem rios o nosso sol no nosso zênite avalanche da vertigem o momento meus olhos em mim, em você - onde mais? - o ranger das cordas do meu feroz alaúde eis, então, os cantos loucos dos galos de Ática e depois, minhas mãos trêmulas, úmidas perplexas como se cúmplices de um crime

Mesmo assim, era bom.

Depois do jantar, íamos para a calçada falar sobre o novo disco do Ednardo, do Belchior, do Caetano. Esperávamos semanas por uma carta. - algumas nunca chegaram - Conhecíamos os nomes de todos na rua Até onde podíamos, escondíamos as nossas mazelas Sozinhos, sob os cobertores, chorávamos os amores impossíveis Na adolescência, comprávamos revistas duvidosas, e com mãos trêmulas, de culpas e desejos, rasgávamos o plástico e então, elas apareciam numa nudez escondida. Mexíamos as páginas no afã de vê-las ainda mais. Falávamos com elas, doía a solidão de papel. Os pais tão novos, tão vivos nos prometendo aquilo que nunca cumpririam. Menino, vem jantar! Era minha mãe cheirando a alho e óleo. Meu pai cheirando a trim minha irmã chorando com as pontas dos lápis que sempre quebravam Dorothy Lamour na radiolinha vermelha A casa velha cansada de nós Eu gostava das goteiras. Ora, podia, da minha cama, ver a lua vazando por elas feito o olho gordo das promessas sem futuro. Eu não acreditava. Prefe...

Amanhã passa

Com o tempo, o que marcam os relógios senão o intervalo - cada vez mais curto - entre o nosso nascimento e a nossa finitude? Os girassóis já se dobram pela ausência definitiva do sol Ah, se todo o ódio do mundo coubesse na mão fechada de um bebê e todo o amor do mundo entrasse nas pessoas, assim feito a chuva pelas goteiras das casas da minha infância Ah, se pudéssemos saltar os dias ruins nos calendários, assim como uma criança salta amarelinha. Sei que morrer faz parte da vida Sei que é apenas mais uma cláusula na página oposta desse contrato que traz a nossa assinatura muito antes de nascermos Mas não tenho medo dela - e ter medo muda alguma coisa? - Por que sobrecarregar nossos últimos marinheiros com os navios já encalhados? Devemos mesmo é embarcar naqueles que estão prestes a partir E que sua bujarrona infle-se de anseios Mas uma hora, é certo, a vida, esta longa estrada, precisa terminar porque não há pés suficientes para tamanha caminhada nem mãos para tantas orações, nem olh...

Fumaça

Meu irmão costumava acender o cigarro e logo apagar o fósforo em abanos desesperados como se estivesse queimando a mão. Depois, apertava o cigarro entre os dedos como quem traga um dos segredos da vida. Então, deitava as costas no espaldar da cadeira de balanço como se ali fosse dormir o sono tão almejado Eu o olhava de longe, com tantas perguntas, com tantas perguntas Nunca as fiz Nunca as fiz Agora nem ele, nem a cadeira de balanço - nem eu - que se foram em uma das tantas mudanças E agora, o cigarro em meus lábios, entre os dedos também e ainda as perguntas as perguntas que nunca as fiz e por que fá-la-ias? ora, eram perguntas impossíveis e por isso eram também as respostas, no mínimo, impossíveis Nas ruas sem mais ninguém - até talvez sem a mim mesmo - quando toda ânsia cansa, quando toda busca cessa, quando o eterno passa vou até a varanda e acendo um cigarro e enquanto trago - trégua? - vem essa coisa, meio magma, meu estigma, meio nada essa coisa amorfa quase eu quase algo. essa...

Espera

em frente a este banco que tanto promete riquezas, te espero. não tenho nenhum dinheiro nenhuma promessa apenas espera. sob o neon do meu desespero te espero nenhum dinheiro, nenhuma promessa apenas espera.

Poderá

poderá ser numa manhã de domingo em que um velho triste, de pijama, caminha para a padaria poderá ser na tarde quente de folhas secas quem sabe numa noite de bares lotados em que as pessoas brindam um recomeço ou na madrugada silenciosa poderá ser no meio de um livro, preparando o café tomando algum remédio poderá, poderá Quem sabe no dia seguinte em meio ao caos do trânsito, após atravessar uma rua ou esperando o sinal verde de um deus, nos passos incertos de mais um dia poderá, poderá ah quanto poder carregamos nos bolsos furados poderá ser num novo amor, amor que amamos eternamente o eterno que é chuva e logo sol e nada mudará nada serei apenas uma peça fora do tabuleiro a vida que é esse jogo que termina - com vitórias ou derrotas - mas sem nós. carta fora do baralho querendo mudar o jogo perdido

Inferno e Paraíso

Quando a tristeza é maior que nós, quando se apossa de nós como um rei cruel refestelando-se no trono, quando ri do nosso andar vacilante. dos nossos resmungos no meio da noite Quando a tristeza voa sobre nós feito um agouro quando mostra seus nós e anéis em mãos delicadas quando desdenha do nosso corpo alquebrado dos nossos lamentos ao nascer do dia Quando a tristeza rasteja sob nós feito um verme quando esconde suas facas e martelos sob o terno bem cortado então sentimos a vida. Quando a alegria é maior que nós quando se apossa de nós como uma rainha bondosa assumindo o seu trono como uma bênção Quando exulta com nosso andar firme com os nossos solilóquios felizes no meio da noite Quando a alegria voa sobre nós feito um pássaro dourado quando mostra suas verdades e veredas em mãos calejadas Quando exorta o nosso corpo firme os nossos desejos ao nascer do dia Quando a alegria nos ergue feito um deus quando nos mostra suas asas e luzes nas costas delineadas Então sentimos a vida.

Ouro de papel

Quando ando pelas ruas, entro em alguns lugares, não resisto a me agachar ou a esticar o braço para pegar uma carteira de cigarro vazia e jogada ali, numa calçada, deixada em cima de um balcão, largada num banco de ônibus ou de uma praça. Gosto do formato, do brilho. Aprecio o papel prateado, ah, o dourado. Encanto-me com o barulhinho que faz. Bem provável que mesmo que eu estivesse com o joelho dolorido, ainda arriscaria um malabarismo tosco para apanhar a carteira ali, sozinha, vazia e dando saltinhos pela força do vento do clima genioso de sampa. Mas essa reverência bisonha não é de hoje. Preciso voltar alguns bons anos – quantos? Não importa - para tentar explicar esse fascínio por essas coisinhas vazias brilhando ao sol. Bom, pra começar, cada uma delas tinha um valor. Enquanto mais raras, mais valiosas. As carteiras dos cigarros Clássico, Hollywood, Continental, e outras desse mesmo tipo não valiam muito. Eram troco. Mas um Hilton, um Minister, um Carlton a coisa mudava de fi...

Mas que destino?

Peguei um táxi de um motorista que já não aguentava mais esse tipo de trabalho. Estava na tampa. Bom, e eu estava atrasadíssimo. E quando estou atrasado fico nervoso. Quer dizer, gosto de chegar aos meus compromissos muito tempo antes. Mas eu estava mesmo irritado. E a vida é uma constante lição. O taxista podia ouvir os meus lamentos e reclamações no banco de trás. E ele conhece muito bem o trânsito de uma sexta-feira em sampa. Ele mantinha os ouvidos em mim e os olhos no congestionamento que se formava. Ora, ele era o capitão Ahab do seu táxi. Então, não me aguentou - poxa, ele tinha uns 78 anos - e me entregou a outro taxista. Mas este, Deus, não ouvia. Precisei falar o endereço umas três vezes. Quanto mais eu falava, mais ele aproximava o rosto grande dele na direção do meu. Se eu tivesse repetido o endereço pela quarta vez, ele teria beijado a minha boca. Bom, o meu taxista anterior - acho - entendeu o que acontecia e me pediu para entrar novamente no táxi dele. Viu que ali a coi...

As estrelas têm ouvidos

Quando eu tinha 5 anos, meu irmão mais velho me disse que a Terra é redonda. Sim, estávamos em cima de uma bola, e o que era ainda mais assustador, rodando no espaço imenso numa velocidade tremendamente superior a velocidade de uma bala. Não só fiquei apavorado com a ideia de escorregar – por isso, firmei mais os meus pés – como também adquiri uma doentia expectativa de que algum objeto, a qualquer hora, pudesse me esmagar. Mas ele me tranquilizou. Disse-me que isso não era de hoje. Já era assim, há muito tempo, e pelo menos ninguém ainda havia sido esmagado e muito menos havia escorregado do planeta. Então, eu o questionei se já que era uma bola, redondinha, se eu a cavasse com minha tampa de alumínio da lata de leite Ninho, eu a deformaria. Acho que não falei assim, pois com 5 anos, com certeza eu não sabia o que significava “deformaria”, mas penso que me fiz compreender, pois ele, numa gargalhada, disse-me que não, não aconteceria nada além de eu me cansar e sujar os pés e as mãos. ...

Provável início

Nunca vou me esquecer daquele dia. Estava muito quente. Eu acabara de chegar em casa, e ainda esbaforido, desesperado, procurava uma cerveja na geladeira. Aquela que é ainda mais gostosa não apenas por estar muito gelada, mas por ser a última. Quando abri e dei o único gole, o telefone tocou. Era a minha irmã:” mano, já ficou sabendo?

Entre mim e ele

Olho-me no espelho e vejo o meu pai. Sinto que ele me olha e me vê Quem é ele e quem sou eu? Não sei Digo-lhe bom dia e sei que ele me dá bom dia Quem disse primeiro? Não sei Eu morro nele e ele nasce em mim Somos este ser que renasce entre nós dois, no espelho

Minha paixão pela Língua Portuguesa

Vários fatores contribuíram para minha paixão pela Língua Portuguesa. Mas posso me lembrar bem de um deles. Era eu - ainda com oito, nove anos - que escrevia as cartas do meu pai. Ele, num tom sisudo, ditava-as para mim. Eu tinha uma letra linda – adorava fazer exercícios de caligrafia - desenhava e gostava de ler. Nessa época, eu carregava sobre as costas o peso bigórnico da promessa. “Ele é inteligente, escreve bonito, desenha e gosta de ler. Vai sim, nos proteger das grandes tempestades vindouras”. Meu pai dizia.      Então, quando ele precisava escrever uma carta, logo me chamava, apontava uma cadeira e me entregava lápis e papel. Vamos lá. Ao senhor fulano de tal...e ia. Eu ouvia atento e, orgulhoso, imprimia tudo com atenção e esmero. Meu pai rodava pela sala, a cabeça metida em palavras engessadas endereçadas aos seus patrões engessados. E eu mandava ver...Por meio desta, venho solicitar...e ele ia. Num dado momento, ele disse uma palavra que eu não fazia a menor i...

Estrelas não pagam as contas

Eu viajava com o meu pai. Gostava do cheiro do ônibus. Da sua luz acendendo a noite. Acordando as cidades sonolentas. Era como se fugíssemos de nós mesmos. O mundo todo lá dentro reduzido a duas poltronas e um corredor. Podíamos dar conta. Não podíamos nos perder ali dentro. Quando o ônibus parava, descíamos como estrangeiros. A noite amassada assim como as nossas roupas. Os ponteiros do velho relógio arrastando-se para dar conta das horas e o cheiro de pão e carne moída como a promessa de um anjo. Um vira-lata cruza as nossas pernas. Um homem boceja, uma criança dorme, um carro buzina. Gosto dessa sensação de nunca chegar. Meu pai rabiscando contas e eu contando estrelas. Estrelas não pagam as contas, por isso meu pai rabisca. Andrômeda feito a digital de uma criança. Um sopro na película escura e melosa do céu de sempre. O cheiro da poltrona, o ronco das pessoas, o ronronar da madrugada, o som da paz temporária. O ônibus indo e as paisagens passando feito páginas de um livro ao vento...

Esta morte

Esta sensação de morte em vida você só há alguns passos e tão intangível feito o brilho de uma estrela morta o espaço vazio, o silêncio a casa escancarada de tudonada, tudonada, tudonada os ouvidos cansados e as bocas mudas os lírios pisoteados pelas ásperas patas do tempo - animal irascível - poderia gritar poderia esbofetear o rosto delicado com os dedos dedicados da minha covardia, mas não se vence o vazio com o ímpeto das nossas impossibilidades. só o monge escuta na cela escura o tempo se engole em seco e sozinho Posso mentir posso, posso o que quiser, mas apenas serei eu sendo nadatudo, nadatudo, nadatudo o pior desse vazio, desse vácuo, dessa morte é que não podemos velar o corpo, enterrá-lo, pisoteá-lo com os pés frenéticos da nossa falsa alegria.