Quando, num dia de chuva, saboreio um pão francês quentinho transbordando manteiga aviação, acompanhado de uma média bem quente, sou rei. Sinto o meu trono como a medida exata da minha existência. Não brigo com o tempo - nem percebo que ele existe - nem relevo as diatribes do indiferente síndico do prédio. O não em forma de porta na cara que ela me deu ontem dorme no fundo do meu ser como um bebê alimentado. O pão estala nos dentes, a manteiga escorrega para a língua, o café com leite entra na festa e então, me ajeito em meu trono. Deixo logo de ser ateu, até tento lembrar-me de alguns trechos de um padre-nosso bolorento. Esse momento merece algo assim, uma oração, mesmo que em fragmentos, pois sei que o que importa é o coração estar inteiro. Meu cardiologista, no meu último exame, disse que o meu está inteiraço. Foi o que ele disse. E é preciso mesmo levar em conta uma rara boa notícia vinda de um médico. Fecho os olhos. Ah! o paladar é o sentido da vida. Sinto a minha túnica ...
Blog do escritor brasileiro Reynaldo Bessa