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Casa velha

Casa velha De entrar meninos [e de sair] Pequenos, irrequietos, chorões Meninos de tias, irmãs, comadres [de sei lá quem] Meninos e meninas Casa velha de histórias Tantas, Mais que da matriarca velha de fala mansa sonolenta no rilhar da cadeira inquieta Balançando-se no precipício do tempo Histórias e histórias Casa velha dos rumores das folhas das damas da noite excitadas de odor do morcego velho entrando pontualmente [no piscar do amanhecer] e esbaforido, para seu costumeiro sono de bunda-cabeça vinha como se fugisse da cruz fugia era mesmo da luz velha casa de frinchas e goteiras por onde minha alma passava apertada para tocar a lua, as estrelas, os planetas... quando a noite não cabia em mim a maioria delas cabia direitinho dobradinhas em meu coração-envelope mas ...

Saudades de mim

Um poeta disse uma vez: “quando eu morrer sentirei saudade de mim”. Entendo, mas sinto essa saudade em vida. Quando se tem vinte anos o mundo é sempre possível. Ouvir, às alturas, os discos do Bob Dylan num domingo de sol. Fumar um cigarro na varanda, numa noite de frio, enquanto sente no rosto, o calor dos lábios dela. E sorrir, sorrir porque o mundo é possível. Encantar-se com os cantos dos pássaros, com a chuva nos cabelos. Às vezes penso mesmo em mim. Não é um pensamento egoísta, não, - sei das urgências do mundo - é uma necessidade de mim mesmo. De dizer aquilo que nunca me disse. Claro que não gostaria de voltar aos vinte anos. E para quê? Seria como morar definitivamente num país do qual gosto muito. Não, nesse país quero ir de vez em quando, assim, quando tenho saudade de mim. O que sinto? Não sei exatamente, comovo-me, fico triste, mas às vezes vem algo além de qualquer descrição. É como um abraço comigo, talvez uma dança definitiva. Faz tempo que não sinto o mundo possível. Q...

O médico, o hospital, essas coisas

Pode observar, numa recepção de hospital, posto de saúde não há Homem-Aranha, Batman, nem Homem de ferro. Pode olhar para a direita, para a esquerda, para onde quiser. Não há mesmo Aquaman, Hulk, muito menos, super-homem. O que vejo são pessoas de olhar desesperado. Algo como um bicho envolto num saco de veludo debatendo-se numa ira silenciosa. Todos eles ali, em seus movimentos contidos e suas sacolas de mazelas a tiracolo. Todos eles e suas taquicardias, bradicardias, noites mal dormidas, aflições, incertezas e sei lá mais. E todos com medo. Muito medo. Mas medo de que exatamente? De serem privados da vida em vida. Do estar e não estar no mundo. O medo dos movimentos lentos e sádicos do médico ao burilar um envelope grande e branco. Não há homem forte em momentos assim, já disse. Ali está Batman, veja, na cadeira, diante do médico. Não traz mais a força nos punhos, por isso não há mais as famosas onomatopeias: tuim, poin, toc, trunc, pah, nada disso. Ele está curvado, mira o chão, en...

Mudo

Nós dissertamos sobre os assuntos, mas é o tempo que nos dá o cardápio. Quando era pequeno dormia no mesmo quarto do meu irmão mais velho. E sobre o que falávamos? Sobre gaiolas, passarinhos, planetas, jogadores prediletos. Então, viajei. Fiquei um tempo fora, como uma roupa lavada que é posta para secar. E quando voltei, não sabia mais falar de gaiolas, passarinhos... enfim, essas coisas. Falei de um vazio no peito, um peso na alma, as diatribes do amor. Confiava no meu irmão porque saber é também dizer que não sabe. E quando o assunto pesava, ele simplesmente dizia que não sabia. “O que é o amor? olha, sobre isso eu não sei dizer muita coisa". Quando fazia isso era como se me respondesse tintim por tintim tudo sobre o que eu havia mencionado. Então, ele olhava para as paredes do quarto como se procurasse uma saída. Depois de um tempo, quero dizer, alguns anos, ficamos mudos, longe um do outro. Então, voltamos a nos falar. O tempo com sua gravata borboleta, seu passo elegante e b...

Um ato de vontade

Escrever é um ato de vontade. Não uma vontade como tomar um sorvete, ir ao cinema, andar de bicicleta. O sorvete podemos tomar depois, podemos declinar, podemos até nunca o tomar. O cinema podemos ir outro dia, ou mesmo deixar pra lá. Andar de bicicleta...bom, a mesma coisa. Mas escrever é uma vontade que não podemos adiar. Desistir dela, ainda pior. Tente. É um impulso incômodo. Puxa pelo teu braço, sussurra no teu ouvido, às vezes até grita. Vou me deitar. Tudo está resolvido: conferi o gás, fechei as portas, dei uma última olhada pela janela para contemplar a rua vazia. Já com a cabeça no travesseiro sem mais o dedo em riste das obrigações – mais ou menos – com os olhos feito pássaros buscando ninhos, de repente, um estalo, um insight, sim, esse olhar de fora para dentro, esse objeto reencontrado, essa epifania interna. Sim, uma ideia que vai inchando na cabeça feito uma massa de pão no forno, E queima. Viro-me para o lado como quem espanta fantasmas, como quem, de forma física, que...

Em noites assim

Vez em quando, no meio da noite, acordo com saudade de mãe. É uma falta impossível que se eu juntasse todos os dicionários do mundo ainda não conseguiria defini-la. Em noites assim, vou até a cozinha e procuro por mim mesmo feito um homem buscando algo num saco vazio. As coisas estão ali, mas não estão. Tento. Depois, paro como se a vida também tivesse parado. – E não parou? –. Essa saudade não é de todo ruim. É saudade, apenas isso. Abraça e abandona, chama e renega. Nunca sei se estou chorando ou sorrindo. Sinto-me feito esses vira-latas sem casa e sem afeto, que enquanto caminham olham para o chão num gesto de obediência doída, num tipo de desistência do amor. E há outro amor além do amor de mãe? Há tantas definições no mundo, não? mas, na maioria das vezes, me soam como esses garfinhos de aniversário que se quebram logo que tentamos cortar um pedaço do bolo em nossas mãos incertas. Definições demais como a inutilidade das coisas demais. Por um momento penso ter ouvido um frufru de...

A bolsa ou a senhorinha

Um dia, eu estava saindo do supermercado quando uma senhorinha, banho tomado, toda arrumadinha, cheirando a alfazema me abordou e me perguntou se eu tinha visto uma bolsa assim, assim. Era dela. Tinha esquecido perto daquela coluna ali. Foi o que disse. Olhei na direção para onde ela apontava, mas não vi coluna alguma. Ali, notei apenas pessoas em suas pressas e anseios de sempre. Disse-lhe que lamentava, mas não tinha visto a bolsa dela não. Que perguntasse ali, ao gerente, quem sabe ele guardou, né? Após isso, fui em minha pressa. Fui pensando que logo eu, né? que olho as horas e não as vejo, que olho os carros e só os percebo quando buzinam em mim, olho as pessoas e mesmo assim, esbarro nelas. Vivo com a cabeça no mundo da lua, ou com os olhos dentro de um livro. Eu que esqueço contas a pagar, a consulta do médico e até o meu aniversário. Como eu iria, então, notar uma bolsa por ali? A senhorinha foi-se e os dias passaram porque é isso que os dias fazem, passam e passam. E aí, eu es...

Baú

Oh, amigo sou um baú de tantas coisas. Dentro dele há tantas ruas hoje sem nomes, amigos que já se foram. Há canções que cantei e que ainda não esqueci porque estão em mim no sangue que me circula. Há, sob o terno bem cortado do homem triste que agora sou, as roupas da minha filha quando desafiava a gravidade. Há os calções curtos feitos pela minha mãe num domingo chuvoso. Há as conversas de botecos, os sonhos em retalhos. Sou este baú, velho e novo, amigo, que vez ou outra, aparece no meio da sala como o único móvel da casa. Ah, há meus discos velhos, aqueles que mexem comigo com os cutucos afiados dos pega-varetas do passado. Amigo, sou isso, essa vontade de voltar guiado pelos mapas extraviados, vontade de voltar com vontade contracorrente, com meu nado de lagoa rasa e perdigotos, sou esta constante piracema. Sou este ser de cheiro de terra e capim de tarde de pai e pão que não chega nunca, nunca, sou mãe que espera e espera e espera, sou filhomãe Tanta coisa nesse baú, tanta. Estou...

A estrela cadente

Logo que cheguei a São Paulo, morei em pensão. Em tese, era triste, mas eu gostava. Tenho, naturalmente, esse espírito de dançar no inferno quando os capetas já estão levantando as cadeiras e lavando o chão. Danço. Meu quarto não era dos melhores, mas não era dos piores. Lá para os fundos outro mundo acontecia sem a camada de cima saber de muita coisa. Alguma, sim. Nos finais de semana só ficava a padaria até umas dez da noite. E eu ainda sem direção ficava ali em impressões jovens e etílicas. Achava que ia engolir o mundo. Achava que era justo um mundo bom aceitar um homem bom. Não foi assim que me foi ensinado? Não, não foi, mas relutamos em aceitar a verdade. Voltava da padaria com hálito de pizza com bastante ketchup e algumas cervejas. Na sacola ainda algumas. Ficava na janela olhando o vai e vem dos carros. Gostava disso. É como um soldado na trincheira antes da matança. Dá pra fumar alguns cigarros, pensar na família que vai envelhecer sem você e olhar a foto da namorada distan...

Minhas férias

Algumas lembranças são muito sem noção, sem educação. Lembrei-me agora que, na escola, em alguns anos, a professora pedia pra gente escrever uma redação com o tema “minhas férias”. Logo de cara fiquei de castigo, pois não entreguei o texto. Também levei um zero. Numa mescla de inquietação e curiosidade ficava me virando na cadeira, ora para um lado, ora para o outro, para frente, para trás. Tudo isso para ouvir os textos dos colegas. Uns falavam das manhãs na fazenda, dos finais de tarde. Dissertavam sobre o gosto do leite puro, do cuscuz fresquinho feito pelas mãos carinhosas de uma vó de fala doce. Ah, os ninhos de passarinhos, os banhos de rio. Eufóricos, remexendo-se nas cadeiras, falavam que bom mesmo era cavalgar o Corisco, o Raio & Trovão, o Cometa, o Estrela Cadente, o Maremoto, o Turbilhão, o Napoleão. Estes eram os cavalos que todos eles, nas férias, montavam até dizer chega. Eu ia pra casa pensando nessas coisas, nessas férias de felicidade. Até trotava na rua e fazia ba...

A bengala

Quando era adolescente, queria ficar logo velho para usar uma bengala. Eu achava bonito. Simples assim. Tudo isso começou quando um senhor se mudou para a minha rua. Vez em quando, geralmente no final da tarde, ele saía em seus passeios metódicos e perfumados. Caminhava em passos comedidos, lentos, pesados. Não tinha nada a ver com algum problema físico, a idade, não. Me parecia mais como se - agora na velhice – procurasse manter uma elegância que conquistara desde a sua juventude. Talvez achasse a pressa deselegante. Tinha os cabelos – branquíssimos – sempre sagradamente penteados. Usava uma roupa muito boa, porém, fora de moda, como um rei que ainda não soubesse que o seu reinado ficara, há muito, lá atrás – lembro-me de enormes botões dourados, abotoados até o pescoço – Estava sempre muito perfumado. E um detalhe importante, lógico, usava uma bengala. Eu não conseguia tirar os olhos das suas mãos delicadas, das unhas bem cuidadas, do grande e sisudo anel que trazia no dedo mindinho....

Meu sonho era namorar uma normalista

Meu sonho era namorar uma normalista. Isso já tem um tempo. Gostava daqueles uniformes despojados, do andar, do jeito que elas levavam os livros presos ao peito. Quando a sineta tocava feito uma lâmina rasgando as horas, e elas saíam em suas gargalhadas e perdigotos juvenis, eu - já um menino triste - até podia acreditar que o mundo era possível. Vinham, todas elas, para a rua feito um vulcão em erupção, um incêndio na floresta, uma avalanche, e eu - coitado - logo me eriçava na janela em meus anseios de pássaro ainda sem penas. Quando se iam de vez, a tarde voltava ao começo do mundo. Tudo dormia. Meu corpo era apenas um corpo. Nada além disso. Sonhos, mesmo que antigos, resistem em resmungos de bengalas. Sim, ainda sonho namorar uma normalista. Ainda refletem em meus cabelos grisalhos aqueles sorrisos de saia pregueada e olhar azul marinho. Aquele olhar cravado na gente, sem nenhum medo do futuro. Meu sonho não é aleatório. As normalistas sobreviveram à lei 9394/96 e há mais de quare...

Mãe

Mãe, sonhei contigo entre mim e a senhora - oh, quanto tempo não sentia a leveza desta palavra sobre/sob a minha língua: se-nho-ra – havia uma película que deve ser de onde tu me observas assim como fazias quando eu estava no berço e queria teus braços - mãe, quero teus braços hoje – Não era neles que eu me despojava dos meus medos e adormecia em meio ao teu cheiro? Cheiro que só mãe tem. Este amor santo tanto transbordando pelas chagas

ama e amar e amar

Se o fim é inevitável por que amar tanto? Perdoem-me repetir e repetir João Silvério Trevisan. Sim, é que andei lendo-o muito por esses tempos e tudo que ele escreveu parece meu. Não uma coisa minha como um objeto, entende? É mais como um reflexo no espelho. Sei lá. E a pergunta fica que fica. E fura, e fere. Sim, são tantos amores, dores, noites de dúvidas, dádivas e dívidas. Quando sofria por algum amor, costumava dizer; ora, não vale a pena. Logo não estarei mais aqui para lembrar dessa dor. E esta dor logo não terá o meu corpo para erguer o seu monólito. Mas amava e amava, assim como as flores que nascem para os dentes de um lânguido burrinho na modorra da tarde. Amava e amava feito o palhaço despejado que ri e ri. Como pugilistas trocando socos por um troféu barato. Ah, aquela música, aquele cheiro, aquele trevo dentro de um livro de tradução duvidosa, mas que mesmo assim me fez chorar e chorar. Ah, aquele bilhete, aquela carta, um cartão com uma bela letra que já não sei mais a q...

Confesso que tento, pai

Os ponteiros se repetem sobre as horas e você se lembra que tem um compromisso, que precisa tomar um remédio, ou encontrar alguém. Podemos deixar pra lá, declinar, deitar a cabeça no braço macio do sofá e esperar que as horas passem, quer dizer, que os ponteiros passem, porque as horas não saem mesmo do lugar. Enfim, podemos burlar as horas, mas não podemos nos safar das datas no calendário. Tudo já está tão longe, não? a ferida nem incomoda mais, é o que parece. Até esqueço que está ali. Então chega. Estamos presos nesses 365 dias que vão e vêm. Tudo se repetindo como um filme que começa, acaba, recomeça, acaba.... e quando determinada data chega, chega tanta coisa. Então, vem você, Pai. E esta palavra é uma mescla de salgado e doce, é, às vezes, lisa, noutras áspera feito a língua de um gato faminto. Mas eu precisaria de muitas páginas para falar sobre isso. Tentei traduzir em poesia tudo aquilo que não me cabia, que me arranhava, que me insultava, que me cuspia na cara. Quanto beijo...

Não era pra ser uma crônica

Terminei os trabalhos aqui em Itapetininga e agora estou no Butiquim. Estou tomando uma RT166: uma cerveja artesanal da cidade. Estou comendo o bolinho de frango que é o carro-chefe daqui. Uma delícia. Estou lendo as crônicas do Ferreira Gullar, que adoro. Bom, isso daria uma crônica, mas estou com preguiça. Gosto de sair de sampa e me tornar invisível. Fico num canto, sozinho com as coisas que amo. É um sozinho acompanhado. Um estar só ao meu lado. Um falar comigo mesmo e me ouvir e me responder. Um apertar a mão de mim e perguntar como você-eu-estou-está? Gosto desse abandonar-me e estar junto de mim. É quando sou o meu melhor amigo. É quando o grande sentido da vida é o sentido que você dá. É quando penso nos amigos. Aqueles que mesmo distantes estão tão próximos quanto esta cadeira aqui que toco e acaricio como se no rosto dos meus amigos que amo, e amo, e amo. Porque esse amor é esse olhar no espelho de mim mesmo. E é tão raro, tão caro, tão tao. Viver é agora. Intensamente, porqu...