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Ela

o corpo flutuando na ausência na melancolia da tarde a tarde não vivida passos leves, vozes abafadas como se com receio de despertá-la e ela ali sem ela feliz como nunca fora as mãos frias sobre o peito frio oco de vida e ainda na vida. e ela ali tão quieta como nunca fora os pés juntinhos, frios e ausentes de passos. - nunca mais? - as mãos frias sobre o peito frio como se em sua costumeira sesta

Tantas quedas

Duas pernas apenas e tantas quedas. Essa pode ser uma boa medida de uma vida, não? Pensei nessa frase, assim como alguém que percebe que precisa pagar uma conta. E sobre quedas, não me refiro àquelas que aconteceram porque minhas pernas não sabiam ainda lidar com a minha recente e desengonçada existência. Perninhas feito dois carregadores levando o mesmo objeto para lugares opostos. Refiro-me às quedas nas quais não são os ossos, as juntas, a pele, entre outras coisas que estão em jogo, mas sim, o coração. E por coração, não trato exatamente, das querelas do amor. E que graça teria o mundo se não fossem essas querelas? E não é o amor impossível aquele que realmente se realiza? E não foi Hemingway que disse uma vez que se numa história duas pessoas se amam as coisas não podem terminar bem? Bom, sobre isso estamos conversados, não? Sobre o coração falo da força, do valor que você coloca nas coisas. Explico: desde muito pequeno, quis ganhar um forte-apache, e isso nunca aconteceu. Até que...

poderes secretos

Sempre detestei tirar fotos para documentos. Até hoje gosto daquelas onde fui pego de surpresa. Mais ou menos como estar num mundo e olhando pra outro. O sorriso que só é doado quando não é pedido. O olhar que olha e que vê quando alguém não lhe pede que olhe e veja. Apenas é. Precisam ver o meu olhar enviesado para aquele não-eu na foto. Feio como nunca fui tanto, pelo simples fato de que não se faz um ser humano em apenas um clique, mesmo que seja só cabeça e ombros. A natureza não dá saltos, muito menos cliques, A coisa demora. Deus leva uma eternidade para tirar uma 3x4 nossa. No meu tempo – digo naqueles anos loucos e turvos quando tiramos fotos na mesma proporção que as espinham estouram na nossa cara imberbe – não podia sorrir na foto. Poder, podia. Sempre pôde. Era aquele fotógrafo emburrado que não gostava de sorrir. Vivia em seu cubículo de amargura cheirando a reveladores e fixadores químicos: uma coisa meio xixi no álcool. - não ria que estraga a foto. Documento é coisa sér...

Homens e tambores

Quando eu ainda falava o idioma das coisas inanimadas, as gotas prateadas da chuva eram como contas do colar rebentado do pescoço da noite e vez ou outra, o vento, mais asmático do que eu, arrastava parte dessas contas contra a minha janela que dava para a rua. a rua com ruídos, vozes e latidos sem donos. nisso eu me encolhia na minha cama - precisamos de outras coisas além das medidas exatas de uma boa cama? – e já quase no terreno do sonho, quando margens brancas de praias desertas e distantes engordavam as minhas pálpebras, eu sentia mãos cálidas esticando o meu lençol e em seguida um beijo gordo e mudo tocava a minha face quando eu já não mais sabia se era beijo ou ondas das praias desertas e distantes. ainda um arrastado de chinelos, batidos de panelas, estalos de ferrolhos depois, o silêncio então, o som dos tambores crescendo e crescendo e levando consigo a minha imaginação: de onde vem isso? quando descobri que o som dos tambores que vinha de longe eram apenas homens e tambores...

ainda espero o café

às vezes, entro na casa demolida dou boa tarde e minha voz me responde feito carta que volta por não encontrar o destinatário sento-me no sofá que já não há e que um dia minha mãe - com um sorriso tímido e orgulhoso - o viu chegar em casa numa tarde de vizinhos nas janelas [ainda espero o café] não há mais aquelas mãos firmes apertando o pano de coar o pó como quem doma o destino não há nem mais aquelas mãos enrugadas e frágeis já domadas pelo destino - e o que há? – sinto o cheiro do café que não virá deve ser de algum vizinho que não conheço - passageiros de outros tempos - olho pela janela e procuro a mangueira que subi e desci tantas vezes como quem vence na vida contemplo-a invisível de mangas em quedas invisíveis [ainda espero o café] até ouço o tilintar de xícaras há muito quebradas isso vem quando me encolho em mim como a buscar a medida exata de mim quando a cama se torna um país distante e eu busco o cobertor de pele e rugas de silêncios e afagos isso vem quando vem uma vont...

Apenas cansaço

meu pai não tinha biblioteca os livros, eu roubava do meu irmão mais velho ou quando gostava, não os devolvia à biblioteca a bibliotecária, em sua ira de nuvens, batia a porta na minha cara na minha família – até então - não tinha doutores só homens espertos aprendi, desde cedo, a língua dos estranhos as palavras dos solitários, das mães solteiras, abandonadas adormeci - por diversas vezes - nos seios volumosos e macios de um preta de voz de veludo. foi ela que me ensinou o sentido da palavra homem, não foram os dicionários, não, senhor os dicionários não possuem seios volumosos, macios e pretos escrevi, até fazer calos, com lápis de pontas carcomidas, sob a luz de lamparinas bruxuleando a casa toda bebi cerveja e cachaça das sobras dos copos dos homens tristes e saí cambaleando feito os homens tristes e sou hoje triste a minha maneira só minha por muito tempo, feito duas muletas, ca...

terra molhada

as Horas num arrastar-se de ferido a travessia impossível do dia a realidade - lâmina afiada feito os olhos tristes do meu pai - noite; sombra mefistofélica [na testa fria o invisível inimigo com martelo e cinzel a cavAr, a cavAr [sem descanso no meu peito de náusea mármore náusea nau sea afago de uma morta nos meus anseios [de cortinas sem vento encardido tempo o pianista esquálido numa fuga tosca luvas de veludo sobre as teclas do tédio - verde - uma sala grande que não me sabe seta para o nada logo a madrugada vai chegar com cheiro [de terra molhada morro, às vezes, nunca ressuscito.

poucos segundos

quando meu pai morreu foi tanto que nada senti mergulhei num branco alma suspensa pelo gancho da incredulidade busquei o choro como quem procura água num poço seco semeei as minhas sementes do não-sentir em solos ressequidos depois, tudo veio aos poucos, pílulas um troço que mói, rói, dói que logo preciso me encostar, segurar-me em algo sentar-me em algum lugar é nada que tudo sinto mergulho em mim alma apertada feito meia grossa que não entra no sapato não busco o choro vem por sua conta e risco e tudo vinga toda uma existência em poucos segundos quando resolvi mexer no baú de Nava, e que é nosso, entendi. Ele diz: "não sei se sofri na hora. Mas sei que venho sofrendo destas horas. A vida inteira".

quando - plano B

quando dou de rezar não dobro os joelhos nem fecho as mãos juntinhas como quem mata insetos se rezo, fico em pé porque todo o meu corpo é reza e ponho as mãos nos bolsos num burilar de contas invisíveis quando dou de rezar não me curvo nem preciso de silêncio como os leitores nas bibliotecas se rezo, permaneço ereto porque gosto do vento no meu rosto e apuro os ouvidos porque quero ouvir os gritos das crianças, dos homens e das mulheres em suas lutas quando dou de rezar não fecho os olhos nem sussurro palavras feito as vozes nos velórios se rezo, abro bem os olhos porque quero guardar o mundo que não me guarda e - bem alto - canto uma canção que minha mãe cantava enquanto estendia as roupas nos varais quando dou de rezar não olho para o céu nem peço nada feito os pedintes sob as marquises se rezo, não olho para o céu porque lá só o azul e aproveito para devolver a Deus o que Ele me deu

Autômatos

Gosto de no fim do dia ver as pessoas voltando do trabalho Há algo de ordem nesse desespero Há uma certa nobreza nesses rostos pálidos - atônitos - como também há força nesses corpos - autômatos - que já não sabem se estão voltando para casa É quase queda Sim É parte fim Mas nunca sem luta Nunca.

Meu quintal

no meu quintal há um rio i m e n s o suas águas são calmas e claras ouço os gritos dos meninos impetuosos em alegrias de descobertas de ser meninos banham-se no rio somem e logo aparecem feito peixes afoitos montanhas ao longe em suas inércias longevas são monges em meditações profundas em tudo paira a sabedoria secreta da existência sei disso - o silêncio me diz - mas não sei disso - o turbilhão das coisas me entorpece - vivo como peixe escapando e logo voltando ao anzol - armadilha constante - seria a existência - este ciclo divino e cruel - uma verdadeira armadilha? ouço o rio é um chiado de beleza i n t e n s a de chegadas e partidas de encontros e desencontros é como se eu tivesse ouvido esse som muito antes da minha existência e agora aqui estou e ouço minha voz no coro dos meninos que se banham Sou este coro sou eu e sou outro sou muitos é imenso o meu quintal é imenso o meu rio ...

e o que há de novo nisso, deus?

talvez eu nem chegue a me aposentar e este dinheiro que não vejo que não conto, fique para as velhas aves de rapina de sempre as aves e seus olhos imensos de medo e o que há de novo nisso, deus? não é assim desde a grande explosão? que seja! que seja! ora! o que quero mesmo é que minha mãe volte, mesmo depois de morta, e com seus pés cansados das estradas longas e invisíveis e com suas mãos de árvores estéreis encha de espanto essa rotina emperrada muito provavelmente, se tiver sorte, terei meu nome escrito numa pedra fria e cara. Meu nome completo, e com um I aos invés de um Y, escrito por um funcionário fracassado, de gravata torta, um homem entediado e com halitose. e o que há de novo nisso, deus? não é assim, mesmo depois das primeiras pegadas nas areias brancas, negras, e virgens do mundo? que seja! que seja! ora! o que me importa mesmo é que meu pai volte, mesmo depois de morto, e venha me pegar no banco da escola há muito demolida que me dê a mão calejada e de ...

O ano novo de novo

O cheiro de peru assado. A cozinha quente feito o inferno. Minha mãe com o penteado e as unhas feitos. As luzinhas no tedioso acender e apagar numa indecisão colorida. A velha árvore de natal sucumbindo sob o peso dos anos. Minha roupa nova apertada feito as minhas inseguranças. A etiqueta me inquietando feito o beijo da menina da esquina. A três em Um esperando a deixa. A alegria das minhas irmãs. Como sinto falta daquela alegria das minhas irmãs. Foi nisso que pensei quando entrei no furacão. É nisso que penso quando me perco. Minha irmã mais velha como um tipo de mãe sobressalente, minha irmã do meio me ensinando ironias, e a mais nova arrastando-se pela sala feito uma boneca triste. Meu pai, vermelho: este era o sinal de que já dera algumas bicadas na água que passarinho não bebe, ria como uma hiena. Sua alegria, todo final de ano, soava como acordes de um violão desafinado. Eu tinha, como sempre, vontade de ir embora. Pegar um trem, sei lá, um avião, ou atirar-me num lago, Que tri...

Os livros

De início, me interessei pelos livros, não necessariamente, pela leitura. Gostava de tocá-los, de ouvir o ranger das páginas em meus dedos - quase um sussurro - o cheiro, a textura. Também gostava de olhá-los: de frente, de trás, de lado, e por aí vai. As letras eram como formiguinhas congeladas nas folhas. Eu sabia que aquelas coisinhas pretinhas, juntas, formavam significados, sentidos. Davam nomes às coisas, às pessoas. Falavam da vida, da morte. Mas eu ainda não as entendia, eu só sabia disso porque o meu irmão mais velho lia para mim. Era como se ele puxasse com os olhos todas aquelas coisas lá dentro do livro. Como disse, eu apenas queria tê-los, vários, tantos, muitos, todos. Era um tipo de namoro sem segundas intenções, entende? Não me importava o gênero, ora, não sabia nada disso. Os livros para mim eram apenas livros e eu os queria. Queria-os em minhas mãos. Gostava dos desenhos, dos mapas, de tudo. Quando ainda muito pequeno e ainda sem saber ler, vejam, tive a minha primeir...

Só tenho o presente e olhe lá.

Nunca vou esquecer o que aconteceu. Tenho total consciência do que passei, passamos, sim, foi duro de roer – estamos roendo e parece que vamos roer ainda um bom tempo – mas não aguento mais escritos sobre a pandemia, Sei lá, encheu, deu. Aprendi? Aprendemos? talvez, talvez. Se sim, beleza, se não, gavião. O mundo nunca me pareceu melhor, nunca me pareceu menos violento. Afinal de contas, na Idade Média, os caras se matavam e se comiam. E hoje é diferente? Estou cada vez mais pessimista e não vou lamentar por isso até que alguém me apresente um motivo contundente para que eu não o seja. Duvido. Bom, não quero me alongar, a coisa tá feia. Não, não tenho esperança. A minha cota num tá na reserva, acabou. O meu sperare, tikvah ou elpis, como queira, já não aguarda. Meus olhos há muito não ondeiam nas águas do futuro. Vivo o presente, pois isso, bom ou ruim, é o que tenho. E sei que o tenho até o momento em que termino de pronunciar a palavra presente, pronto, já foi. É isso mesmo, tudo iss...